terça-feira, 27 de julho de 2010

Anotações num outro continente

(sem imagem, dessa vez, vou deixar pra vocês imaginarem)

Paris é uma cidade-fumaça. Uma lembrança trágica, da qual você não quer se livrar, mesmo depois de ter se atormentado com ela por tanto tempo. Paris dói. Não queima, é feita de cinzas. É a marca de todas as histórias que já lhe aconteceram. Não arde, incomoda o nariz e empesteia o ar. Paris não é pra mim, mas é um pouco para todo mundo. Feita de cinzas.

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As pessoas dizem que fede, e tem certa razão nisso, mas pra mim Paris cheira à fumaça doce, dos fogos de ontem. "Paris dói", escrevi antes, mas no fundo não, Paris é o que eu disse, a lembrança dolorosa pra qual todo mundo tem que voltar às vezes. Mas é impossível ficar. A fumaça escapa por entre os dedos. Paris evapora, a lembrança se esvai. É efêmera. É uma brecha na realidade, tem cheiro e forma de época. Tem gosto de tempo.

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O tempo. Paris está fora dele, é imune aos seus efeitos. Foge-lhe, engana-o, guarda-o. Mata-o.

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Vi um velho no museu hoje. Quando chegar no Rio devo escrever sobre ele. É importante, acho que ele perdeu a filha. Olhou longa e tristemente para aquela estátua de uma criança. Observei-o mais do que a escultura. Tinha olhos claros. Pareceu que ia sorrir pra mim, mas não o fez. Acho que perdeu a filha - acho que perdeu algo. Há muito, muito tempo atrás.

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Não quero deixar Paris. Mas é preciso, se meu tempo parar aqui não encontrarei salvação na volta.

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Tudo aqui é um museu à céu aberto. Os parisienses tem olhos claros e olhos escuros e pele clara e pele escura. Não há meio-termo. As pessoas aqui devem ter medo de cinza.

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Tenho medo de não ser mais a mesma quando voltar.

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(Correção necessária: Tenho medo de não voltar por completo.)

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Nice é morna. Tem mais cores que Paris, tem mais a ver comigo, tem mais movimento, é mais viva. Mas no fundo não. A cor típica de seus prédios é terracota, me disseram. Terracota é um nome lindo. É a cor de Nice. Nice tão mais calorosa que Paris. E por baixo aquele tom de terracota. Inevitável. Sempre lá.

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Aqui em Nice o que mais fotografo são as flores. Não sou grande fã de flores em particular, não mais do que sou de quase tudo no mundo, mas essas chamam a atenção: São brilhantes, fortes. Antibes, Cannes, Saint-Paul, as flores são tudo que as unem - as flores e o terracota. Bendito terracota. É o tipo de nome que precisa repetir para ficar bonito. Nice não precisa, no entanto, é bela de essência. Tem cheiro de planta. Planta, não flor. Aquele cheiro molhado de grama - o toque floral existe, é verdade, mas é mais escondido, mais presença do que aroma. Nice não dói, Nice aquece. Ter-ra-co-ta. Vou sentir falta de Nice.

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(Um fato: Quando se está em frente à praia de Cannes, com o sol quente sobre o seu cabelo molhado, de óculos laranjas e com um sorvete imenso de chocolate na ponta da língua, o mundo todo parece mais bonito, até você mesmo. E você sorri para as pessoas na rua por elas serem tão bonitas quanto você. E o vento faz o chocolate sujar o seu cabelo que voa. E o mar é mais azul que o céu. Você sorri.)

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Tenho tirado fotos demais. Não agora, de verdade, desde Paris fotografo coisas inúteis que ninguém realmente vai querer ver. O céu da França. As plantas. As calçadas. As luzes. Mais tarde vou fotografar os euros. Já tenho mais de mil e quinhentas fotos na máquina, ninguém vai querer ver isso tudo. Não tem problema. Eu vejo.

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Lembrei de falar de Mônaco. Mônaco é tão rico que chega a dar ódio. Também tem um nome bonito, como a maioria das coisas daqui (mas Mônaco não é daqui). Disse antes que andei fotografando as luzes. Mônaco é cheio delas. Reluz. Deram o título para Paris, mas acho que discordo agora. Em Mônaco tudo brilha. É tão esnobe que nem fica na França. Preferiu se separar - e reluzir sozinha em seu próprio pedestral, quase o menor país do mundo, com suas luzes e brilhos e rico. Rico. Mônaco não se desculpa por ser. Mônaco não se desculpa por nada. Mônaco está lá e tudo que você pode fazer é olhar e sentir e absorver as luzes, e admirar em silêncio enquanto fica um pouco cego.

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Em um lugar bem alto, a 9.146 quilômetros do Rio de Janeiro, faz muito frio, venta, o mundo fica muito, muito pequeno. Parece que você vê a Terra de cima. E o céu entre as grades de ferro da Torre Eiffel é mais bonito do que eu pensava.

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Ainda tem muita coisa que eu pode falar sobre essa viagem. Falaria dos postes com outro em Paris, do calor seco de Nice, de tudo que os frances sabem e tudo que ainda deveriam aprender. Falaria das pessoas que me acompanharam, das pessoas que vi, daquelas das quais senti falta. Falaria muito, mas não vou fazer isso. Não vou porque estou prestes a decolar agora, e da França se fala na França. Deveria era falar do quanto aprendi nessa viagem, também, mas não vou. Sou uma pessoa fácil para viajar. Vou em todos os lugares e acho tudo muito bonito. Guardo algumas lembranças, a partir de agora vou tirar fotos. Muitas e muitas fotos. Vou fazer muita coisa quando chegar no Rio, também. Sinto falta de casa. No fundo sinto, apesar de tudo, apesar do quanto é bonito aqui fora. Mas sou forte para suportar. Essa é uma das coisas que trarei comigo: Sou forte. Sou. Preciso lembrar disso. Acho que vou, na verdade - lembrar disso e de várias outras coisas. Tenho as fotos para me alertarem. Tenho o que pensei guardado na mente e nesse caderno. Tenho tudo. Vou voar. Estou feliz.

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(É bom estar de volta.)