sábado, 26 de novembro de 2011

Daniel na cova dos leões

Liga o Ipod com aquela cara de quem preferiria estar em outro lugar. Ele acha Legião Urbana superestimado pra caralho - até que gosta, um pouco, mas não é isso tudo, não -, então muda e fica ouvindo Sex Pistols porque ele é exatamente esse tipo de existência pretenciosa que não ouve nada que não tenha modificado alguma coisa importante. Existe a porra do perfume do Sex Pistols hoje em dia, então ele também não é fã, mas eles tinham um som ótimo durante um tempo e God Save The Queen é muito, muito bom. Então ele senta e ouve, porque há uma certa superioridade em ouvir isso e ele gosta de se sentir superior, porque não o faz com frequência - a verdade é que não o faz quase nunca.

Recosta a cabeça na parede e fecha os olhos, o retrato do adolescente atormentado e privilegiado que vai passar o resto da vida tentando não ser assim. Pensa na noite passada, na voz do pai. Briga com o pai com uma certa frequência, mas não ontem, não, ontem tiveram uma conversa muito boa, falaram uma porção de merda e riram bastante. Pensa no pai e no que ele falou sobre escola e no que ele explicou sobre Filosofia. Ele vai fazer Filosofia e não quer ser professor, e portanto vai morrer de fome - o pai comentou rindo, porque ele fez o mesmo e teve que acabar ensinando, no fim das contas. Foda-se. Ele curte Filosofia porque é uma matéria fácil e importante e da qual ele consegue gabaritar as provas até quando está chapado (ou vai ver gabarita porque está chapado, né, de repente tem alguma verdade nesse estereótipo imbecil). Ele curte Filosofia, tava tentando explicar isso para Paulo ontem à tarde. Ontem à tarde explicou Filosofia para Paulo e ficou fingindo não notar quando ele puxava a gola da camisa para frente e mostrava um pouco dos ombros e o quanto ele estava suado. Ontem à tarde explicou Filosofia para Paulo e acabou comentando com o pai, e tiveram uma conversa boa - sobre Filosofia, não sobre Paulo. Nunca falou com ele de Paulo.

Aumenta o volume e aperta o botão para repetir a música quando só faltam alguns segundos para mudar de faixa. Nunca falou com pai de Paulo - mas já brigou com o pai por causa de Paulo, embora nenhum dos dois saiba disso. Já brigou com o pai por um milhão de coisas que nenhum dos dois sabe - Paulo porque ele nunca contou, e o pai porque ele não entende, não entenderia mesmo se ele contasse. Existe alguma coisa de errada com ele, pra falar a verdade, com essa mania de não querer falar nada para as pessoas. Também poderia existir uma coisa de errada com ele por ser gay, mas ele não acredita nisso, acha que isso seria simples demais, o buraco é mais embaixo. "God save the queen, we mean it, man" e ele muda de música, vai ouvir Legião Urbana, porque só porque acha eles superestimados não quer dizer que não goste. Renato Russo também gostava de homem, pelo que ele ouviu, e uma porção de homofóbicos gosta dele, porque todos tem merda no lugar do cérebro e não sabem nem pesquisar a respeito de algo antes de admirá-lo.

De novo, foda-se, não é esse o problema. O problema não é ele, o problema é todo o mundo - até seu pai, até Paulo. O problema é que ele é um mimadinho pretencioso e arrogante até o cu que se acha diferente demais para reconhecer isso; o problema é que ele realmente gostaria de não ser assim, mas não sabe ser de outro modo. O problema é que o problema, mesmo, no fundo, ele não sabe, e sem saber o problema não se encontra a solução. Então ele não procura a solução, há muito tempo - só senta na parede e escuta música alta, como todo mundo, como ele não queria fazer. Ele acha que deveria fazer algo diferente, ele acha que há algo nele, em si, que deveria mudar todo mundo, mas não sabe o que é esse algo e não sabe como mudar, então não faz nada. A merda de querer concertar algo é que a última coisa que passa pela sua cabeça é que talvez esse algo não possa ser concertado, e ele pensa que talvez tudo no mundo seja assim, então qual é o ponto? Ele pensa que seria legal se houvesse um ponto, mas talvez não haja, e a parada é que ninguém nunca vai conseguir provar o contrário.

A parada é que ninguém nunca vai conseguir convencê-lo de que vale a pena.



Então senta num canto da escola e ouve música, e se acha extremamente certo e errado e babaca ao mesmo tempo. Puta que pariu, Renato, já parou para pensar nisso? Às vezes o salva-vidas só não está lá, porra.

1 comentários:

  1. Sim. Sim, ele ficou muito foda. Acho que os textos ficam... sei lá, mais... intensos quando a gente pensa em alguém enquanto escreve. Esse texto tá bem intenso. Eu gostei bastante. Mas hahaha quantas... ironias, não é. Coitadinho.

    "Até bem pouco tempo atrás poderíamos mudar o mundo, quem roubou nossa coragem?" - eu só espero que essa música não se encaixe nele, no futuro.

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