sábado, 3 de março de 2012

Interlúdio II

Entre tudo que me falaram sobre o único ano do Ensino Médio, a coisa que considerei mais verdadeira, por enquanto, foi: "Passa rápido". Estamos em março, ainda, mas já percebi que é verdade. Passa rapidíssimo. Tão rápido, inclusive, que os dias parecem escorregar entre os dedos.

Talvez seja porque eu tenho algo a temer e com que me preocupar no final do ano. Talvez seja porque é o último. Não importa. Ao contrário da maior parte de quem estuda comigo, não estou morrendo de vontade de deixar a escola. Vou sentir falta, e, já agora, estou sentindo medo. Pensar no futuro, para mim, é o equivalente a pensar em religião ou em morte: Um exercício desgastante, complexo, polêmico e fundamentalmente inútil, já que nunca será capaz de alcançar uma conclusão 100% confiável ou certeira. Não me agrada, e, por isso, procuro evitar.

Não sei o que será desse blog durante esse ano, na realidade - tinha esperança de poder escrever mais, mas a falta de tempo que terei a partir de semana que vem provavelmente fará disso muito difícil. Mas esse nunca foi um lugar frequentemente atualizado, honestamente, então não creio que faça muita diferença. É um cantinho semi-abandonado que eu mantenho vivo de tempos em tempos por necessidade quase física, porque não posso, não devo, não quero parar de escrever, mas acabo fazendo se não me vigiar. Vou tentar seguir a sabedoria do famigerado Alastor Moody e manter essa vigilância num terreno constante esse ano, tanto aqui como no feminerds, como não consegui fazer ano passado. Vamos ver - e essa, aliás, é a minha convicção para o resto das minhas questões esse ano, ou, pelo menos, a que estou tentando ter. É a mais lógica, a mais adequado, e a menos desesperante, no final das contas.

Vou tentar escrever esse ano. Vou tentar passar no Enem. Vou tentar me acalmar e ter menos medo. Vou pensar "vamos ver", e, com um pouquinho de sorte, verei de fato.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

What a wonderful world

Esses dias estava pensando numa resposta que mandei no formspring, para um anônimo, que me perguntou se eu gostava de "ser paranóica" e ver machismo, homofobia, racismo e derivados onde quer que seja. O anônimo depois retornou e pediu desculpas, dizendo que não tinha intenção de ofender, e aceitei na boa, mas a questão é que fica na cabeça, e esses dias fui reler a resposta, e acho que uma parte dela ("e, mais do que tudo, me sinto cansada, porque parece que é sempre o mesmo, de novo e de novo e de novo, porque de fato é" ) é uma das coisas mais sinceras que eu já disse.

Hoje, agora, escrevendo isso, eu estou cansada. Eu estou tremendamente cansada, porque me deparei com algo horrível, algo repugnante, algo tão horrível e repugnante como milhões de outras coisas que eu sempre vejo e lá estava a resposta de sempre, invocando a sátira, o humor, os supostos amigos gays de quem postou que aparentemente estão perfeitamente tranquilos com o ódio e o nojo que a pessoa obviamente carrega. E tão terrivelmente impressionante como é sempre o mesmo, sempre, sem falta, e isso meio que ultrapassa a minha barreira lógica que constata o fato de que a sociedade sempre foi assim para berrar "caralho, como, como, COMO isso pode parecer aceitável, em que mundo, em que existência, o que diabos injetaram na sua veia para te fazer acreditar que esse nível de falta de respeito e consideração é remotamente normal?!".

E se as pessoas de fato soubessem o que me impulsionou a fazer esse post (algo que não quero falar a respeito), muitas achariam um exagero, mas a grande questão é que não é, de fato, nunca, e, mesmo se fosse, esse não deveria ser o foco jamais. Porque se você foca na reação, se você examina-a e avalia-a antes de tudo, para ver se ela te parece adequada, então você esquece da ação que a motivou, e de tudo que há por trás dela, tudo que a torna possível.

Eu lembro de uma vez em que um grupo de meninas, na escola, resolveram mostrar um vídeo de um trabalho a respeito de "preconceito na dança". No vídeo, elas entrevistavam um bailarino que falava a respeito do assunto. E tudo o que eu me lembro daquele grupo sempre vai ser um menino sentado ao meu lado, que se levantou no início da apresentação, para ir ao banheiro, e, em resposta à pergunta da namorada, disse apenas: "Não quero ver isso". E não viu - foi embora e não voltou até o finalzinho da apresentação. E esse menino é um caso individual que pode ter uma relação muito mais profunda com esse assunto que qualquer um de nós imagina, mas o que mais se evidencia, para mim, é a demonstração tão pura e profunda de ódio, de repulsa, num gesto tão simples como apenas se levantar e ir embora, porque você não quer ver, porque você não quer nem tentar aceitar. E o que é mais enlouquecedor é saber que existe um número imenso de pessoas que só considera ódio (seja contra qual grupo for) quando há um crime, quando há a violência física. Mas o ódio está exatamente lá, nesse menino se levantando e virando as costas para o problema, na sua risada de piadas de bicha, no seu nojo de dois homens se beijando, na suas piadas de "volta pra cozinha", no seu "racismo irônico", no seu humor "politicamente incorreto". Nós somos criados no ódio. Somos esfregados e cobertos e envolvidos por ele desde a idade mais tenra, e a parte mais assustadora é que já estamos tão acostumados que a idéia de limpá-lo nos parece um exagero, uma bobagem, uma frescura. Então passamos a vida inteira assim, e, quando alguém tenta mostrar algo remotamente diferente, pedimos para ir ao banheiro e vamos embora.

E a violência física chega para assustar e intimidar, e sem dúvida há pena, nós não somos seres completamente sem coração, mas a pena vem acompanhada com um susto, uma intriga, uma falta de compreensão do que aconteceu. A morte, o estupro, a tortura, o tormento diário e constante não surge do nada - são coisas que germinam aos poucos, que vêm de "viado", "puta", "preto"; que vêm de risos; que vêm de estranhamento; que vêm de "nossa, como você é fresco, é só uma brincadeira"; que vêm de "mas é assim que as coisas são", que é repetido incansavelmente como um mantra, e um belo dia as coisas realmente são a ponto de deixar uma moça morta num beco, uma criança cortando os pulsos, um jovem espancado - e as pessoas levam um susto e dizem "nossa, que horror!", e depois completam com "tomara que o cara vire mulherzinha na cadeia!" ou "por isso é que a gente precisa de pena de morte!"; e voltam a viver suas vidas, absoluta e completamente cobertas de ódio até a alma, ridiculamente sujas, espalhando nojo e desprezo por onde passam, e se perguntando, muito vagamente, o que se passa na cabeça de alguém para fazer uma coisa terrível daquelas.

domingo, 1 de janeiro de 2012

I hope

A grande questão a respeito de escrever algo sobre 2011, para mim, é que não foi um ano bom. Na verdade, foi, sob muitos aspectos, o pior que já estive muito tempo. Escrevi pouco no ano que se passou, tive muito medo, e me senti muito, muito mal. Mas uma coisa interessante sobre passagens de ano, a meu ver, é a esperança meio inútil e sem base concreta que elas trazem, com a idéia de que, esse ano, as coisas serão diferentes.

E o lado bom dessa idéia é que ela muitas vezes traz o estímulo necessário para que de fato seja possível melhorar as merdas do ano que se passou.

Esse ano não cheguei a ver "Um Sonho de Liberdade", foi no ano passado. Mas vou pegar emprestado o final do filme e do livro, que sempre gostei muito, para explicar a minha situação aqui. No final de 2009, para 2010, fiz convicções e promessas. Agora, no início de 2012, eu espero.

Espero que a minha confiança e minha escrita retomem o caminho progressivo que tinham antes - e, se tomarem um diferenciado, que este também vá para a frente.

Espero que, quando a dor e o medo inevitavelmente chegarem, eles não durem muito.

Espero que o terceiro ano não seja tão apavorante como me parece.

Espero que as pessoas me decepcionem menos, e, se o fizerem, que eu perceba e supere antes de muito tempo.

Espero que eu me surpreenda comigo mesma - positivamente.

Espero que o post que eu faça no final de 2012 seja uma reflexão boa, com memórias poéticas e bonitas.

Espero que seja bonito.

Espero que o túnel cheio de lama e ratos pelo qual me arrastei durante a maior parte desse ano resulte, afinal, numa chuva tão forte que traz uma sensação tão deliciosa para o seu corpo e a sua alma como a que a visão de um pôster da Rita Hayworth prometeria, para quem tivesse uma imaginação fértil.

E vocês sabem que eu tenho.