domingo, 20 de fevereiro de 2011

Um lembrete

Começou com animes.

É engraçado constatar quantas coisas na minha vida começaram com isso, na verdade. Mas, se eu for bem sincera, não foi realmente aí: Foi bem antes, lá pela primeira série, antes houve aquele conhecimento só pelo nome, só por reconhecer-se no corredor. Tinha cabelo curto. Engraçado que era isso que eu lembro agora, mas era assim mesmo, tinha cabelo curto, problemas com notas e atitudes que não eram recomendáveis para uma garota. E continuou tendo, né? Afinal.

Tinha cabelo curto, e o meu era comprido. Não sei se cheguei a comentar isso algum dia nos anos que se passaram, mas lembro que achei legal. Eu achei legal - o jeito meio tomboy, a atitude de quem não se importa, o julgamento alheio. Achei bem legal. Eu não previ na época que jamais iríamos nos aproximar - não previ na época que algum dia viria a ouvir do sofrimento, dos olhares reprovadores, da confusão, do medo, da dor, dos segredos que algumas pessoas jamais virão a saber. E algumas pessoas jamais virão a saber, mesmo, como eu não teria vindo a saber se não tivesse passado intervalos, horas, tardes, noites, anos com um dos alguéns mais incríveis que já conheci, e que tem gente nesse mundo que prefere não entender.

Mas não se deve falar só do ódio - não, cara, nós jamais falaríamos só do ódio, tem tanta coisa mais bonita pra falar. Falaríamos de animes, e como falamos, puta que pariu, foram três anos (né? ou mais ainda?) de animes e livros e Harry Potter e videogames e essas outras coisas. Ele não é o tipo de pessoa de quem eu passaria horas e horas falando das qualidades, porque já faz tanto tempo, mano, não dá para falar de qualidades de quem já é parte de ti. De quem tu é, pra falar a verdade, porque já faz tempo que ele já tem um pedaço meu. Eu sou fácil, mano, qualquer um arruma um pedaço da minha alma se quiser, mas o dele é grande, cara, é maior do que eu poderia imaginar que se tornaria. Então dele não devo falar de qualidades; vou falar do sorriso. Ele tem um sorriso bonito e uma risada fofa, com esse adjetivo bobo mesmo, porque é assim que parece, me lembra a risada de uma criança. Vou falar que ele tem um jeito engraçado de pontuar as frases sem necessidade enquanto fala, ele faz umas pausas do meio do nada, é diferente. Tudo nele é meio diferente, tudo nele são pequenas partes, pequenas cores que se juntam no meio do coração e criam um espectro, e, puta que pariu, cara, que espectro bonito.

Eu queria parar de falar do ódio, mas é que quando paro pra pensar me dói, e eu não quero que doa, essa é parada, eu queria que não doesse. Queria que ele não tivesse que ter os segredos, a confusão, o medo - que ele tivesse só o cabelo curto, mesmo, o cabelo curto que eu achava tão legal porque provocava todas essas coisas (caralho, como eu era boba!). E não é que eu já não tenha escrito sobre ele antes, mas nunca tive a chance de dizer isso, mesmo. Ele me disse que eu faço tanta coisa, mas, cara, você não vai entender, às vezes eu vejo umas merdas por aí das quais nunca comento contigo porque tu não devia ter que ouvir essas coisas, ninguém devia. E ele me diz que eu escrevo bem, que eu tenho tantos ideais, tantas palavras, tanta coisa bonita pra que os outros deviam pensar atenção - e não é que eu discorde, cara, sério, mas é que às vezes penso em tu e no que tu me diz e eu fico com tanta raiva, e penso foda-se a minha escrita, foda-se meu feminismo, foda-se a minha bissexualidade, fodam-se meus ideais, foda-se tudo, eu só queria um mundo onde nada disso fosse necessário.

Queria um mundo que nem você.

Queria um mundo em que a tua dor não tivesse que ser enterrada num canto e escondida - queria um mundo em que não houvesse nada pra enterrar.

E às vezes o que me atinge (de verdade, profundamente, e no meio do nada, quando a gente está só conversando ou rindo) é que eu queria te dizer de verdade o quanto te admiro, o quanto tu é foda, o quanto a sua risada e os seus olhos e as suas cores são bonitas. O quanto tua amizade foi e é pra mim durante todo esse tempo, o quanto eu te amo, o quanto não existe nada de errado com você, e o quanto acaba comigo que, nesse mundo, tu seja condicionado a pensar que tem.

Não tem.

Você é foda. Eu te amo. E não tem floreios literários pra expressar disso, não dessa vez, porque é o tipo da coisa que tem que ser dita sem disfarces. Pra que tu possa entender.

Queria te pedir desculpa por não ter te dado parabéns, mas tu disse que não importa. Então queria pedir desculpas por não ter dito nada disso antes. Porque é toda a verdade. E porque tem tantas mentiras que o mundo tenta enfiar na sua, na minha e nas cabeças de todo mundo o tempo todo, que eu precisava dizer. Em escrito, pra tu poder ler várias vezes, até se firmar - até arranjar raízes na sua alma, que tanta gente vai querer cortar, mas tu sabe que não irão de fato porque não podem. Não podem. E eu sei, e outros sabem, e um dia as pessoas vão saber, cara, vão sim, eu prometo - mas me incomoda muito que, num outro dia, tu possa vir a esquecer.

Não esqueça.


Tu é muito mais do que tudo isso
. ♥