sexta-feira, 29 de abril de 2011

Ex nihilo nihil

Não tenho escrito muito ultimamente. Mas não é como antes, na verdade, é mais um misto da falta de tempo com o fato de que tenho pensado demais. Tenho pensado demais, e é engraçado porque a conclusão a que chego, nesse caso, é que quando o Wilde disse "toda Arte é completamente inútil", ele tinha toda a razão. Vejam, não que eu ainda não a ame - eu amo, profundamente, e acho que nunca vou deixar de amar, não importa o que aconteça -, mas o fato, que não precisa ser ruim nem bom, é que toda criação é só uma imitação barata, inverossímil e incomparável ao que de fato existe. Não é uma crítica, é só uma constatação: Porque tudo que é criado, no fundo, surge de um cérebro humano com milhares de características e detalhes que nós jamais chegamos nem perto de compreender - e esse cérebro vai sempre criar algo que seja, em algum nível, compreensível, assimilável, com uma mensagem e um sentido ao nosso alcance. E enquanto as partes internas da ficção podem ter medidas e porporções desiguais ou difíceis de enxergar à primeira vista, elas estão sempre lá; já a realidade é mais como um caleidoscópio, com uma porção de formas e cores colocadas juntas de maneira aleatória, das quais todos os seres humanos podem tirar o sentido que quiserem e de certa forma jamais estarão errados, porque nunca há como saber, de verdade, a interpretação certa.

Acho que isso está saindo mais complicado do que deveria. Não quero enfeitar nada, mesmo, mas é que realmente soa confuso. O Stephen King tem um nome pra isso num dos livros dele, em que ele cita uma história de um cachorro que foi abandonado em outro país e procurou até encontrar seus donos, e diz que todo mundo acharia absurdo se isso fosse uma história publicada, mas como aconteceu de verdade todos se impressionam. O nome do cachorro é Ralph, e ele diz: "A realidade é Ralph". E é verdade, Steve, a realidade é Ralph, e é algo que todos nós aprendemos a rejeitar. É a arrogância humana aparecendo novamente, achando que nossas criações superam o mundo que as originou.

Não querendo subestimar os humanos, é claro. Mas o fato é que a mente humana gosta de fazer as crianças acreditarem que um coração é uma forma ridícula unidimensional composta por duas retas e duas curvas do que aquela massa horrorosa pulsando cheia de sangue, veias e vida. Aquela massa vermelha e controladora que jaz no centro de todos os nossos corpos, e até ela é substituída. Bate cerca de cem mil vezes ao dia para ser esquecida. Não há como ganhar, mesmo.

E eu, que gostaria de escrever para sobrevivência algum dia, observo tudo e penso ao invés de escrever, por enquanto, que os melhores personagens que já na vida são aqueles que observo ao meu redor. É uma coisa que tentarei, ao longo das palavras rabiscadas ou digitadas, imitar; é uma coisa que tentarei por anos, se tiver sorte, e vou falhar tão miseravelmente como qualquer outro. Talvez seja por isso que acredito piamente que todo os seres humanos que já pisaram na Terra são, de certa forma, bonitos - porque, no fundo, e que todos os meus possíveis colegas me perdoem por isso, há uma beleza inerente na existência que o não-real não poderá jamais alcançar: Pois a criação é necessária e fundamental, mas a realidade é indefinível e muitíssimo mais bela - a beleza do comum, do respirar, do que vive e morre no intervalo de tempo de uma batida de coração. Indomável.

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