quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

What a wonderful world

Esses dias estava pensando numa resposta que mandei no formspring, para um anônimo, que me perguntou se eu gostava de "ser paranóica" e ver machismo, homofobia, racismo e derivados onde quer que seja. O anônimo depois retornou e pediu desculpas, dizendo que não tinha intenção de ofender, e aceitei na boa, mas a questão é que fica na cabeça, e esses dias fui reler a resposta, e acho que uma parte dela ("e, mais do que tudo, me sinto cansada, porque parece que é sempre o mesmo, de novo e de novo e de novo, porque de fato é" ) é uma das coisas mais sinceras que eu já disse.

Hoje, agora, escrevendo isso, eu estou cansada. Eu estou tremendamente cansada, porque me deparei com algo horrível, algo repugnante, algo tão horrível e repugnante como milhões de outras coisas que eu sempre vejo e lá estava a resposta de sempre, invocando a sátira, o humor, os supostos amigos gays de quem postou que aparentemente estão perfeitamente tranquilos com o ódio e o nojo que a pessoa obviamente carrega. E tão terrivelmente impressionante como é sempre o mesmo, sempre, sem falta, e isso meio que ultrapassa a minha barreira lógica que constata o fato de que a sociedade sempre foi assim para berrar "caralho, como, como, COMO isso pode parecer aceitável, em que mundo, em que existência, o que diabos injetaram na sua veia para te fazer acreditar que esse nível de falta de respeito e consideração é remotamente normal?!".

E se as pessoas de fato soubessem o que me impulsionou a fazer esse post (algo que não quero falar a respeito), muitas achariam um exagero, mas a grande questão é que não é, de fato, nunca, e, mesmo se fosse, esse não deveria ser o foco jamais. Porque se você foca na reação, se você examina-a e avalia-a antes de tudo, para ver se ela te parece adequada, então você esquece da ação que a motivou, e de tudo que há por trás dela, tudo que a torna possível.

Eu lembro de uma vez em que um grupo de meninas, na escola, resolveram mostrar um vídeo de um trabalho a respeito de "preconceito na dança". No vídeo, elas entrevistavam um bailarino que falava a respeito do assunto. E tudo o que eu me lembro daquele grupo sempre vai ser um menino sentado ao meu lado, que se levantou no início da apresentação, para ir ao banheiro, e, em resposta à pergunta da namorada, disse apenas: "Não quero ver isso". E não viu - foi embora e não voltou até o finalzinho da apresentação. E esse menino é um caso individual que pode ter uma relação muito mais profunda com esse assunto que qualquer um de nós imagina, mas o que mais se evidencia, para mim, é a demonstração tão pura e profunda de ódio, de repulsa, num gesto tão simples como apenas se levantar e ir embora, porque você não quer ver, porque você não quer nem tentar aceitar. E o que é mais enlouquecedor é saber que existe um número imenso de pessoas que só considera ódio (seja contra qual grupo for) quando há um crime, quando há a violência física. Mas o ódio está exatamente lá, nesse menino se levantando e virando as costas para o problema, na sua risada de piadas de bicha, no seu nojo de dois homens se beijando, na suas piadas de "volta pra cozinha", no seu "racismo irônico", no seu humor "politicamente incorreto". Nós somos criados no ódio. Somos esfregados e cobertos e envolvidos por ele desde a idade mais tenra, e a parte mais assustadora é que já estamos tão acostumados que a idéia de limpá-lo nos parece um exagero, uma bobagem, uma frescura. Então passamos a vida inteira assim, e, quando alguém tenta mostrar algo remotamente diferente, pedimos para ir ao banheiro e vamos embora.

E a violência física chega para assustar e intimidar, e sem dúvida há pena, nós não somos seres completamente sem coração, mas a pena vem acompanhada com um susto, uma intriga, uma falta de compreensão do que aconteceu. A morte, o estupro, a tortura, o tormento diário e constante não surge do nada - são coisas que germinam aos poucos, que vêm de "viado", "puta", "preto"; que vêm de risos; que vêm de estranhamento; que vêm de "nossa, como você é fresco, é só uma brincadeira"; que vêm de "mas é assim que as coisas são", que é repetido incansavelmente como um mantra, e um belo dia as coisas realmente são a ponto de deixar uma moça morta num beco, uma criança cortando os pulsos, um jovem espancado - e as pessoas levam um susto e dizem "nossa, que horror!", e depois completam com "tomara que o cara vire mulherzinha na cadeia!" ou "por isso é que a gente precisa de pena de morte!"; e voltam a viver suas vidas, absoluta e completamente cobertas de ódio até a alma, ridiculamente sujas, espalhando nojo e desprezo por onde passam, e se perguntando, muito vagamente, o que se passa na cabeça de alguém para fazer uma coisa terrível daquelas.

3 comentários:

  1. "Pâmela, tu tem que parar de falar essas coisas. Se não tu nunca vai ser aceita, entende? Tu tem que deixar rolar, parar de se importar tanto..."

    Amo a pessoa que me disse isso, mas mandei longe.

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  2. Perfeito como sempre, Fernanda.
    É incrível como você consegue colocar em seu texto toda a emoção que você está sentindo. E essa emoção passa para quem está lendo.
    Vai ver que é por isso que eu amo seu blog.

    Mas agora eu me lembrei de algo que aconteceu hoje de manhã: eu estava no supermercado com meus pais e na TV de lá estava passando Todo Mundo Odeia o Chris - que eu adoro, por sinal - e meu pai disse: "De novo passando esses pretos".
    E, sabe, eu fiquei muito triste ao perceber que o preconceito está tão perto de nós e é tão palpável que é absurdo como passa tão desapercebido.
    Às vezes eu fico me perguntando quem foi o idiota que teve a ridícula ideia de criar o preconceito. Na verdade, eu sei que... isso não foi criado depressa, foi todo um processo, mas é bom fingir que foi alguém que criou só pra ter em quem por a culpa.

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  3. Mas o que eu acho curioso é que se você questiona essas ofensas e reage a esse ódio, a maioria vai simplesmente fazer o que o anônimo fez: achar que é paranoia, dizer que 'foi só uma piadinha', e que 'bullyng é bom, ensina a viver' e 'não foi estupro, ela ficava se oferecendo' e mais um monte dessas justificativas horríveis, tidas como algo normal enquanto mascaram todo esse ódio que vc está falando sobre.

    Sempre que tento questionar essas coisas, e tento fazer perguntas ao invés de propostas (pegou? hahaha) alguém me chama de radical, de feminazi, de paranoica. E como o anon ali de cima falou, o preconceito está aqui do meu lado, dentro da minha família, e ele está dentro de mim também, enfiado goela-abaixo por todo um processo histórico. Mas a gente tenta mudar, né? A gente tenta. E se decepciona e se surpreende e tem vontade de fugir desse mundo com a quantidade de gente que ainda culpa a vítima por um crime de ódio.

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