quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Entre espírito e carne

Sempre acho chato quando algo bonito e significativo que pretendo fazer é impedido por uma trivilidade boba. Aconteceu hoje, porque em dezesseis anos de existência aparentemente nunca me ocorreu comprar uma roupa ou um acessório roxo. Mas tudo bem - porque aqui não é exatamente conhecido, afinal, e é só um simbolismo bonito, mesmo.

Acho que o que mais me agrada no Spirit Day é a escolha do tema e da cor. Não força, não esperança, mas espírito. Espírito é uma palavra linda, não necessariamente pela semântica, mas sim pelo conceito. Tem um toque de individualidade, uma celebração do que é único. É algo no geral bem pouco produtivo, mas há um certo conforto na união que traz saber que milhares de pessoas fizeram questão de usar determinada cor hoje só porque se importam. E se importar é sempre o início, sempre o primeiro passo de uma coisa boa.

Não sei o que dizer a respeito de bullying. Nunca soube, em particular, a respeito desse assunto, mas atualmente outros fatores se somam e fazem o desenvolvimento desse post uma coisa quase dolorosa, lenta, cujo resultado me desagrada. Nem sei se há alguém que leia isso que possa estar passando por algo parecido, nem sei se isso será lido. Mas o fato é que meses atrás vim aqui para lembrar uma coisa, e acho importante vir aqui agora para lembrar outras, porque as pessoas têm uma facilidade abismal para esquecer, é impressionante. Têm facilidade em esquecer, têm facilidade em ignorar, e têm muita, muita inclinação para o ódio - tanta, na verdade, que às vezes a impressão é que é só isso que elas têm. E ódio é um conjunto de raízes que rastejam de maneira repugnante pelas suas barreiras apenas para se cravarem no meio delas de repente, e quase sempre, quando são retirados os buracos continuam lá. Continuam, sim.

O que eu queria dizer, mesmo, não é a que presença deles não significa fraqueza (embora não o fala, nunca, jamais, em qualquer circunstâncias), mas sim de que não é sobre fraqueza e é necessário, é fundamental que isso seja entendido. Não é sobre fraqueza porque fraqueza tem a ver com culpa, tem a ver com responsabilidade. E o que eu queria te dizer é que a culpa jamais é sua, a responsabilidade jamais cabe a você. Quando cada dia, cada hora, cada minuto da sua existência é uma luta, e os inimigos estão em toda a parte, a sensação inevitável é se achar errado. E a verdade dolorosa é que você não é o errado. As pessoas, a sua família, os seus colegas, os seus professores, a sua cidade, o seu país, o seu planeta, o seu universo estão errados (imensa, absurdamente errados), mas você não. Nunca.

E há um milhão de promessas que eu gostaria de te fazer, mas não as farei porque não as garanto e não sei quão efetivas serão. Há um milhão de coisas belas que eu queria estruturar para te falar, e um abraço apertado e longo que eu gostaria de poder fazer acontecer, mas nesse momento as palavras cairiam vazias e o abraço é inviável.

Então vou te dizer que a solidão é tóxica e horrível ao ponto em que a saída parece inexistente, mas nunca é. Vou te dizer que pedir ajuda é sempre ideal, mas, se mesmo assim ela não vem, não significa que não valha a pena - e não signfica que jamais virá. Vou te dizer que eu pretendo dedicar a minha vida inteira para garantir que ela um dia venha. E se a escolha de tirar a sua lhe parece a única solução viável, não tenho as palavras para te convencer a não fazê-lo - mas vou dizer, também, que a beleza inegável da cor roxa vem de como ela brilha tão obviamente daquela maneira apesar de tudo discreta, quando a bandeira do orgulho gay é colocada contra o sol. E vou dizer que a sua existência (com toda a dor, todo o medo, toda a raiva que acaba acontecendo no meio dela) é uma das coisas mais belas que esse mundo já teve a honra de abrigar, e que se uma vontade egoísta me fosse permitida, eu pediria para não privá-lo dela porque a importância do que você é (que é maior do que qualquer um de nós dois jamais compreenderá) e do que você vai ser é algo que o universo merece ver acontecendo. Se possível.

Não vou dizer que vai valer a pena; mas vou dizer que vale a pena, agora, porque você vale muito, muito mais do que tudo isso. Muito mais.

E que eu estou aqui se você sentir que quer conversar.


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