terça-feira, 11 de maio de 2010

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Ela me deu um sorriso. Acho que foi isso que me deu a certeza de que estava fazendo corretamente, mesmo antes de oferecer de fato. Eu gostei da mulher. Normalmente não gosto de contar livremente as coisas gentis que faço - não que sejam tantas assim -, mas gostei dela, esse é o caso. Ela merecia mais do que um pacote de biscoito, então decidi fazer um texto. A pele dela tinha cor de chocolate e era enrugada, quase de velha, uma velha nova demais. Tinha jeito de quem ia para casa - a sacola amarela nas mãos, o andar cansado e firme ao mesmo tempo. Tinha jeito de quem ia para casa, e espero que estivesse mesmo, e espero que não more sozinha. Prefiro pensar que tenha filhos, e prefiro que eles sejam crianças pequenas. Não por qualquer motivo importante, mas porque, quando eu era uma criança pequena, seria uma notícia legal ouvir da mãe que ela ganhou um pacote de biscoito de uma estranha na rua. Queria mesmo que houvessem crianças que crescessem acreditando que esse tipo de coisa acontece a qualquer hora, e o jeito como ela sorriu me deu a impressão de que seria uma boa mãe. Mas tudo bem se não for, biscoitos de waffle são bons de se comer sozinha. Ajudam a pensar. Espero que essa mulher tenha coisas boas em que pensar e, se não tiver, que o gosto de chocolate a distraia o suficiente para não fazê-lo. Eu tinha acabado de sair da escola, e quase não lhe entreguei o pacote, quase fiquei sem coragem no último momento. Foi uma sorte que estivéssemos vindo pelo mesmo caminho, porque só me decidi em frente ao meu prédio. Acho que o porteiro viu - ele me deu um "boa-tarde" especialmente animado quando entrei. Não importa. Tive que chamar três vezes para a moça ouvir. Acho que ela considerou simpático o jeito como eu falei, acho que gostou de ser chamada de "moça". Estava com medo de que tomasse como esmola - porque não era, definitivamente não era, embora tivesse sido comprado primeiramente como tal -, mas ela não se ofendeu. Não tinha jeito de quem se ofendia fácil, parecia o tipo de pessoa que teria enlouquecido se fosse assim. Ela me deu um sorriso. Foi quando entendi que aceitaria, porque existe gente que merece esse tipo de coisa, de ganhar chocolate de repente na rua, e ela me pareceu esse tipo de gente. De manhã eu tinha ficado chateada, por ter ouvido meu professor de física me chamar de mal-humorada, mas não importava, afinal, porque ela não concordaria. Pareceu me achar educada até demais. Espero que fosse o tipo de mulher que achava que não existiam mais pessoas jovens assim. Aquele tipo de pessoa boa e forte, mas que algum dia se perde, se fode, se mata e acaba caída numa cama mal feita por aí, e não há nem como culpá-la por isso. Fiquei feliz de tê-la encontrado antes - doces retardam essas coisas, às vezes até impedem. Por algum motivo, lembrei do senhor da caneta bic. Ela ficou tão surpresa quando a abordei. Aceitou o chocolate. Me deu um sorriso - e eu lhe sorri de volta.