segunda-feira, 28 de março de 2011

Ei, lindo

Desculpa não ter te ligado antes. Eu sei que tu me mandou o depoimento esperando que eu mandasse uma resposta logo, mas é que eu não sou bom nessas coisas, cê sabe. Eu ia até te mandar uma resposta mas achei que tava ficando tão feio, cara, tão idiota e tão bobo que preferi ligar mesmo, você sabe que eu não sou bom com palavras, e falando por telefone é mais fácil, que eu posso falar tudo que quiser sem você me interromper. Não, espera, isso soa totalmente errado - eu não tô falando que você interrompe muito, é só que é mais fácil... É mais fácil falar tudo de uma vez, porque aí o que for foi, né, você sabe que eu gosto mais desse jeito. Então, amor, o que eu queria dizer é: Eu entendo porque você tá puto. Eu entendo, de verdade, eu já entendia antes de ler o que você mandou, mas agora dá pra falar melhor, porque eu finalmente te contei e você finalmente me respondeu e eu sei que você tá furioso, lindo, eu sei que você tá triste e revoltado e você tem toda a razão, mesmo, não vou negar isso. A culpa é minha, sim, não pelo que eu disse, mas pelo jeito que eu falei, foi completamente errado, te fiz pensar em coisas que não são verdade - mas o que eu falei é verdade, Paulo, aí é que tá, e eu sei que você já vai ficar irritado agora (se já não estava antes), mas ouve até o final, por favor. Eu sei que ser gay é uma parte sua. Não da sua personalidade, não do seu coração, mas da sua vida, dos seus princípios e do que você defende. Eu sei que as pessoas que te veêm na rua não olham pro seu jeitinho escandaloso e magricela e pensam "que fofo" que nem eu penso; sei que não era isso que os moleques da sua escola pensavam, nem aqueles filhos de uma puta que a gente encontrou no Parque Lage outro dia (e eu não te puxei pra um canto porque tava com vergonha, porra, eu te puxei pra longe porque tava com medo, droga, é meio patético para um cara do meu tamanho falar assim mas é verdade, eu nunca tinha passado por algo parecido antes). Não sou idiota, Paulo, eu sei o que eles pensam, e sei que você teve que lidar com isso desde pequeno, porque você nunca escolheu esconder quem tu é. Mas o negócio é que eu posso saber mas não entendo, amor, será que ficou claro? Não entendo porque é o que você disse, ninguém que me olhe na rua vai adivinhar que eu namoro um cara, mas a parada é que eu não uso nada disso para me esconder, nunca usei. Você falou que é mentira mas a verdade é essa mesma, eu sempre gostei de mulher, sempre namorei mulheres e o foda é que eu não tava no armário, Paulo, eu não sei como é sentir o medo e a dor que você disse que são normais - e eu acredito que sejam, juro, mas nunca aconteceu comigo, aí é que tá. Eu sempre gostei de mulher e mesmo hoje em dia, se você me der um cara e uma garota aleatórios e me mandar escolher entre eles, as chances são de que eu vou escolher ela. Você disse que eu te machuco horrores quando falo assim, disse que chorou muito enquanto escrevia aquilo e que você não pode ficar com alguém que não tem orgulho do que é, com alguém que tem vergonha de você. Lindo, se você soubesse o quanto acaba comigo saber que te fiz chorar, você ia me achar um idiota. Mas eu evito mentir, meu anjo, e é por isso que quis te falar a verdade no sábado e falei tudo errado, apesar de que os fatos são esses mesmos. Quando eu te conheci nem te vi como uma opção, desculpa, soa horrível, mas é verdade, mesmo na noite em que a gente se pegou na primeira vez eu não tinha nem pensado na hipótese antes de sair de casa, nem tinha passado pela minha cabeça (e foi num sábado, também, não é engraçado?). Eu não sou gay, Paulo, não sou nem bi, e não consigo ser. Nenhum dos caras que você me mostra na rua me parece atraente, mesmo que sejam bonitos, não consigo me ver com nenhum deles, mesmo que não me incomode que você consiga - tudo bem, às vezes me incomoda um pouco, mas é bobo e você não tem que se preocupar com isso. Você não tem que se preocupar com nada, é aí que tá, por que você não entende? Eu falei que escolheria uma mulher se fosse obrigado, mas foi uma besteira, porque o caso é que se você me mostrar uma mulher, um cara, ou uma daquelas pessoas que você falou que não são nenhum dos dois, ou todas as pessoas do mundo, eu ia te escolher. Sempre. Pronto, você me acha um idiota - se não achava antes, tá achando agora, com certeza. Mas é que se você soubesse o quanto é absurdo te ouvir falando de vergonha, Paulo, você, que faz tudo que eu já senti em toda a minha vida parecer sem importância quando se enrosca do meu lado e cochicha perguntando: "Tá acordado?" E eu tô sempre acordado, meu amor, essa é a parada, eu não quis te falar no sábado porque soa esquisito sentir isso depois de três meses, mas às vezes tô acordado e enfio o rosto no seu pescoço e sinto o cheiro daqueles perfumes de mulher e do seu cabelo loirinho e eu penso em levantar de manhã e pegar o primeiro avião pra Argentina e assinar todos aqueles papéis e pagar todo aquele dinheiro para eu poder falar pro mundo que você é meu, meu, meu. Não sei se isso te assusta, provavelmente sim, porque assustaria até a mim se eu visse de fora, mas é por isso que ouvir você falando de vergonha e falando que chorou me mata, lindo, porque se você soubesse, se você algum dia olhasse nos olhos de uma pessoa e sentisse o que eu sinto - quer dizer, eu queria que fossem nos meus, mas se não for não tem problema, de verdade, eu espero. Porra, isso é tão meloso e tão bobo mas é verdade, eu olho nos seus olhos e não vejo verde, não vejo reflexo, não vejo a alma que todo mundo fala, não vejo nada disso. Eu olho nos seus olhos e vejo a minha vida inteira. E eu não consigo nem pensar... Não consigo nem imaginar a idéia de querer te esconder, ou de te trocar, ou de me apaixonar por qualquer cara, qualquer mulher ou qualquer pessoa além de você. Porra, eu te amo. Eu te amo, eu te amo, eu te amo, eu repito quantas vezes você precisar pra acreditar, porque nunca diminui nem a intensidade, meu anjo, nunca. E aí é que tá, você ser um cara nunca foi um fator determinante pra isso, é por isso que eu não consigo me considerar gay, porque um homem gay gosta de homens e eu não gosto de homens, gosto de você. Gosto de você, e você é um homem, e você é loiro, e você ouve música italiana, e você é judeu, e você assiste desenhos animados no sábado de manhã em volume baixinho para não me acordar e acaba me acordando por causa da sua risada, e você tem uma bandeira arco-íris tatuada no pulso e você disse que doeu o diabo para fazer, e você me disse isso com um sorriso de orgulho. E você é escandaloso, você é magricela, você adora filmes de terror, você é pálido, você é flamenguista, você gosta de montanhas-russas, você bebeu pela primeira vez aos dezenove anos, você nunca tirou nada abaixo de oito na escola e você é gay, meu amor, e eu amo tudo isso mas amo mais o conjunto, você entende agora? Todas essas coisas tem o mesmo valor em determinar quem tu é, pelo que vejo, e é quem tu é que eu amo, mais do que eu nem sabia que dava para amar alguém. Então me liga, anjo, por favor, nem que seja pra me dar um fora porque tudo isso que eu acabei de falar te assustou demais. Por favor, me liga, me desculpa, e, por favor, entende... E não se assusta, de preferência, eu não falei nada antes justamente por causa disso, e pensa que no fundo é uma parada boa, me faz bem e pode fazer bem pra você também se tu quiser, e me responde com o que você achar, então, e me responde assim que puder porque essa incerteza é foda, e me responde que você também porque, porque... Ah, porra, agora você que me fez chorar.

domingo, 13 de março de 2011

But it's wisdom born of pain

Normalmente a idéia desse post pareceria atrasada - e vou confessar que, se eu tivesse tido acesso a um computador antes, talvez esse texto tivesse vindo mais cedo. Mas o caso é que não vim aqui para falar do dia da mulher, e sim para falar sobre o Dia da Mulher. Em resumo, não, eu não vim aqui pra parabenizar ninguém por embelezar o mundo ou por ser forte - mas, sim, eu vim falar sobre força.

O meu primeiro contato com feminismo foi em 2009. Foi através de um blog, na verdade, que eu recomendo pra qualquer um até hoje - ou, melhor, pra qualquer uma. Eu nunca tinha pensado antes em machismo concretamente. Digo, sabia que era errado, e como autêntica menina-moleque desde a infância, eu aprendi a desprezá-lo, mas, como é que posso explicar? Na época, lá pelos meus sete anos, eu queria ser um menino. Não no sentido disfórico da coisa, digamos, mas era uma vontade autêntica, nascida por anos de raiva e indignação de ter sido criada no... Bem, no mundo em que vivemos. Agora, não vem pensando que eu era um prodígio nascido com o sangue feminista fervendo pelos direitos iguais, porque a verdade mesmo era que eu, no alto da minha pré-escolaridde, me considerava meio superior a essa raça tão fútil e desprezível que era a feminina. As meninas eram tão chatas, tão bobas, tão obcecadas por namoro. Todos os heróis eram exatamente isso: Heróis, no masculino, os homens salvando o dia em todos os desenhos animados, todos os quadrinhos, todos os filmes, e aquelas meninas insuportáveis sempre berrando para serem salvas, e eu via tudo aquilo e me enfurecia porque eu não era assim - eu queria salvar o mundo, eu queria matar o vilão, e, puta que pariu, como eu ODIAVA todo aquele rosa!

Detestei rosa durante anos. Soa bobo falar agora, mas o fato é que, para mim, aquela cor era sinônimo de fraqueza. Era sinônimo de atrapalhar as lutas nos desenhos suspirando pelo cara mau, sinônimo de passar horas se arrumando e não ir brincar na lama para não sujar o cabelo, sinônimo de que, argh, a pessoa dona daquele pertence era uma mulher, que jamais acrescentaria nada à história além do romance e dos beijos que me davam nojo. Era sinônimo da Barbie, das bonecas, dos lados das lojas de brinquedos todos pintados daquela cor e nos quais eu me sentia enjoada só de entrar. A pior parte é que não estou nem exagerando. Durante anos eu "lutei" contra o machismo me agarrando àquela noção perturbada de que, sim, eu era uma garota, mas não era como "o resto". Eu era "diferente". Na maior parte do tempo era natural, mas houveram momentos em que me esforcei para esconder qualquer coisa que pudesse dar bandeira dessa minha terrível anormalidade biológica - lembro até hoje de uma vez em que, preparando um cartão na salinha de artes para o Dia das Mães, não quis escrever "eu te amo" no papel porque achei que aquilo soava sentimental demais, "afeminado" demais. Acabei escrevendo outra coisa, algo como "você é a melhor mãe do mundo", algo que me soou "masculino" (e, portanto, legal) o suficiente.

É claro que o meu caso deve ter sido um pouco mais extremo do que a maioria (ou, pelo menos, espero sinceramente que sim). Mas divago. Enfim, em 2009 eu entrei em contato com esse blog, nem lembro como, e foi a primeira vez que ouvi sobre feminismo de fato. Eu já não evitava toda e qualquer forma de conexão à "feminilidade" como antes, mas era como se o assunto não existisse, porque ninguém jamais veio falar comigo sobre machismo como um problema recorrente, atual. Sabia, sim, que falar que uma mulher pertencia à cozinha e dentro de casa era machista, mas só enxergava o machismo do comentário, da frase isolada, não do mundo à minha volta. Foi a Lola que me ensinou, ainda que indiretamente, que feminismo não pregava a superioridade feminina - e, apesar de ainda haverem divergências no movimento e cada um ter direito à sua definição mais detalhada, para mim a palavra igualdade é suficiente para resumir, de certo modo.

E com o tempo o movimento chegou em mim, e com o tempo passei a olhar mais ao meu redor: Passei a olhar como fazer as coisas "como uma garotinha" é um insulto; como velhos com mais do triplo da minha idade se sentem confortáveis para assoviar para uma menina de catorze anos na rua; como um homem que não me conhece e jamais falou comigo na vida se sente no direito de me dizer "Dá licença, minha linda"; e milhões de outras coisas que em sua maioria nem são ditas ou feitas por mal, mas frutos de uma opressão e uma separação de séculos, de eras, de anos e que perdura até hoje: Eu ia escrever os exemplos no passado, mas lembrei que tudo isso eu vi e vejo acontecendo, ainda, agora, enquanto digito aqui pra vocês. Eu ia escrever mais exemplos, mas o fato é que o blog da Lola, o blog da Lu, e, porra, a sua vida têm muito mais situações e momentos que, por menores que sejam, expressam bem o que eu estou querendo dizer aqui. A razão - as milhares, infinitas razões - pela qual eu sempre tremo de medo quando me vejo caminhando sozinha numa rua escura e encontro um homem; pela qual um menino que brinque de boneca é visto como desprezível; pela qual, nesse mundo, o poder ser um substantivo masculino é ironicamente apropriado.


Eu pensei muito no que dizer sobre feminismo aqui. Tenho rascunhos e rascunhos sobre divisão de papéis, sobre padrão de beleza, sobre misoginia, sobre o ódio que ainda existe e como muitas vezes nós odiamos, como eu odiei, só por causa do que nos ensinam e nos ensinavam. Sobre como eu sinceramente acho que qualquer pessoa, não importa o seu gênero, deve ser feminista pela simples questão de saber o que é certo e o que é fato: E o fato é que, nesse mundo, nascer sem algo entre as pernas também significa nascer sem respeito, sem autonomia, sem liberdade, sem direitos, ainda, de certo modo, não importa o quanto tenhamos progredido (e progredimos muito, essa é a pior parte) - nascer sem humanidade, sem individualidade, sem voz. Nascer para ser moldada e admirada de acordo com o prazer alheio, e nunca o prazer de outra mulher, jamais, pois isto também é negado. Nascer pro mundo, outro substantivo apropriadamente masculino, e viver para ele, para eles, jamais para si mesma.

Eu pensei em falar tudo isso.

Eu pensei em falar tudo isso e talvez ainda fale - provavelmente, aliás, agora que finalmente o nó que vinha antes está se desfazendo aos poucos enquanto eu escrevo essas palavras. Machismo e sexismo me pegam de jeito porque é o que mais me afeta, de todos esses preconceitos que eu odeio e abomino. Acho que é por isso que é tão difícil de falar, tão difícil de expressar num único texto, porque enquanto eu escrevo isso, no fundo, uma parte de mim está esperando ser atacada por fazê-lo, mesmo que as poucas pessoas que leêm e comentem nisso daqui nunca tenha feito nada parecido. Uma parte de mim está silenciosamente esperando por um comentário falando que estou exagerando, que estou fazendo drama, que no fundo eu odeio mesmo todos os homens, por isso invento besteiras para reclamar deles. Acho também que deve ser questão de tempo: Homofobia passou a me afetar de verdade há uns dois anos, racismo nunca me afetou diretamente, mas machismo me afeta diretamente há quinze anos, a partir do momento em que o médico me pegou no colo e olhou entre as minhas perninhas para dizer: "Parabéns, é uma menina!"

Não sou contra o Dia da Mulher. Pelo contrário, acho ótimo que ele exista, acho ótimo que alguém tenh se preocupado em criá-lo. Mas me dói que, para cada pessoa que sabe e entende de verdade o motivo para que esse dia ainda seja necessário, existem outras cem que usam dele para me agradecer por embelezar o mundo - sem jamais me perguntar se me interessei em fazê-lo em primeiro lugar - e por ser tão forte - sem jamais me perguntar as razões que fizeram com que essa força exista (e força é substantivo feminino). E me dão uma rosa.

Uma rosa.

Uma rosa - uma rosa por todos os estupros, as surras, os xingamentos, os boatos, os cochichos, as zombarias, os estereótipos. Uma rosa por todos os sonhos despedaçados, por todas as lágrimas derramadas, por todos os pensamentos de auto-flagelo e terror. Uma rosa por todos os amores escondidos, por todas as vontades não realizadas, por todas as reclamações ignoradas, pelo grito reprimido. Uma rosa pelo nojo, pelo ódio, pelo desprezo, pelo escárnio, pela leve desconsideração. Uma rosa pelo riso segurado, pelo palavrão não dito, pelas amarras invisíveis e profundas. Uma rosa pela opressão, pelos apalpamentos, pelas generalizações, pelas expectativas. Uma rosa pelas mortes - uma rosa por aquelas que morreram queimadas numa fábrica por uma igualdade que nenhuma de nós chegou a ver ainda.

Uma rosa - colhida e morta.

Ironicamente apropriado.