
Ela senta-se à mesa. Senta-se à mesa e lê, calma e vagarosamente, com o folheto de compras nas mãos enrugadas, os olhos castanho-claros passando pelas frases e lendo-as como se fossem a coisa mais importante nesse mundo - e talvez não seja deste, mas com certeza é do dela. O mundo dela é muito simples, muito mais padronizado e categorizado do que o original, sem as complexidades ou os dramas que o outro traz. É organizado, pois é uma pessoa organizada. Sua mãe lhe dizia que era organizada - sua mãe lhe dizia que era inteligente, sua mãe lhe dizia que era "ouro sobre azul". Sua mãe há muito tempo se foi, no entanto, e ninguém mais lhe disse o mesmo, mas ela não se importa: Gostava bastante de ouvi-la dizer, e guardou o elogio para a vida toda. E, agora, com esta já quase no final, senta-se à mesa e lê o folheto. Faz oitenta anos e preocupa-se com o jantar de segunda-feira, porque é assim que seu mundo é: É simples, é previsível, é extraordinariamente pequeno. E enquanto pensa nos preços do salaminho e do requeijão, ela é uma figura triste - boa, mas triste. Ela é uma figura triste porque tanta gente despreza o seu mundo. Mas ele é válido, é organizado, está lá. Está lá e não faz mal a ninguém, no fundo, porque apesar de todas as suas percepções erradas é simplesmente pequeno demais, minúsculo demais para afetar alguém. Neste mundo o prato de segunda-feira é preocupação da mais alta importância, assim como a maneira mal-educada com que a mulher da mesa ao lado do restaurante comia sua carne; neste mundo a pior coisa que alguém pode ficar é "pê da vida", e a melhor coisa que alguém pode ser é ouro sobre azul.
Não é mundo nascido de ignorância, pelo contrário, é nascido de uma escolha. É nascido da observação e experiência em primeira mão de que o nosso mundo não só é grande e complicado em excesso como também por demais cruel com aqueles que não merecem; e da decisão, portanto, de que aquela que não merece merece, de fato, algumas bases nas quais ficar em pé. O folheto de compras, o jantar de segunda-feira. Pensa em ambos, faz oitenta anos e então dorme na própria mesa, cochilando de leve com a cabeça sobre os braços, como se estivesse chorando. Mas é um sono tranquilo. Sonha com o colo da mãe, e com servir uma excelente refeição, e com uma moedinha dourada flutuando no meio céu - e sente uma paz inequívoca e deliciosa, que sonhos mais grandiosos jamais seriam capazes de lhe proporcionar.
Ficou incrivelmente bonito. Como estavam comentando com a Júlia um dia desses, não tem beleza sem dor. haha Ficou lindo, mesmo.
ResponderExcluirKISSUS