segunda-feira, 25 de julho de 2011

Retrospecto

Se tem alguma coisa que me assusta na morte, é o quão insensível pareço em relação a ela. É mais do que medo ou apreensão: É o fato de que, ultimamente, sinto que a morte das pessoas me afeta muito menos do que deveria, pelo que vejo. O que acaba batendo é uma sensação de culpa, e um pouco de melancolia, porque pra mim passa tão rápido. "A vida continua" é um clichê que todo mundo ouve e repete, e acho que poucas vezes dá pra notar o peso dessa frase, e o quão ridiculamente apressada a vida é para continuar - ainda hoje me dá um peso irracional na consciência por ter tomado banho e jantado normalmente no dia seguinte ao que o meu avô morreu. Mas o maior problema não é com pessoas próximas, mas sim com gente mais distante.

É por isso que me dá uma certa dúvida escrever esse post. Porque o fato é o que o laço mais forte que eu tive com uma pessoa que foi embora essa manhã não passou de uma troca bem passageira todas as manhãs durante dois anos, um "Bom-dia, seu Alfredo" e um "Bom-dia, Fernandinha"; às vezes acompanhado de um comentário sobre eu estar atrasada. O que é que você escreve para provar que isso significou algo, e como é que você explica que vai fazer falta? Eu não sabia nada sobre aquele senhor simpático que me lembrava de passar a carteirinha antes de subir para a sala, no final das contas, mas a dor existe do mesmo jeito, a falta permanece mesmo assim, e vai bater um incômodo inequívoco daqui a uma semana, voltar para a aula e não encontrá-lo lá mais. E olha, o esquisito é que isso não tinha nem passado pela minha cabeça, no período em que ele ficou afastado. Não que não fosse provável, mas que o caso era que ele tinha se tornado parte da minha manhã por um bom tempo, e de certa forma encontrá-lo sentado na cadeira próxima ao portão se tornou tão esperado como encontrar a minha sala depois dos três lances de escada. Tinha se tornado parte do lugar, uma parte viva, com um milhão de outros detalhes e características que eu jamais virei a conhecer, e que outras pessoas estão lamentando, agora, enquanto escrevo.

Há um tempão atrás, eu disse que às vezes uma pessoa se torna importante simplesmente por estar lá, num momento, e acho que na época não me ocorreu o quão certo isso era. É tão fácil se acostumar a alguém, e é tão, tão difícil explicar porque. E é impressionante, pra mim, como parece que o mundo inteira fica procurando tão desesperadamente por esse sentimento de afeição como se fosse algo tão complicado de achar, quando na verdade nua crua ele tem o sono tão leve que desperta com um sorriso, um aceno de cabeça, algumas palavras sem significado particular. Vou sentir sua falta, seu Alfredo - não saudade, mas falta. E, no fundo, o que me dói mais é saber que nunca pude te dizer isso, e nunca teria tido coragem de fazê-lo, mesmo se você estivesse aqui - assim como há ainda tantos outros que me fariam falta e não o sabem, porque falta intimidade, faltam os vínculos, e amor é um sentimento ridiculamente simples do qual a gente é ensinado a se envergonhar. É muito triste, isso. É muito triste que carinho e afeição tem que ser abafados porque existem por motivos tão básicos como você sempre ter me parecido um senhor tão legal. O seu bom-dia era sempre tão animado. As pessoas significam tão mais umas para as outras do que nós somos ensinados a expressar.