sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

10 coisas que eu aprendi fazendo trabalho voluntário

1 - Existe gente escrota que faz trabalho voluntário. Gente controladora, imbecil, elitista e simplesmente nojenta, num geral. Devem fazer para compensar o karma.

2 - Depois que tu faz umas duas vezes, tu se acostuma tanto com a idéia de mencionar que fica até constrangedor quando as pessoas começam a te parabenizar e falar do tanto que tu é "solidário" por fazer. Digo, é gratificante, mas não deixa de ser meio desconfortável.

3 - É possível se sujar de coisas que você não tem memória alguma de ter pego/tocado durante o dia.

4 - A Globo mente. Não existe isso de "já terem voluntários o bastante", galera, são MILHÕES de doações pra tipo uma centena de pessoas separarem. Quanto mais gente, melhor.

5 - Se for para doar coisas usadas, empoeiradas, rasgadas, com o conteúdo para a metade ou mesmo sujas, nem se dê o trabalho. Sinceramente. Vão jogar fora a sua doação e você ainda vai virar piada no meio do povo que estiver separando.

6 - As pessoas tem prioridades fascinantes na hora de doar o que as outras precisam. Essas prioridades vão do "necessário-que-ninguém-se-lembra", como talheres ou utensílios de cozinha em geral; até o "aleatório-meio-perutubador", como duas caixas de cerveja e uma caixa de Viagra.

7 - Existe gente que doa dois quilos de papel higiênico e sente a necessidade de escrever "Papel Higiênico Descartável" no saco. Não, ninguém conseguiu descobrir ainda o que seria um papel higiênico não-descartável, mas existem várias hipóteses sobre o assunto.

8 - Não importa quão simpáticas sejam algumas das pessoas que estejam separando as doações com você, o seu voluntário favorito sempre vai ser o cara da água. Porque ele tem água.

9 - É possível remendar a caixa de doações mais destruída com um punhado de fita adesiva. Às vezes fica parecendo que a caixa é feita de fita adesiva, mas não faz diferença.

10 - Um dia separando roupas na Cruz Vermelha do Rio de Janeiro te dá um bronzeado melhor do que um dia na praia. Sério.


(P.S.: Lista do "necessário-que-ninguém-lembra", pra quem for doar:
-Talheres.
-Panelas, frigideiras, pratos e utensílios de cozinha em geral.
-Fraldas GERIÁTRICAS, porque de bebê já tem aos montes.
-Velas e fósforos - já tem muitas, mas sempre precisa-se de mais.
-Roupinhas de bebê.
-Móveis em geral. Não, não necessariamente uma TV de tela plana - embora ninguém vá recusar se tu quiser doar uma dessas -, mas coisas como mesas desmontáveis, cadeiras, berços, etc.
-Eletrodomésticos em geral. Coisas simples, ferros de passar, cafeteiras, microondas se você for generoso... Etc.
-Roupa íntima. Principalmente em tamanhos grandes.
-Aliás, tamanhos grandes de QUALQUER roupa. Tem quilos de roupa, sim, mas a maioria é tamanho padrão/pequeno.
-Toalhas e escovas de dentes.
-Xampus e desodorantes.
-Remédios, esparadrapo, band-aids e coisinhas médicas em geral.
-Escovas/pentes de cabelo.
-Brinquedos. É, mano, imagina uma criança que acaba sem nenhum, PARA ELAS é de primeira necessidade. E livros, se possível.

De resto, REPITO o aviso: Se for pra doar usado, NÃO DOE. Joga no lixo e deixa de ser pão duro, porra. Se for doar algo usado, ao menos certifique-se de que está em boa qualidade.

Mas, no geral, procurem doar. Ou fazer trabalho voluntário em algum centro perto da sua casa. Não quero bancar mártir nem santa pra ninguém, mas não custa nada, gente. E é sempre bom.)

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Entre kits e sementes

Então, eu queria falar da polêmica que está havendo ultimamente por causa de um negócio chamado o "Kit Gay", uma medida que vai ser implantada nas escolas públicas e que você pode conferir os detalhes aqui, bem como um vídeo revoltante de um "deputado" expressando sua "opinião".

Sim, desse tipo mesmo.

É claro que qualquer um pode imaginar qual foi a reação do povo. Alguns clamam sobre o absurdo que é usarem os impostos que a gente, tadinhos de nós!, p
agamos com o nosso suor. Outros já começam a ladainha de como gays não são coitadinhos e do quão terrível é essa apologia incansável à homossexualidade, meu Deus. E, é claro, temos também os malvadões, que usam de suas grandes autoridades para ameaçar que, se as escolas dos filhos deles quiserem mandar vídeos desse tipo para as crianças verem, eles os tirarão das mesmas (!). Um dos vídeos, Encontrando Bianca, pode ser visto aqui, e, se quiserem dar uma olhada nos comentários, fiquem à vontade, mas não recomendo porque todos eles são basicamente "GRAWR GRAWR NÃO GOSTEI" e outras coisas de nível intelectual semelhante. Enfim.

Qualquer pessoa que tenha conversado comigo por mais de dez minutos/tenha lido três linhas desse blog já pode imaginar qual é a minha opinião a respeito do assunto. Parabéns ao MEC por mostrar tamanha iniciativa, e espero que a proposta seja logo apro
vada e executada. Mas o que eu quero falar não é isso. O que eu quero falar é, obviamente, da reação ignorante. Esse tipo de revolta não é novidade, pelo contrário, mas eu não tomo como uma indicação de desesperança, e sim de triunfo. Sim, porque, no fundo, todos esses conservadores, esses estúpidos, esses homofóbicos intolerantes estão é se borrando de medo, porque a representação LGBT fica cada vez mais fora do alcance das mentinhas fechadas e limitadas deles. Já não se pode se declarar homofóbico e sair inteiramente livre, como provou-se pelo fechamento da tag #homofobiasim do twitter. Eles estão apavorados, acuados, com medo de perder a posição dominante, de se tornarem - gasp! - os vilões, de não poderem mais ventilar seu ódio em paz. Não vou fingir que não tenho uma satisfação diabólica em presenciar isso - eu tenho, e muita. E acho até cômico que muitos desses conservadores, atualmente, são obrigados a se esconderem por uma fachada "liberal", como você pode ver pelos comentários do vídeo: Muitos atestam que não têm nada contra a homossexualidade, muito pelo contrário, "tenho até dois amigos gays", diz um comentarista. Mas, poxa, essa apologia não dá, né? São crianças, gente, poxa, elas não têm que pensar nisso! Não tem nada a ver! Não precisa sair por aí jogando a homossexualidade na cara de ninguém!

Eu acho engraçada a maioria dos argumentos dos homofóbicos, mas esses daí me deixam triste, porque ainda são comuns até em quem tem uma postura mais tranquila em geral. As crianças, eles dizem, temos que protegê-las. Proteger sua integridade. Proteger sua
pureza. Proteger, proteger, proteger... Tem assunto que não é pra criança. Não é pra adolescente. É coisa de adulto - e, até elas chegarem lá, tem que ficar tudo por baixo dos panos. Não tenho nada contra gays, mas não quero eles perto dos meus filhos. Não quero ativismo na cabeça do meu bebê. Meu garoto não precisa saber que tem pessoas iguais a ele por aí sendo proibidas de se casarem. Etc. O que eu acho engraçado é que, jamais, passa pela cabeça desses conservadores a idéia de que as crianças que vão ver o vídeo, os seus filhos, os seus bebês, possam ser gays. Isso não passa pela cabeça de ninguém.

Se a primeira imagem te incomoda e a segunda não, pára pra pensar.

É claro que isso não passa pela cabeça de 95% dos imbecis que saem por aí protestando contra o kit gay. No máximo saem com hipóteses, do tipo "se eu tiver um filho gay jogo fora de casa!1!", mas na maioria das vezes não enxergam isso como algo com chances de acontecer, com possibilidades reais. E, é claro, aí as crianças é que pagam o pato.

Serei sincera e deixarei meu lado Pollyana afluir: Não acho, honestamente, que toda
s as pessoas que protestam no youtube contra o vídeo de Bianca chutariam de casa um filho por ele se descobrir homossexual, ou trans, ou bi, ou whatever. Mas eles simplesmente não imaginam, porque é aquela mentalidade do "nunca vai acontecer comigo", aquela mentalidade que vê a minoria como "o outro", o afastado, o esquisito, alguém com quem você nunca vai precisar ter um contato próximo. É aí que entra a importância da visibilidade, de movimentos como a Parada Gay, o Kit Gay, a inclusão dos "coloridos" no BBB (sim, foi um progresso, por mais terríveis que as repercurssões tenham sido), a inclusão de pessoas LGBT na sociedade, no nosso mundo, porque eles já estão aqui, já estão do nosso lado, só que a gente não vê, porque passa-se tanto tempo tentando oprimi-los, escondê-los, condená-los, ignorá-los e difamá-los que não paramos pra pensar que todo mundo tem, no mínimo, um laço forte com uma pessoa LGBT. Todo mundo, até o indivíduo mais homofóbico que existir. Porque o fato é essas pessoas estão aqui, nós estamos aqui. Existem homossexuais entre as crianças que vão receber o kit gay nas escolas públicas. Existem transsexuais, bissexuais, panssexuais, assexuados, e todo o tipo de minoria que, na vida, vai sofrer, vai enfrentar muito mais merda do que os coleguinhas de classe cisgêneros e heteros podem imaginar, e esse kit vai fazer uma diferença, porque vai mostrar pro garotinho que quer usar o vestido da irmã que ele não está sozinho. Vai mostrar pra garota que acha a princesa do conto de fadas mais bonita que o príncipe que não tem nada de errado com ela. E, mais importante ainda, vai mostrar pros coleguinhas hetero e cisgêneros que pessoas diferentes existem, que elas são tão normais quanto eles e merecem o mesmo respeito e consideração. Vocês sabem, o tipo da coisa que os pais já deviam estar ensinando.

Do Queer Secrets. Entendem?

Eu acho que não estou nem conseguindo explicar direito o quão importante é que essa proposta seja aprovada. Dos 10.000 adolescentes que se matam por ano no Brasil, no mínimo 1.000 são LGBT. 1 em cada 6 garotos homossexuais admite já ter sofrido bullying
homofóbico. A sexualidade é a segunda maior razão para garotos adolescentes brasileiros se matarem e a terceira para garotas. E por aí vai. A nossa sociedade é homofóbica, nosso país é homofóbico, mas as pessoas homofóbicas não vão durar pra sempre. Elas vão morrer eventualmente (ainda bem). E quem vai ficar? Essas crianças que talvez recebam o kit gay e agora já estão recebendo todo o tipo de influência homofóbica possível, de todas as partes. Tenho vontade de matar quem eu vejo dizendo "viado" perto de uma criança - ok, tenho vontade de matar quem eu vejo dizendo "viado" em qualquer situação, mas perto de uma criança é o que mais me incomoda. Sabe por quê? Porque isso é uma semente.

Cuma? Pois é, afinal, como é que as pessoas se tornam homofóbicas? Ninguém se senta pra ouvir dos pais um sermão diário de como homossexuais tem que queimar no infern
o (ok, quase ninguém). A gente não tem comerciais de tv dizendo "soque um travesti que isso te faz legal". Na verdade, a maior parte das crianças sequer SABE que isso existe, pelo menos não conscientemente. Dá pra entender? Esse tipo de coisa é implantado na sua mente. O garotinho pode não ouvir textualmente que um homem transar com outro é errado, mas ele sabe que vai ser estranho se ele beijar o coleguinha na bochecha. Etc. Você vê crianças de oito e nove anos ofendendo-se entre si com os termos "boiola", "viado", e etc, mas elas nem sabem o que é, como é que elas já sabem que é considerado insulto? Porque ouvem. E ouvem, e assimilam, e um dia aplicam e dão continuidade à uma herança preconceituosa e fechada. Quando tinha sete anos, eu não sabia o que era uma moça lésbica, mas sabia que, se um dos meus inimigoszinhos me chamasse de "sapata", eu tinha que ir pra coordenação. Eu sabia porque era fato, porque estava lá, porque era uma coisa que menina nenhuma podia ser, que era feio e era errado. Foi meu querido papai que me instruiu com relação ao termo "sapatão" e que nenhum garoto podia, JAMAIS, me chamar assim. Honestamente o que veio na minha cabeça foi uma menina usando um sapato bem grande, mas, quando pedi por explicações, meu progenitor foi vago e ambíguo - provavelmente usando do mesmo raciocínio que os opositores do Kit Gay tem (aliás, me pergunto se ele já ouviu falar do projeto. Com certeza não ficaria satisfeito de me ver defendendo - mas não fica satisfeito com nada, mesmo). O raciocínio torto de "não vou meter esse tipo de coisa na cabeça da minha garotinha". Garotinha que acabou se descobrindo bissexual, com esse tipo de coisa na cabeça ou não, o que tornou a tentativa de proteção dele meio inútil.

E é vendo coisas como esse secret aí de cima que eu me pergunto o quanto tempo isso vai durar, o quanto tempo essa mistificação de manter as crianças e os adolescentes de fora vai permanecer. Filmes de casais gays são censurados simplesmente por con
terem casais gays, mesmo que esses não façam nada de mais pela trama além de estarem apaxionados. E eu paro e penso em quanto teria significado, para algumas pessoas, se o Simba tivesse se apaixonado por um leão macho, ou se a Bela tivesse acabado mesmo com a Fera, no feminino. O quanto significou pras crianças negras, agora, quando saiu finalmente uma princesa de pele escura? E o quanto significaria se saísse uma princessa lésbica? Aliás, melhor ainda: O quanto custaria?

Não que eu esteja planejando uma cruzada anti-Disney por eles não terem personagens gays, mas divago: Não teria feito uma diferença imensa? E o quanto mudaria, realmente, em termos de história? Absolutamente nada. O que mudaria se o Harry terminasse se apaixonando por um irmão de Ron? O que MUDOU, aliás, quando descobrimos que Dumbledore era apaixonado por outro homem? Além de ter inserido uma representação fundamen
tal para as pessoas que precisam, é claro. Não consigo deixar de pensar que todo mundo - todo mundo mesmo - que reclama desse tipo de coisa "politicamente correta", desse "exagero", dessa "frescura", dessa "tentativa de polemizar" jamais tenha experimentado a sensação de solidão que é olhar ao seu redor - para todos os livros, todas as séries, todos os filmes, todos os desenhos animados - e não achar ninguém como você. Eu sinceramente penso isso. E sinceramente acho que todo trabalho de ficção, seja filme, desenho, livro ou whatever, devia conter um personagem LGBT. E um personagem de alguma minoria étnica, e uma mulher ativa na trama, e um personagem gordo, e todo o tipo de diferenças. E não é porque eu sou politicamente correta e chata pra caralho, é porque não custa nada e faz tanta diferença, tanta.

E, por enquanto, o Kit Gay segue provocando ódio e temor, e tudo o que eu posso esperar é que a medida seja aprovada e executada, e pelo menos alguém - pelo menos algumas crianças parem pra pensar e concluam que, não, talvez não exista um motivo real pra atormentar o garoto da sala ao lado que anda rebolando. Ou as duas meninas da série acima que andam de mãos dadas. Ou aquela garota esquisitíssima que diz que quer chamada de João. E espero também que essas crianças vejam os vídeos e entendam o básico, o que todo mundo já tinha que ter entendido há tanto tempo: Que não há nada de errado em ser o que você é, e nem teria por quê haver.

E, quanto aos pais e comentaristas, esperemos que pelo menos uma parte deles venha a entender melhor e passe a se preocupar menos com o Kit Gay e mais com o Kit Humano, que tanta gente ainda precisa aprender e a sociedade continua a se recusar a mostrar.

domingo, 2 de janeiro de 2011

Da minha única resolução

Eu não ia escrever postagem de ano novo, sinceramente, porque é meio estúpido escrever algo assim depois de meses sem postar mais nada. E é meio estúpido escrever algo sobre o ano novo quando já é dia três de janeiro. Enfim. Aí eu comecei a pensar no tanto de coisa que eu deixo de fazer porque as pessoas acham estúpido. No tanto de coisa que todo mundo, por mais que tente, lute e negue, deixa de fazer por causa disso. A nossa vida é tão limitada, agora, né? É meio triste. É meio triste, mas eu não quero deprimir ninguém. Eu não queria escrever algo curto para não parecer que estou só preenchendo um buraco, mas agora me dei conta de que preciso. Preciso porque pra esse ano, sinceramente, só quero uma merda de revolução: Não vou querer parecer nada. Não vou tentar parecer nada. Vou ser e mandar todo mundo meter suas opiniões destrutivas a meu respeito em seus respectivos retos, pra ser mais exata. É lógico que não vou conseguir o tempo todo, mas vou pelo menos tentar pela maior parte dele. A maior parte. O resto... Eu vou dar um jeito. Eu preciso de coragem. Não é novidade - todo mundo precisa, pelo menos um pouquinho, coragem é o tipo daquela coisa que nunca se têm demais. Enfim. Vou escrever. Vou tagarelar e devanear a respeito das milhões de mudanças sociais que eu acho que têm que ser feitas e que fazem as pessoas me chamarem de fresca e paranóica pelas gostas. Vou ler - e vou escrever linhas e linhas sobre o que eu tiver lido, se eu quiser, e não vou ligar se alguém me perguntar porque eu tenho sempre que analisar tudo. Eu só gosto. Gosto mesmo. Vou ver minhas séries e meus animes e ler meus mangás e meus quadrinhos e jogar meus videogames e andar com quem me agrade (e com quem eu agrade, também, lógico). Não vou beber porque eu não gosto. Não vou fumar porque eu não gosto. Vou nadar porque eu gosto. Vou viajar porque eu gosto. Vou ler clássicos brasileiros que ninguém gosta na férias porque eu gosto. Vou tentar fazer o que eu gosto e evitar o que não gosto, se possível, sempre, e vou tentar fazer o melhor disso e lidar com o pior - e pensar o melhor, mesmo que esteja no meio do pior... E vou me lembrar - e vou lembrar a todos vocês, agora, escrevendo isso -, que, na maior parte das vezes (na maioria esmagadora das vezes), é simples assim, mesmo. A gente é que complica.