sábado, 27 de março de 2010

Cherchez la femme

Era uma garota bonita. Sim, era, sem dúvida, daquela beleza quase artificial, do cabelo tingido de negro e dos lábios excessivamente maquiados. Daquela beleza que você sabe ser falsa, mas mesmo assim torce para ser real. E usava esmalte. Esmalte vermelho, descascado, colorindo parte das unhas roídas. Gostava de vermelho. E gostava de suas mãos, também – pôs vermelho nas unhas porque gostava delas. Era bonita e sabia disso. Gostava de seus cabelos, de sua boca, dos seus olhos e da sua pele. Não gostava do meio de suas pernas. Era uma garota bonita no jeito de falar, de mexer os cabelos e de morder os lábios. No meio de suas pernas não era nem uma garota. E, ainda assim, roía o esmalte. Esmalte vermelho é sinal de confiança, mas roer as unhas significa ansiedade. As pessoas não diriam que ela era ansiosa. Ser ansiosa significa estar esperando por algo.

Que será que ela esperava?

O esmalte deveria saber. O esmalte, descascado, despedaçado, sujando seus dentes tão bonitos. Que será que a fazia roer as unhas? Que será que a fez pintá-las? Gostava de vermelho, porque lhe lembrava as rosas – algum dia o odiaria, porque lhe lembraria o sangue. Mas quais seriam as lembranças dela? Acho que não tinha. Talvez algum dia tivesse tido, mas fizera questão de destruí-las com o tempo.

E nome? Será que tinha? Não me refiro ao primeiro – não ao das certidões e dos documentos bem guardados, que lhe deram sem lhe perguntarem, que há muito ela havia abandonado. Mas ao que escolhera, o verdadeiro. Devia ter nome de jóia. Esmeralda, Safira, Ametista, Cristal. Opala. Sim, devia ser Opala. Não tinha dinheiro para jóias, então o remédio era ser uma. E Opala é um nome bonito, um nome que ninguém tem. Então seria o dela, e as outras de sua espécie (aquelas que também são aberrações no meio das pernas) achariam engraçado, meio bobo, meio arrogante. Mas Opala era arrogante.

Opala não gostava de falar alto, nem de fazer escândalo. Ela usava aquelas sainhas escuras, cheias de babados, de fivelas, de fitas e zíperes. Os homens que gostavam de aberrações gostavam dela. Opala era mais nova do que a maioria – não o suficiente para ser um crime, mas o bastante para ser errado. Era tão, tão bonita. Era bonita o tempo todo, até quando se ajoelhava e tinha que gritar bem alto, ou então gemer bem baixo, ou então passar a língua depressa entre os dentes sujos de esmalte, com algo bem mais sujo no meio deles, que ela tinha que envolver e tocar com os lábios rosados. Opala tinha os lábios rosados e cheios, mas mesmo assim os pintava, o que os deixava meio feios, parecidos com os de um palhaço. Mas Opala não era um palhaço. Não. Opala era uma garota.

Opala um dia tinha sido Pedro. Que nojo, Opala, que nojo. Ela mesma sentia nojo quando era menor – depois passou a achar que nojo era coisa de gente fraca. Coisa de gente fraca e fresca, e ela não estava em posição para ser nenhuma das duas. Mas roía as unhas. Por que roía se era tão forte? Se entendia do mundo tão mais do que muita gente prefere nunca entender? Roer as unhas era sinal de medo. Medo de quê? Que será que a desesperava tanto?

Às vezes tinha hematomas. Não eram nada anormais, para a espécie dela, essa espécie de garotas que tem que apanhar por serem belas demais. E Opala era a mais bela de todas, e portanto apanhava como tal. Um dia ganhou uma cicatriz de um corte no pescoço, e teve que agradecer por isso – agradecer ajoelhada. Não se importava, não chorava, só descascava o esmalte. As pessoas odeiam aberrações. As pessoas jamais diriam que era uma delas, mas eventualmente descobriam, e os resultados variavam. Só chorou nas primeiras vezes, mas teve medo em todas. Ela não acreditava em deus, mas nessas horas rezava – no início para não ter que se ajoelhar, com o tempo apenas para ser capaz de levantar depois. Opala não queria morrer. Não acreditava em deus, mas tinha medo de ir pro inferno. Sua única saída era continuar viva.

Temia a morte.

Temia como nenhum outro dos horrores que havia visto, e havia visto muita coisa. Nem todas eram terríveis, entretanto. Havia o bastante para que se satisfizesse às vezes. O suficiente para ela.

Acho que uma vez Opala se apaixonou. Só uma vez, acredito, mas é apenas um palpite, posso estar me enganando. Acho que foi por um cara mais velho. Não mais velho de uns quarenta anos, mais velho de uns sessenta. Mais velho e mais feio. Ele levava-a para um hotel e a tratava como uma dama. Achava que Opala era um nome bonito. Tinha dinheiro para comprar várias delas, e ainda assim a preferia, talvez porque uma jóia que se acha na calçada tem mais valor do que uma adquirida nas lojas. As suas mãos eram enrugadas e ele a pedia para fazer a coisa toda bem devagar, e ela fazia, e não achava nem muito bom nem muito ruim, e ele lhe dizia que era linda. Linda. Ela era mesmo. Não sei por que o amou. Talvez fosse porque dizia não acreditar em amor, mas no fundo todos precisam acreditar um pouco e com o velho não haveria problemas se assim o fizesse. Ou talvez não. Talvez porque o velho lhe deu um colar com uma de suas irmãs como pingente, e ela nunca mais o tirou, e ele refletia todas as cores do arco-íris. Talvez porque ele sorria mais do que a maioria dos homens que a chamava. Era um velho com gosto por aberrações. Era um velho que às vezes a fazia rir.

Não sei por que o amou. Mas sei porque chorou quando ele foi embora: Porque ele chegou ao ponto de vir despedir-se. Não se ofereceu para levá-la e nem Opala lhe pediu que o fizesse – não sei o porquê disso também. Ele uma vez lhe dissera para parar de roer as unhas. Ela nunca parou.

Tinha gosto de rosas.

Toda menina sonha em ser uma rosa – toda menina devia sonhar em ser uma Opala. Opala, Opala, Opala. Opala tinha o nome tão bonito e os olhos tão lindos, e às vezes era preciso simplesmente ignorá-la por isso, por pura necessidade. Opala e suas lágrimas nunca derramadas. Opala e seus hematomas escondidos, Opala e seu pingente, Opala e seu esmalte descascado. Ela morreu um dia. E no inferno teria unhas compridas e finas, e elas teriam aquele vermelho forte de seu sangue, que boca nenhuma era capaz de roer.

sexta-feira, 19 de março de 2010

Dez fatos

Roubei de um post antiquíssimo da Pam.

1. Eu sempre me distraio enquanto o professor vai fazendo a chamada - fico lendo, ou conversando, ou às vezes simplesmente viajando em pensamentos mesmo. Como resultado, sempre que chega no meu nome, levo um susto achando que ele quer falar comigo e, em vez de "presente", pergunto: "que foi?!".

2. Me sinto terrivelmente grossa quando recuso os folhetos que as pessoas ficam distribuindo na rua, principalmente se elas falarem comigo. Na maioria das vezes, pego mesmo que não me interesse e guardo no bolso, só para não ter que ignorar.

3. Sou viciada em suco de maracujá. Assim, terrivelmente. Tenho sempre uma jarra na geladeira, peço sempre na cantina, peço em TODOS os restaurantes. Bebo mais suco de maracujá do que água.

4. Sempre que alguém faz um comentário do estilo "essa é para as meninas", ou "as meninas vão saber isso melhor", eu fico um pouco chateada. Não por causa de sexismo nem nada do gênero, mas porque, invariavelmente, quando alguém diz que "as meninas vão entender", eu não entendo. E isso me faz sentir mal.

5. Eu não faço as unhas. Já fiz, mas, atualmente, o máximo que faço é mantê-las curtinhas e limpas. Nem é porque cheiro de esmalte me enjoa, mas é porque realmente não acho bonito.

6. Eu fico muito, muito feliz quando alguém que não conheço e de quem nunca ouvi falar aparece no blog para comentar e dizer que gostou. Não que os comentários de gente conhecida não tenham valor, mas é que... Ah, é diferente. Fico bobamente alegre, ainda que não demonstre, porque nunca sei como responder os comentários. Mas que fique registrado que eu adoro.


7. Não sei qual é o código do teclado que faz esse coraçãozinho. Eu só copio e colo quando quero usar.

8. Oitenta por cento das coisas que as pessoas me contam que fizeram achando "OMG FODAS" normalmente são coisas que eu acho terrivelmente desnecessárias e estúpidas. Não que eu nunca faça merda na vida, mas acho que fazer de propósito, e ainda sabendo perfeitamente que vai acabar magoando alguém, não somente não é foda como é coisa de primeira série.

9. Quando não tenho o que fazer na internet, normalmente vou ler as críticas do Pablo Villaça, no Cinema em Cena. Não entendo de cinema e discordo dele setenta por cento das vezes, mas gosto do jeito como ele escreve.

10. Levei mais de um dia para elaborar essa lista. É muito mais difícil falar sobre você se algo de fato te pede para fazer isso.

sábado, 6 de março de 2010

Maybe I just want to breathe

Eu estava lendo Nana esses dias, e tem aquela cena em que ela pergunta à Hachi se, se o fim chegasse agora, ela estava vivendo sua vida de forma a não ter nenhum arrependimento. E é uma cena bonita, de verdade, eu sempre acho bonitas as cenas que mostram como elas se amam, mas não sei por que me incomodou. Todo mundo sempre diz que a gente tem que viver se forma a não ter nenhum arrependimento, viver como se todo dia fosse o último. Parece verdadeiro e belo, mas não sei bem como se aplica à realidade.

Quer dizer. Não acho que algum dia eu fosse conseguir algo assim. Se eu morresse amanhã, ou mesmo agora, digitando esse texto pra vocês, guardaria uma dezena de arrependimentos, uma porção de coisas que eu ainda queria fazer. Mas não é o caso de largar tudo que estou fazendo e ir realizá-las, simplesmente. Algumas dessas coisas não estão viáveis no momento por, sei lá, a minha idade. Outras não são do tipo que você pode chegar e realizar em um dia. E ainda há algumas - muitas, na verdade - que eu apenas não acho certo realizar agora.

Mas as pessoas continuam falando de arrependimentos. De viver cada dia como se fosse o último. Eu não faço a menor idéia de como iria querer viver o meu último dia. Rodeada de pessoas que eu amo, sim, talvez, mas é gente demais para reunir num único lugar. E, mesmo sem contar as que eu amo, tem pessoas que eu simplesmente gostaria de falar antes de ir embora. Essas são ainda mais difíceis de conseguir, e talvez seja por isso que eu não entendo essa idéia de morrer.

Eu nunca vou morrer sem arrependimentos. Nunca vou morrer tendo feito tudo que queria. Morrer assim me parece o equivalente a já estar morto, a reconhecer que não há nada mais que você deseja da vida, e eu não sei se vou chegar a esse ponto. André Gide escreveu: "Dai-me a felicidade de não esperar a morte para morrer", e acho que concordo. Dai-me a felicidade de morrer após ter vivido muito e realizado diversas idéias e planos, mas ainda ter vários outros e querer viver muito mais. Dai-me a felicidade de morrer rindo e pensando no dia seguinte que nunca virá. Dai-me a felicidade de morrer viva.

Todo mundo diz que o incrível é chegar ao topo, mas, se possível, gostaria de viver subindo.

Gostaria de morrer em paz, acreditando que ainda tenho mais milhares e milhares de anos de vida.

Todo mundo quer um final bonito. Todo mundo quer um final comovente. Todo mundo quer um final feliz. E acho que aí reside o meu problema e maior discordância com o resto da humanidade: Eu não quero um final.