O meu primeiro contato com feminismo foi em 2009. Foi através de um blog, na verdade, que eu recomendo pra qualquer um até hoje - ou, melhor, pra qualquer uma. Eu nunca tinha pensado antes em machismo concretamente. Digo, sabia que era errado, e como autêntica menina-moleque desde a infância, eu aprendi a desprezá-lo, mas, como é que posso explicar? Na época, lá pelos meus sete anos, eu queria ser um menino. Não no sentido disfórico da coisa, digamos, mas era uma vontade autêntica, nascida por anos de raiva e indignação de ter sido criada no... Bem, no mundo em que vivemos. Agora, não vem pensando que eu era um prodígio nascido com o sangue feminista fervendo pelos direitos iguais, porque a verdade mesmo era que eu, no alto da minha pré-escolaridde, me considerava meio superior a essa raça tão fútil e desprezível que era a feminina. As meninas eram tão chatas, tão bobas, tão obcecadas por namoro. Todos os heróis eram exatamente isso: Heróis, no masculino, os homens salvando o dia em todos os desenhos animados, todos os quadrinhos, todos os filmes, e aquelas meninas insuportáveis sempre berrando para serem salvas, e eu via tudo aquilo e me enfurecia porque eu não era assim - eu queria salvar o mundo, eu queria matar o vilão, e, puta que pariu, como eu ODIAVA todo aquele rosa!
Detestei rosa durante anos. Soa bobo falar agora, mas o fato é que, para mim, aquela cor era sinônimo de fraqueza. Era sinônimo de atrapalhar as lutas nos desenhos suspirando pelo cara mau, sinônimo de passar horas se arrumando e não ir brincar na lama para não sujar o cabelo, sinônimo de que, argh, a pessoa dona daquele pertence era uma mulher, que jamais acrescentaria nada à história além do romance e dos beijos que me davam nojo. Era sinônimo da Barbie, das bonecas, dos lados das lojas de brinquedos todos pintados daquela cor e nos quais eu me sentia enjoada só de entrar. A pior parte é que não estou nem exagerando. Durante anos eu "lutei" contra o machismo me agarrando àquela noção perturbada de que, sim, eu era uma garota, mas não era como "o resto". Eu era "diferente". Na maior parte do tempo era natural, mas houveram momentos em que me esforcei para esconder qualquer coisa que pudesse dar bandeira dessa minha terrível anormalidade biológica - lembro até hoje de uma vez em que, preparando um cartão na salinha de artes para o Dia das Mães, não quis escrever "eu te amo" no papel porque achei que aquilo soava sentimental demais, "afeminado" demais. Acabei escrevendo outra coisa, algo como "você é a melhor mãe do mundo", algo que me soou "masculino" (e, portanto, legal) o suficiente.
É claro que o meu caso deve ter sido um pouco mais extremo do que a maioria (ou, pelo menos, espero sinceramente que sim). Mas divago. Enfim, em 2009 eu entrei em contato com esse blog, nem lembro como, e foi a primeira vez que ouvi sobre feminismo de fato. Eu já não evitava toda e qualquer forma de conexão à "feminilidade" como antes, mas era como se o assunto não existisse, porque ninguém jamais veio falar comigo sobre machismo como um problema recorrente, atual. Sabia, sim, que falar que uma mulher pertencia à cozinha e dentro de casa era machista, mas só enxergava o machismo do comentário, da frase isolada, não do mundo à minha volta. Foi a Lola que me ensinou, ainda que indiretamente, que feminismo não pregava a superioridade feminina - e, apesar de ainda haverem divergências no movimento e cada um ter direito à sua definição mais detalhada, para mim a palavra igualdade é suficiente para resumir, de certo modo.
E com o tempo o movimento chegou em mim, e com o tempo passei a olhar mais ao meu redor: Passei a olhar como fazer as coisas "como uma garotinha" é um insulto; como velhos com mais do triplo da minha idade se sentem confortáveis para assoviar para uma menina de catorze anos na rua; como um homem que não me conhece e jamais falou comigo na vida se sente no direito de me dizer "Dá licença, minha linda"; e milhões de outras coisas que em sua maioria nem são ditas ou feitas por mal, mas frutos de uma opressão e uma separação de séculos, de eras, de anos e que perdura até hoje: Eu ia escrever os exemplos no passado, mas lembrei que tudo isso eu vi e vejo acontecendo, ainda, agora, enquanto digito aqui pra vocês. Eu ia escrever mais exemplos, mas o fato é que o blog da Lola, o blog da Lu, e, porra, a sua vida têm muito mais situações e momentos que, por menores que sejam, expressam bem o que eu estou querendo dizer aqui. A razão - as milhares, infinitas razões - pela qual eu sempre tremo de medo quando me vejo caminhando sozinha numa rua escura e encontro um homem; pela qual um menino que brinque de boneca é visto como desprezível; pela qual, nesse mundo, o poder ser um substantivo masculino é ironicamente apropriado.

Eu pensei muito no que dizer sobre feminismo aqui. Tenho rascunhos e rascunhos sobre divisão de papéis, sobre padrão de beleza, sobre misoginia, sobre o ódio que ainda existe e como muitas vezes nós odiamos, como eu odiei, só por causa do que nos ensinam e nos ensinavam. Sobre como eu sinceramente acho que qualquer pessoa, não importa o seu gênero, deve ser feminista pela simples questão de saber o que é certo e o que é fato: E o fato é que, nesse mundo, nascer sem algo entre as pernas também significa nascer sem respeito, sem autonomia, sem liberdade, sem direitos, ainda, de certo modo, não importa o quanto tenhamos progredido (e progredimos muito, essa é a pior parte) - nascer sem humanidade, sem individualidade, sem voz. Nascer para ser moldada e admirada de acordo com o prazer alheio, e nunca o prazer de outra mulher, jamais, pois isto também é negado. Nascer pro mundo, outro substantivo apropriadamente masculino, e viver para ele, para eles, jamais para si mesma.
Eu pensei em falar tudo isso.
Eu pensei em falar tudo isso e talvez ainda fale - provavelmente, aliás, agora que finalmente o nó que vinha antes está se desfazendo aos poucos enquanto eu escrevo essas palavras. Machismo e sexismo me pegam de jeito porque é o que mais me afeta, de todos esses preconceitos que eu odeio e abomino. Acho que é por isso que é tão difícil de falar, tão difícil de expressar num único texto, porque enquanto eu escrevo isso, no fundo, uma parte de mim está esperando ser atacada por fazê-lo, mesmo que as poucas pessoas que leêm e comentem nisso daqui nunca tenha feito nada parecido. Uma parte de mim está silenciosamente esperando por um comentário falando que estou exagerando, que estou fazendo drama, que no fundo eu odeio mesmo todos os homens, por isso invento besteiras para reclamar deles. Acho também que deve ser questão de tempo: Homofobia passou a me afetar de verdade há uns dois anos, racismo nunca me afetou diretamente, mas machismo me afeta diretamente há quinze anos, a partir do momento em que o médico me pegou no colo e olhou entre as minhas perninhas para dizer: "Parabéns, é uma menina!"
Não sou contra o Dia da Mulher. Pelo contrário, acho ótimo que ele exista, acho ótimo que alguém tenh se preocupado em criá-lo. Mas me dói que, para cada pessoa que sabe e entende de verdade o motivo para que esse dia ainda seja necessário, existem outras cem que usam dele para me agradecer por embelezar o mundo - sem jamais me perguntar se me interessei em fazê-lo em primeiro lugar - e por ser tão forte - sem jamais me perguntar as razões que fizeram com que essa força exista (e força é substantivo feminino). E me dão uma rosa.
Uma rosa.
Uma rosa - uma rosa por todos os estupros, as surras, os xingamentos, os boatos, os cochichos, as zombarias, os estereótipos. Uma rosa por todos os sonhos despedaçados, por todas as lágrimas derramadas, por todos os pensamentos de auto-flagelo e terror. Uma rosa por todos os amores escondidos, por todas as vontades não realizadas, por todas as reclamações ignoradas, pelo grito reprimido. Uma rosa pelo nojo, pelo ódio, pelo desprezo, pelo escárnio, pela leve desconsideração. Uma rosa pelo riso segurado, pelo palavrão não dito, pelas amarras invisíveis e profundas. Uma rosa pela opressão, pelos apalpamentos, pelas generalizações, pelas expectativas. Uma rosa pelas mortes - uma rosa por aquelas que morreram queimadas numa fábrica por uma igualdade que nenhuma de nós chegou a ver ainda.
Uma rosa - colhida e morta.
Ironicamente apropriado.
<3
ResponderExcluirporra.
ResponderExcluir... Já posso ir dormir em paz, sabendo que tem alguém como você no mundo.
ResponderExcluireu fui parabenizar as mulheres que eu conheço no dia das mulheres e varios homens tinham esquecido desse dia, só que tudo bem por isso o ruim foi eles terem dito que era o dia das mulheres pq o resto era dos homens, que bom que eles disseram isso. eu compreendo tudo o que voce diz, por varios motivos e eu concordo, parabéns pelo texto, foi muito bom mesmo.
ResponderExcluireu não me considero feminista propriamente dito porque eu não sou tão radical... mas acho que pelo menos uma boa parte disso tudo aí eu penso também normalment (e concordo com tudo, é óbvio).
ResponderExcluirmas eu as vezes não me sinto no direito de dizer que sou feminista, pelo que eu sou (tu sabe o que eu tô faando) e sei lá... as vezes me sinto "traindo" todo esse movimento de um jeito tão radical que não posso me considerar feminista, mesmo que tenha aversão ao machismo de todas as formas possíveis. as vezes me sinto machista por sentir o que eu sinto pelo meu corpo do jeito que ele é agora...
mas o texto ficou muito bom e é bem isso aí mesmo. quase toda aula de português eu me pego pensando uma coisa que você não disse aí: o pronome "ele/eles", que é muito mais usado que "ela/elas". que é usado principalmente, quando você fala de plural, onde pode ter um menino no meio de vinte meninas, o grupo vai ser chamado "eles". sei lá, divago demais as vezes, mas é uma coisa que eu penso frequentemente.
e eu ia escrever pra caramba, mas não vou não... é que eu vi billy elliot ontem e, porra, O FILME INTEIRO PRATICAMENTE é o que eu estou querendo dizer no comentário. um machismo que, por acaso, não vem nem de uma mente "do mal", mas de uma mente fechada, como muitas hoje ainda são... e ontem no cinefranco (onde eu vi o filme, e) alguem comentou que hoje os jovens estão querendo ser diferentes, e estão de mente mais aberta, mas eles esquecem que tem MUITOS jovens que ainda são muito mente fechada.
enfim, chega de escrever que tô falando demais já.
te amo fernanda, pra caralho. e tu sabe disso, né :D
ficou lindíssimo o texto todo, e é. só isso eu acho. beijo
Você exagera.
ResponderExcluirVou te dizer isso dessa forma, porque eu gosto de ser sincera e mesmo sendo mulher e tendo noção de que tudo o que você disse é verdade, você exagera, Fernanda.
Não em tudo, claro, muito do que você disse - se não tudo - está completa e exatamente correto. Eu amei o seu texto, o seu ponto de vista, e tudo o que você disse ali.
Mas apesar do machismo que existe, e de tudo que nós, no geral, lutamos pra conseguir, existem certas diferenças que não podem ser alcançadas.
Acho que a mulher deveria receber mais.
Acho que isso é um direito de igualdade que deveria ser alcançado. Acho mesmo.
Acho que a mulher deveria ser tratada com mais respeito, e não com essa delicadeza toda, como se fosse uma jóia, algo feito de cristal que vai se quebrar se cair no chão.
Mulheres são fortes e como você disse, força é um substantivo feminino.
E eu acho que mulheres têm sim o poder. Não todo o poder que merecem, mas nós lutamos, nós temos que lutar, porque é assim que as coisas, infelizmente funcionam.
E exagerar, aqui, não é ruim. Exagerar é bom, porque exagerar mostra O TAMANHO do problema que nós passamos. Todo o preconceito que a gente sofre, o medo que, como você disse, passamos toda vez que nós estamos andando sozinhas e a noite.
Eu mesma passo por isso constantemente. E constantemente eu ouço esses 'elogios' que mais soam como um xingamento, porque, porra, mulheres não saem por aí dizendo 'oi gostoso' pra um cara que passa, ou 'delícia de bundinha', coisas assim que nós somos obrigadas a ouvir e a engolir, porque talvez um desses caras que diga isso seja pavio-curto e queira 'nos dar uma lição' pela nossa ousadia.
Então eu te apoio, fefe, e fico muito feliz em ver que você está expressando aquilo que você sente e quer dizer.
Eu admiro muito você. Como amiga, como pessoa, e agora, principalmente, como mulher.
Que tal um homem comentar no texto feminista, hein? XD
ResponderExcluirTu sabe que eu amo todos os teus posts e esse definitivamente não é uma excessão. Eu sempre via você escrevendo de uma forma calma, fria... Não no sentido de que você não se preocupava com o problema de verdade, mas que você conseguia discutir sobriamente sobre o assunto, ou algo assim.
Mas nesse sobre feminismo eu senti um calor diferente, uma revolta incontrolada. Acho que você não conseguiu ficar sóbria, haha. Estava "bêbada" de ódio, e tem toda a razão.
Entre os preconceitos que a gente mais vê, o machismo é o que mais me enoja, sem puxar o saco, ou algo do tipo. É algo que me revolta muito e eu lembro muito bem de sempre ficar na mesa das amigas da mãe e não dos amigos do meu pai (bebendo cerveja e comendo um tira-gosto).
Enfim. Se você exagerou, como a Anne disse, é porque você tinha que exagerar. É um problema tão absurdo que não se pode não exagerar.
Eu nunca entendi o machismo e sempre fui contra, porque meu pai é extremamente machista e eu odeio isso, odeio ver que pagam um dinheiro absurdo pra uma mulher aparecer pelada numa revista, num vídeo e não sei mais onde e a mulher vai lá, faz e ainda se sente FELIZ por isso.
ResponderExcluirEu detesto ver homem que fala que feminismo é idiotisse e feministas são feias e essas coisas.
Eu queria que cuidar da casa fosse considerado um trabalho como todos os outros para os HOMENS e as MULHERES, porque, poxa, é um trabalhão cuidar da casa e dos filhos!
Queria não ouvir aquelas nojeiras e não sentir medo de ser estuprada em cada esquina escura.
Queria um mundo diferente.
Mas eu fico feliz em ver desenhos e filmes no estilo "eu sou uma heroína forte, eu salvo os outros e a mim mesma e ainda assim faço as unhas" (mesmo que eu mesma tenha uma preguiça gigantesca de fazer as unhas -q)
e, só pra constar, quando tem um grupo gigante de garotas com um ou dois garotos a maioria esquece o portugues e fala "elas" mesmo xD
sei disso pq minha sala do ensino médio era assim e só um ou outro engraçadinho zuava e falava "eles" porque "é o correto"
" Lady Murder disse...
ResponderExcluir... Já posso ir dormir em paz, sabendo que tem alguém como você no mundo. "
Eu concordo. Fernanda, sinceramente, eu estou MUITO orgulhosa de você. Cada palavra que tu disse tá muito mais que certa, está real. E são poucas as pessoas que tem conhecimentos assim, ainda mais na nossa idade. Eu concordo com tudo o que você disse, não tiraria ou acrecentaria um ponto. Tá perfeito! Eu pude sentir as tuas palavras e o pior de tudo, é saber que na real o homem só tem força pra obrigar a mulher a fazer algo, mas ele não teria força para seguir em frente se algo como o estupro acontecesse para com ele. É ridículo o modo como o homem trata a mulher e faz da mulher um objeto. De prazer ou não. Sabe, eu nunca parei para pensar desse jeito "radical" que você parou para escrever, mas agora que eu li, pode pá que tu abriu meus olhos pra enxergar uma coisa que está tão mais séria do que se parece. Obrigada! E na real, parabéns de verdade. E pode ter certeza de que você pode sim ser uma "heroína", pode salvar as pessoas e acabar com o "vilão". Escrevendo coisas como essas, você trás conhecimento. Pode parecer pouco, mas você não tem noção do quanto isso teria me ajudado se eu tivesse lido algo assim há uns 5 anos. Enfim, parabéns, de verdade, adorei muito mesmo. Tá meio confuso meu comentário, mas enfim, espero que cê tenha entendido. Beijos J.
Muito lindo e lúcido o seu post, Fernanda! Parabéns por toda essa maturidade que vc já tem aos 15 anos. E que continue sempre assim, alerta pra vida.
ResponderExcluirVocê me fez ter vontade de chorar.
ResponderExcluirÉ claro, cê não tá endendendo nada, mas eu te explico: é difícil eu ter vontade de chorar com alguma coisa, mas o teu texto tá tão lindo que minha voz saiu tremida quando eu li este post pra mamãe, que chorou cântaros (mas mamãe chora por qualquer coisa).
E você é muito madura. é dificílimo ver alguém de 15 anos que pense que nem você. A maioria tá pensando em namoro ou na nova temporada da novelinha adolescente.
Verdade seja dita, Fernanda: tu é FODA.