sábado, 29 de outubro de 2011

Nesta data querida


Ela senta-se à mesa. Senta-se à mesa e lê, calma e vagarosamente, com o folheto de compras nas mãos enrugadas, os olhos castanho-claros passando pelas frases e lendo-as como se fossem a coisa mais importante nesse mundo - e talvez não seja deste, mas com certeza é do dela. O mundo dela é muito simples, muito mais padronizado e categorizado do que o original, sem as complexidades ou os dramas que o outro traz. É organizado, pois é uma pessoa organizada. Sua mãe lhe dizia que era organizada - sua mãe lhe dizia que era inteligente, sua mãe lhe dizia que era "ouro sobre azul". Sua mãe há muito tempo se foi, no entanto, e ninguém mais lhe disse o mesmo, mas ela não se importa: Gostava bastante de ouvi-la dizer, e guardou o elogio para a vida toda. E, agora, com esta já quase no final, senta-se à mesa e lê o folheto. Faz oitenta anos e preocupa-se com o jantar de segunda-feira, porque é assim que seu mundo é: É simples, é previsível, é extraordinariamente pequeno. E enquanto pensa nos preços do salaminho e do requeijão, ela é uma figura triste - boa, mas triste. Ela é uma figura triste porque tanta gente despreza o seu mundo. Mas ele é válido, é organizado, está lá. Está lá e não faz mal a ninguém, no fundo, porque apesar de todas as suas percepções erradas é simplesmente pequeno demais, minúsculo demais para afetar alguém. Neste mundo o prato de segunda-feira é preocupação da mais alta importância, assim como a maneira mal-educada com que a mulher da mesa ao lado do restaurante comia sua carne; neste mundo a pior coisa que alguém pode ficar é "pê da vida", e a melhor coisa que alguém pode ser é ouro sobre azul.

Não é mundo nascido de ignorância, pelo contrário, é nascido de uma escolha. É nascido da observação e experiência em primeira mão de que o nosso mundo não só é grande e complicado em excesso como também por demais cruel com aqueles que não merecem; e da decisão, portanto, de que aquela que não merece merece, de fato, algumas bases nas quais ficar em pé. O folheto de compras, o jantar de segunda-feira. Pensa em ambos, faz oitenta anos e então dorme na própria mesa, cochilando de leve com a cabeça sobre os braços, como se estivesse chorando. Mas é um sono tranquilo. Sonha com o colo da mãe, e com servir uma excelente refeição, e com uma moedinha dourada flutuando no meio céu - e sente uma paz inequívoca e deliciosa, que sonhos mais grandiosos jamais seriam capazes de lhe proporcionar.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Entre espírito e carne

Sempre acho chato quando algo bonito e significativo que pretendo fazer é impedido por uma trivilidade boba. Aconteceu hoje, porque em dezesseis anos de existência aparentemente nunca me ocorreu comprar uma roupa ou um acessório roxo. Mas tudo bem - porque aqui não é exatamente conhecido, afinal, e é só um simbolismo bonito, mesmo.

Acho que o que mais me agrada no Spirit Day é a escolha do tema e da cor. Não força, não esperança, mas espírito. Espírito é uma palavra linda, não necessariamente pela semântica, mas sim pelo conceito. Tem um toque de individualidade, uma celebração do que é único. É algo no geral bem pouco produtivo, mas há um certo conforto na união que traz saber que milhares de pessoas fizeram questão de usar determinada cor hoje só porque se importam. E se importar é sempre o início, sempre o primeiro passo de uma coisa boa.

Não sei o que dizer a respeito de bullying. Nunca soube, em particular, a respeito desse assunto, mas atualmente outros fatores se somam e fazem o desenvolvimento desse post uma coisa quase dolorosa, lenta, cujo resultado me desagrada. Nem sei se há alguém que leia isso que possa estar passando por algo parecido, nem sei se isso será lido. Mas o fato é que meses atrás vim aqui para lembrar uma coisa, e acho importante vir aqui agora para lembrar outras, porque as pessoas têm uma facilidade abismal para esquecer, é impressionante. Têm facilidade em esquecer, têm facilidade em ignorar, e têm muita, muita inclinação para o ódio - tanta, na verdade, que às vezes a impressão é que é só isso que elas têm. E ódio é um conjunto de raízes que rastejam de maneira repugnante pelas suas barreiras apenas para se cravarem no meio delas de repente, e quase sempre, quando são retirados os buracos continuam lá. Continuam, sim.

O que eu queria dizer, mesmo, não é a que presença deles não significa fraqueza (embora não o fala, nunca, jamais, em qualquer circunstâncias), mas sim de que não é sobre fraqueza e é necessário, é fundamental que isso seja entendido. Não é sobre fraqueza porque fraqueza tem a ver com culpa, tem a ver com responsabilidade. E o que eu queria te dizer é que a culpa jamais é sua, a responsabilidade jamais cabe a você. Quando cada dia, cada hora, cada minuto da sua existência é uma luta, e os inimigos estão em toda a parte, a sensação inevitável é se achar errado. E a verdade dolorosa é que você não é o errado. As pessoas, a sua família, os seus colegas, os seus professores, a sua cidade, o seu país, o seu planeta, o seu universo estão errados (imensa, absurdamente errados), mas você não. Nunca.

E há um milhão de promessas que eu gostaria de te fazer, mas não as farei porque não as garanto e não sei quão efetivas serão. Há um milhão de coisas belas que eu queria estruturar para te falar, e um abraço apertado e longo que eu gostaria de poder fazer acontecer, mas nesse momento as palavras cairiam vazias e o abraço é inviável.

Então vou te dizer que a solidão é tóxica e horrível ao ponto em que a saída parece inexistente, mas nunca é. Vou te dizer que pedir ajuda é sempre ideal, mas, se mesmo assim ela não vem, não significa que não valha a pena - e não signfica que jamais virá. Vou te dizer que eu pretendo dedicar a minha vida inteira para garantir que ela um dia venha. E se a escolha de tirar a sua lhe parece a única solução viável, não tenho as palavras para te convencer a não fazê-lo - mas vou dizer, também, que a beleza inegável da cor roxa vem de como ela brilha tão obviamente daquela maneira apesar de tudo discreta, quando a bandeira do orgulho gay é colocada contra o sol. E vou dizer que a sua existência (com toda a dor, todo o medo, toda a raiva que acaba acontecendo no meio dela) é uma das coisas mais belas que esse mundo já teve a honra de abrigar, e que se uma vontade egoísta me fosse permitida, eu pediria para não privá-lo dela porque a importância do que você é (que é maior do que qualquer um de nós dois jamais compreenderá) e do que você vai ser é algo que o universo merece ver acontecendo. Se possível.

Não vou dizer que vai valer a pena; mas vou dizer que vale a pena, agora, porque você vale muito, muito mais do que tudo isso. Muito mais.

E que eu estou aqui se você sentir que quer conversar.


sábado, 15 de outubro de 2011

Quando você sabe

No fundo a sensação que tenho é que o que eu queria, mesmo, era alguém que soubesse mais do que eu - alguém que soubesse, mais precisamente, a respeito de tudo que existe e que já existiu, tudo que já foi indagado e que ainda se indagará. O ruim dessa pessoa não existir é que nunca tenho como saber se o caminho é errado ou certo, se a atitude é boa ou má, se vai me fazer bem ou não - se eu mereço que faça bem ou não. E, sem isso, entro num ciclo de angústia inútil, porque sou humilde o suficiente para ouvir a opinião alheia, mas arrogante o bastante para discordar. As soluções oferecidas me soam fracas, fora do lugar, e acabo não usando de verdade nenhuma. E então o que bate é uma certa culpa por me sentir mal, por colocar a responsabilidade nos outros, por ser tão egoísta e patética; e então a arrogância retornará, lenta e aos poucos, para sugerir que não, não sou assim, tem várias coisas boas a meu respeito, tenho várias qualidades. Mas a grande questão é aquela voz fraquinha que permanece se perguntando, e se eu estiver errada? E a pior parte é que ela não me causa nem dor, só um espécie de desespero silencioso, porque a única resposta que eu tenho pra ela é que não sei, que não tenho nunca como saber com certeza, e ela se ressente profundamente por isso e somos duas, para te falar a verdade. Pro inferno com a maravilha da complexidade: O que eu queria mesmo, agora, era uma maneira de entender tudo, saber exatamente como se faz - e, quando o erro viesse (porque é claro que viria), saber exatamente qual era ele, e como resolvê-lo.

O problema não é que eu não tenho essa resposta - o problema é que ela não existe. Tudo nesse mundo é uma bagunça gigantesca, com diamantes preenchidos por quantidades variadas de lixo espalhados no meio da humanidade.



Não é nenhuma grande descoberta, creio eu. Na verdade, está mais para uma afirmação do óbvio. Mas acho que experimentar na pele é uma das coisas mais dolorosas pelas quais já passei.