quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Dentro da minoria

Vi um filme esses dias que eu estava evitando há um tempão. Sabe aquele tipo de filme que você quer ver, sabe que vai acabar vendo algum dia e sabe que vai adorar, mas fica adiando porque a história parece tão triste que você tem medo de entrar em depressão? Pois é, assim mesmo. No meu caso, foi um chamado "Meninos Não Choram". É relativamente conhecido, mas vou dar o resumo assim mesmo, pro caso de alguém não ter ouvido falar: Brandon Teena, transexual feminino (a.k.a. homem que nasceu mulher), se muda para Falls City, uma cidade pequena e isolada, onde só se se identifica como homem. Ele se adapta perfeitamente ao lugar, arruma amigos, faz sucesso com as garotas e arranja até uma namorada, Lana Tisdel. Em resumo, tudo dá certo até que, por conta de um problema com a polícia, seu segredo é revelado - o que desencadeia uma onda de violência contra Brandon.

Eu não recomendaria o filme, na verdade, pelo menos não para qualquer um. Além de ter umas cenas fortes pra caralho (no sentido de violência e de sexo) e ser uma das coisas mais tristes que eu já assisti, é uma história REAL, ou seja, mais depressivo ainda. Anyway, esse post não é uma resenha, apesar conter várias referências a história. Não é aí que eu quero chegar.

Brandon e Lana.

(Parêntese necessário: Vocês vão reparar que, ao falar de Brandon, vou usar sempre o masculino. Mas que ninguém se engane: Apesar de ter intenção, no filme, Brandon não chega a fazer, de fato, uma operação de mudança de sexo. Mas era como homem que ele se identificava, se dizia e se sentia, então é assim que vou tratá-lo - acho que se sentir de certa forma psicologicamente é muito mais relevante do que o fato de ter um pênis ou não. De qualquer modo, ele não tinha.)

O caso é que o filme me levou a refletir a respeito disso, da condição dos transgêneros em geral. Quer dizer, a maioria de nós já está familiarizado com o preconceito contra os homossexuais. Apesar de ainda sofrerem bastante (principalmente com relação ao preconceito mascarado) e ainda terem significativamente menos direitos em comparação aos heterossexuais, eles já conquistaram um relativo espaço na sociedade. Mas
e os outros? E quanto aos travestis, os transexuais, os bis, os hermafroditas? Eles são minoria dentro da minoria! Há casos de discriminação contra essa parcela da comunidade GLS pela própria comunidade. Fora dela, então, eles não existem. Travestis são bichas; transexuais e hermafroditas, aberrações; e bissexuais não existem de verdade, são todos gays com medo de assumir. Ou heteros que seguem a modinha.

Sei que é errado classificar níveis de sofrimento, como se isso significasse alguma coisa, mas não posso deixar de pensar que, desses exemplos que eu citei (que são só
algumas minorias e nem de longe englobam toda a diversidade sexual que existe no mundo), os mais martirinizados são, realmente, os transexuais. Pelo simples motivo que ser um trans, por si só, já traz sofrimento. Não por ser "errado" ou um "problema", mas pelo fato de que... Imagine viver num corpo que você não acha que é o seu. Não estou falando de odiar o seu físico, e sim de simplesmente não se identificar com ele. Eu não consigo nem imaginar como deve ser. Quer dizer, quando vou tomar banho e tiro a roupa e me olho no espelho, posso encontrar milhões de imperfeições que me desagradem, mas eu sei que aquele corpo é meu. Sou eu. Agora imagine olhar no espelho e sentir que aquele reflexo não é você. Não você numa visão desagradável, nem você num momento ruim, simplesmente não é você. Aquele corpo não é seu. O que está fazendo com ele, você não sabe. Só sabe que definitivamente não é você. Não é que você tenha algo contra esse tipo de corpo, ou problemas de auto-estima, é só que... Não é. Imagine viver com isso. E ainda ser discriminado por tal, como se a culpa fosse sua. E por quê? Porque é esquisito. Porque não é considerado normal. Porque - e isso se aplica a todas as minorias citadas aqui - não é rotulável.

Essa junção ainda assusta tanta gente...

No final das contas, é isso. Tudo acaba resultando no problema dos rótulos. É incrível como essa mania de diferenciar e colocar tudo em potinhos distintos acaba sendo a causa de praticamente todos os problemas existentes na sociedade humana. É
tudo causado pela maldita necessidade de designar papéis. Isso tem a ver com machismo e sexismo, também. Explica-se: Ao estabelecer um modelo de comportamento masculino e um feminino, colocando homens de um lado e mulheres do outro, houve uma divisão na humanidade: Feminino e masculino, Vênus e Marte, amor e sexo, rosa e azul, etc - e, é claro, homem por cima e mulher por baixo, em todos os sentidos.

Os homossexuais foram os primeiro a abalarem essa divisão, e é por isso que eles são atacados até hoje: Por balançarem os rótulos. Afinal, a idéia principal era que homens e mulheres foram feitos para se encaixarem, e é por isso que eles seriam tão opostos. A partir do momento em que você aceita que um homem pode se encaixar com outro homem e vice-versa, da parte de uma mulher, então essas diferenças não teriam razão de ser, e seríamos obrigados a reconhecer que - gasp! - cada ser humano é composto de um universo totalmente diverso e contraditório de opiniões, sentimentos e preferências.

Mas, puta merda, isso dá muito trabalho! Então, o que fazer? Mais rótulos. E aí surgiram, junto com os homossexuais, as
bichas. Os "viadinhos", os "afeminados". Eles são um problema para essa divisão de gêneros. Afinal de contas, são - horror dos horrores - homens com características (que a sociedade determinou que são) de mulher. O mesmo se aplica às lésbicas "masculinizadas". Então, o que a sociedade patriarcal (mas esperta) fez? Diminuiu somente a eles. Ou seja, tudo bem que um homem gostar de homens, contanto que ele ainda seja "masculino" - contanto que ele não deixe de desempenhar seu papel. As "bichas" só são inferiores porque possuem características femininas. São homens abrindo mão de sua posição de dominantes, e a partir daí eles perdem seus direitos. É só olhar ao redor. Já cansei de ouvir que "o problema não é o cara ser gay, e sim ser uma diva. Aí eu não gosto", ou "tudo bem ser lésbica, mas não precisa deixar de ser feminina!". E o que me dizem de manisfestações homossexuais como essa? O que eu falei sobre ser discriminado dentro da própria comunidade? Pois é.

Na verdade, eu não sei bem o que classificaria um cara como bicha. Podem pensar que é óbvio, mas, quando você pára para aplicar a teoria ao mundo real, você acaba percebendo que não. Tenho um amigo (hetero) que é bastante educado e fino, além de ter uma aparência ligeiramente andrógina. Segundo certas visões, ele é uma bichona. Por outro lado, tenho outro amigo que, além de grosseiro várias vezes, também é totalmente homofóbico. Mas, quando fomos ver um filme de terror há um tempo atrás, ele ficou tremendo de medo e de olhos fechados o tempo todo, enquanto eu, que sou menina, não tive temor algum. Ora, isso não o faria um "viadinho"?

E é aí que os travestis entram. Eles são o suprassumo da viadagem, na visão dos machões. Eles também são o pesadelo de qualquer visão atrasada - porque são homens, mas se vestem como mulheres, e mesmo assim não têm a intenção de deixarem de ser homens (nem todos pretendem fazer a operação). Aí confunde tudo. E confunde ainda mais se você pensar que, na verdade,
nem todos eles são homossexuais (confusão que também se aplica aos trans). Opa, e os caras que os procuram, hein? Esses são um problema maior ainda, porque normalmente não tem "jeito de bicha". Às vezes são casados. Às vezes nem gostam de homens que não estão travestidos! Então o que eles são? Heteros? Bis? Drag-sexuais? Ah, e se um cara hetero pegar um travesti sem querer, achando que é mulher? Ele é gay? Ai, que dor de cabeça! Melhor dizer logo que estão todos errados e pronto.

No fundo, é isso mesmo que prejudica mais essas minorias: Essa suposta
indefinição, esse pavor que elas inspiram por não serem completamente compreensíveis. Isso é mostrado com clareza no filme, através de uma cena em que Lonny, primo de Brandon, o confronta. Ele é homossexual, aparentemente (o filme deixa em aberto), e exige que Brandon que assuma como lésbica. Mas Brandon diz que não vai se assumir porque não é lésbica. E Lonny não entende quando ele diz isso - ele é incapaz de entender que Brandon não pode ser lésbica porque é um homem. Ponto. E às vezes isso nem tem caráter sexual. Num outro filme, "Melhor que Chocolate" (que eu nunca vi, mas pretendo), há um transexual masculino, a Judy. Ela exerce sua transexualidade com orgulho durante toda a história. E se apaixona por uma mulher. Esquisito, né? Na verdade, não. Porque, quando você pára para pensar, "identidade" e "preferência sexual" não poderiam ser termos mais diferentes um do outro. Não é uma questão do que você gosta, e sim do que você é. Mas isso assusta ainda mais as pessoas.

Porta de banheiro especial para transexuais - separar e definir, é isso que a humanidade faz.

E essa exigência de definição não é só com relação aos trans. Puxando a brasa pro meu lado, qual bissexual nunca ouviu que sua preferência não é realmente verdadeira? Que só estava "confuso", que era só "uma fase"? As pessoas COBRAM esse tipo de definição. Segundo alguns, eu não POSSO gostar de meninos e meninas, eu tenho que escolher um. Do contrário, estou em cima do muro. Sou lésbica e não tenho coragem de me assumir, acusa a comunidade GLS. Sou hetero e estou seguindo a modinha e ofendendo os homossexuais de verdade, acusa o resto da sociedade. Não tô exagerando, procurem por aí! Enquanto o debate sobre a homossexualidade consiste basicamente no "é certo ou errado", o debate sobre a bissexualidade ainda é "existe?". E tem gente (muita gente) que acredita piamente que não. Eu sei que tem pessoas que me conhecem que não compram a idéia de que eu seja bissexual. Sou pessoas que não acreditam nas minhas palavras sobre mim. Eu, que me conheço desde que nasci. Que convivo comigo mesma vinte e quatro horas por dia. Eu posso saber que gosto de chocolate e maracujá, de livros e animes, mas não de homens e mulheres. Aí estou enganando a mim mesma.

É daí que surge o estereótipo de que "bissexual = tarado obcecado por sexo". Honestamente, não tenho nada contra gente que saia pegando tudo que respire, mas é chato ver que, em milhões de filmes, séries, livros, animes e whatever, praticamente todos os bissexuais assumidos que você encontra são assim. Aliás, já é raro achar um personagem que se auto-denomine bissexual - o que ocorre normalmente é a pessoa ter "experiências" com o outro lado, e, mesmo que elas sejam prazerosas, continuar se declarando hetero (não me perguntem qual é a lógica disso). Os que literalmente se declaram bis, além de serem raríssimos, entram no estereótipo. E, veja bem, não estou dizendo que não existam bis que sejam assim, só que... Sei lá, às vezes eu queria ver um personagem bi que fosse normal, só pra variar.

Isso se aplica a todos, na verdade: As pessoas não pensam em bissexuais, trans ou travestis como gente com que você cruza na rua, senta ao lado no ônibus ou pergunta que horas são. E, sei lá, depois de ver "Meninos Não Choram", por exemplo, muita gente vai achar um absurdo todo o preconceito e tal, mas sabem... No filme e na vida real, quando Lana descobriu a verdadeira identidade de Brandon, ela ficou do lado dele. Mas quantos teriam realmente feito isso? Imagina você, garota perfeitamente normal, hetero e saudável, que se apaixona por um cara, fica com ele, namora e de repente descobre que o seu querido amor é, na verdade,
outra garota? Tu reagiria pacificamente? Ou tu ficaria assustada, amendrontada, confusa a respeito da sua própria sexualidade? Não seria provável que você acabasse sendo grossa e estúpida sem querer? Claro que seria. E isso nem é inteiramente sua culpa - tem a ver com a visão que a sociedade ensinou, a manipulação da mídia, enfim, essas coisas das quais eu já falei. A gente simplesmente não pensa nesse tipo de ser humano como uma pessoa que pode estar do nosso lado.

Aliás, a gente não pensa nem como ser humano. É só ver o exemp
lo dos travestis. Quando a gente pensa em travestis, vem aquela imagem caricaturada, escrachada, meio engraçada, até. E não é nem que essa imagem seja totalmente errada. É só que não é a única. Quer dizer, pensa nos travestis que você vê retratados na mídia. Eles são aquelas divas, aqueles cheios de glamour, aqueles seres alegres que exalam purpurina por onde passam. Você nunca vê um travesti envolvido em algum problema emocional. Você nunca vê retratado o fato de que eles são provavelmente a parte da comunidade GLS que mais sofre com crimes de ódio. Você nunca vê um travesti apaixonado, ou chorando, ou com raiva (a não ser que seja pra dar um piti de perua e todo mundo achar engraçado). Quando um travesti sofre violência, o que é incrivelmente freqüente, é raro ele reportar à polícia, porque em boa parte das vezes os policiais prosseguem com a humilhação. Mas isso quase nunca é mostrado. O autor simplesmente inclui um personagem traveco e divertidinho na história, pra poder que não tem preconceito. Falta humanização. Essa é a chave.

Achei essa foto tão bonita... É raro ver esse tipo de retratação.

É provável que algumas pessoas não entendam aonde eu quero chegar com isso. Afinal, tirando a bissexualidade, eu não tenho nenhum vínculo (que eu saiba) com travestis ou transexuais. Mas é que o buraco é mais embaixo, mesmo. Toda essa discriminação é fruto de medo. Medo e ignorância. E da necessidade de rotular, claro. Que é causada por medo. Enfim, é um ciclo contínuo. E falta reflexão sobre isso, de todas as partes. Porque, quando você pára pra pensar, a questão é que a sexualidade e os sentimentos humanos são tão complexos, tão cheio de poréns e entretantos, que simplesmente não vale a pena tentar compreender e nomear a todos. Eu podia citar tantos exemplos que deixam os nossos rótulos numa sinuca, e que confundem a cabeça de qualquer um que tenha eles aferrados na mente. Duvidam? Vamos lá:

Tanto no filme como na vida real, Lana era apaixonada por Brandon. Isso fazia dela lésbica? Ela se sentia atraída por Brandon sem saber que ele tinha corpo de mulher, verdade, mas o fato é que ele tinha. Mas psicologicamente ele se dizia homem. Se bem que, quando se trata de sexualidade, o que importa não é o físico? Por que então temos tantos psicólogos estudando a questão? Baseado nisso, Lana Tisdel era ou não era lésbica? E outra: Se por acaso Brandon fosse lésbica, e se identificasse como mulher, e Lana se apaixonasse por ele, ela não seria hetero, né? Mas e se, depois que Brandon morresse, ela nunca tornasse a sentir atração ou amor por nenhuma outra mulher? Aí ela voltaria a ser hetero e só teria tido uma experiência? Mas, se Brandon tivesse vivido, então ela teria ficado com ele, isso a faria lésbica? Mas aí isso teria sido determinado pela situação, e sexualidade não é algo com que você nasce? Aliás: E se Brandon se identificasse como homem mas agisse de maneira afeminada, se transformando numa "bicha"? Isso ainda o manteria como transexual? Homens com comportamento e jeito de mulher poderiam ser considerados homens? E se uma bicha se apaixonasse por uma mulher, e mesmo não quisesse abstrair de seu jeito de ser? E se a mulher gostasse dele mesmo assim? Essa mulher seria lésbica por gostar de alguém feminino? Ou talvez bissexual? Isso também se aplicaria às garotas que gostam de caras andróginos? E um cara que namorasse uma tomboy, poderia ser considerado meio gay? Ou hetero, porque afinal de contas ainda namoraria uma garota? Então uma mulher que gostasse de um travesti também não seria hetero? O que é, o que é, o que é?

São pessoas.

Que gostam de outras pessoas.

Se todo mundo entendesse as soluções de todos os enigmas trincados com relação à sexualidade são
simples assim, seria infinitamente mais fácil. Mas o que é que eu sei, né? Sou indefinida, afinal, sou muito confusa. Tô falando de cima do muro. E não pretendo descer tão cedo.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Lama

Ele entrou no ônibus quanto tínhamos parado no sinal. “Passa na Tijuca?” ; “Passa”. Pagou a entrada em várias moedinhas de dez, e recebeu um olhar mal-humorado do cobrador. As moedas tilintaram quando ele as soltou da mão.

Tinham vários lugares vagos, mas se sentou do meu lado.

Pensei vagamente em assalto, mas não cheguei a me preocupar. Era um moleque baixote e magricela demais pra meter medo em alguém. Mesmo assim, me remexi desconfortavelmente no banco.

Tio”, ele chamou, a boca se mexendo devagar e mostrando os dentes tortos e muito brancos. Ele usava um par de chinelos azuis e surrados, e uma calça comprida suja nos joelhos. “Ô, tio”, repetiu, desta vez batendo de leve no meu ombro. Tinha uma mão pequena e áspera, e acho que só isso me fez responder.

Que foi?”

Ele fez um gesto, abanando a mão.

Chega a cabeça um pouco pra trás, vai?”

Ergui as sobrancelhas, surpreso. Ele apenas me encarou com os olhos escuros, quase pretos, enquanto repetia o abano da mão. Obedeci. Ele era tão magro, meu Deus. Os ossos dos nós dos dedos se sobressaltavam na mão.

Valeu, tio”, e ficou olhando para o meu lado, para além de mim, para algum ponto visível da janela. Examinei seu rosto naquele momento, aquele rosto de criança, com dentes brancos e tortos e olhos escuros quase pretos. Ele tinha cor de lama. Não se tratava de preconceito da minha parte, era assim mesmo: Aquele marrom meio sujo, meio mesclado, de quem não é nem negro nem branco, nem chocolate nem baunilha. Lama.

Ele não tinha, por si só, nada de especial, nada que teria me feito virar a cabeça se cruzássemos na rua. Era igual a todas essas crianças que você encontra sentadas na calçada. Quando garoto, eu costumava pensar que todas elas se conheciam, ou que eram todas irmãs de alguma forma, porque todas me pareciam idênticas. Aquelas crianças cor de lama, de terra, de chocolate, de areia, de carvão, de noite, de tudo. Aquelas crianças de cor. Aquelas pelas quais você passa apressado e sem olhar, porque precisa ir ao trabalho, porque precisa ir à escola, porque vai à algum lugar e elas não vão sair dali. Porque está atrasado, porque está adiantado, porque está quase chegando e porque ainda falta muito. Ninguém devia fazer o contrário, é claro – porque ninguém quer ser assaltado, ninguém quer ser xingado, ninguém quer apanhar sem motivo. Mas esse medo justificado não é o maior problema: É que, se olhar para aquelas crianças por muito tempo, o seu maior risco não é ser assaltado. Se você olhar muito para aquelas crianças, você morre. Você morre.

Se eu olhar mais um pouco para esse garoto, vou morrer.

Tá vendo o que?” Perguntei, virando o rosto para a janela também. Estávamos presos num engarrafamento em Botafogo. O moleque não respondeu de primeira, apenas bateu levemente no meu ombro de novo, para que eu colocasse a cabeça na posição anterior.

Ele respondeu, e pelo tom de voz adivinhei que sorria, mesmo sem olhar para seu rosto.

O céu. Tá mó azul hoje, né, tio?”

Azul.

Senti algo se quebrar dentro de mim naquele momento. Algo quebrou e se estilhaçou em milhões de pedacinhos, e se espalhou por toda a parte, dos fios de cabelos até a ponta dos dedos. Nunca consegui recuperar aquilo. E até hoje não sei o que era.

Senti vontade de abraçá-lo.

O céu está sempre azul.” Resmunguei, tolo e estúpido, apenas para não ter que encarar-lhe em silêncio. Descobri que amava profundamente aquele menino. Só por ele existir, só por ter se sentado ao meu lado, só por olhar o céu de uma janela de um ônibus. Desejei que fosse meu filho – mas, se fosse, provavelmente jamais faria algo assim. Porque eu não tinha cor de lama, e ele tinha, aquela cor que se adquire nascendo e não tomando sol, que não é aquele chocolate bonito que tem nas peles de vários negros, só um tom de marrom feio, comum. Gente dessa cor se espalha pelas calçadas em dias de chuva – mancha as cidades mais bonitas e vê os sapatos dos outros passarem, porque são lama. Feitos de lama. Moldados em barro.

Ele sorriu.

É, né?”

Desejei dizer algo bonito, algum tipo de lição de vida. Algo que fizesse aquele moleque pensar e concluir alguma coisa que eu não sabia direito o que era, alguma coisa que o faria ficar vivo e crescer e sorrir com os dentes tortos – e tão, tão brancos! E ele era tão, tão magro! Ele não tinha nem razão para estar vivo.

...Que foi, tio?” Me perguntou, notando meu olhar.

Tive vontade de tentar salvar aquele garoto. Tive vontade de pedir-lhe que não se drogasse, que não pegasse em armas, que não se metesse com a polícia. Que não machucasse ninguém, que não fosse parar na cadeia, que não morresse cedo. Mas que direitos eu tinha para fazer isso? Que direitos eu tinha de privá-lo de suas poucas opções? Teria passado por esse menino centenas de milhares de vezes na rua, e ignorado todos os seus pedidos de esmola sem peso na consciência. Mas é que ele olhava o céu. Ele olhava o céu pela janela de um ônibus. Você sente vontade de salvar uma pessoa assim, por mais hipócrita que possa ser. Você sente.

Você deve.

Nada.” Respondi. Sentia um nó na garganta enquanto o ônibus avançava pelas ruas. O mundo precisava daquele garoto e eu não poderia salvá-lo. Mas deveria, porque o mundo precisava dele – eu precisava dele. Precisava dele porque todo mundo precisa de uma pessoa que sorri ao olhar o céu. Todo mundo, no mundo inteiro.

Virei a cabeça para a janela. Um momento de silêncio pairou entre nós, antes que eu dissesse algo. “Está bonito mesmo.”

Ele deve ter sorrido, acho, mas não tive coragem de descobrir.

“Opa” Disse, vários minutos depois, levantando-se de um salto. “É o meu ponto. Tchau, tio.”

Murmurei uma despedida atrapalhada. Me desculpe, pedi, silenciosamente, enquanto o observava se afastar. Me desculpe, pedi à todo o universo, ao cobrador, ao motorista e a todas as pessoas daquele ônibus. A mim mesmo. E, sem forças para observá-lo sair na rua, apenas voltei minha cabeça para a janela. Para o céu, para os olhos daquele menino. “Tá mó azul hoje, né, tio?”, foi o que ele me dissera.

E estava.

sábado, 9 de janeiro de 2010

Endless fact

Fico puta com aquele pessoal que diz que não consegue ser feliz por causa de tudo que está errado com o mundo. Fico puta com aquele pessoal que acha que eu não tenho o direito de rir em paz por causa das crianças morrendo de fome na África. Fico puta com aquele pessoal que acha que felicidade plena não existe, e que no final das contas a tristeza é tudo que nos resta.

Fico puta porque acho isso de um egoísmo sem tamanho. Acho que se recusar a tentar viver bem por causa das desgraças que ocorrem diariamente é algo covarde, patético, risível, desprezível. Quero bater com um bastão nessas pessoas que tentam vender a idéia de que o amor é um mito, de que a amizade não existe e que os laços familiares só vão até certo ponto. Quero bater com um bastão nessas pessoas que se acham no direito de contaminar a felicidade alheia com seus comentários descrentes e ignorantes, que eles dizem que são feitos no intuito de "conscientizar", quando só conseguem satisfazer as suas próprias mentes medíocres. Essas mentes repugnantes que vivem de procurar todos os problemas do mundo apenas para apontá-los, e jamais tentar solucioná-los - porque isso é impossível, é utopia. Essas mentes que se alimentam de estatísticas e números para dizer determinada quantidade de pessoas morreu em determinado lugar, por determinada causa e de determinada forma, e por isso você não pode acordar de manhã e olhar para cima e dizer que o mundo é bonito só porque o céu está azul. Só porque está fazendo sol e tem gente rindo e indo à praia. Só por isso, eles afirmam que eu não tenho o direito de ser feliz.

Verdade seja dita que, se alguém me perguntasse, eu jamais diria que qualquer uma dessas pessoas gostaria do que eu escrevo. Convivi com essas pessoas a vida inteira, como qualquer outro, e elas gostam de me caracterizar como sonhadora, como boba, como ingênua. Porque nunca acreditei no que elas dizem. Nunca acreditei que a essência das pessoas é a maldade. Nunca acreditei que os problemas do mundo não tem solução. E, por mais contraditório que pareça, nunca afirmei "acreditar" em felicidade. Dizer que eu acredito em felicidade seria o mesmo que dizer que acredito em oxigênio - quando oxigênio não é uma crença, é um fato. Felicidade também.


E, já que qualquer pessoa desse tipo, a essa altura do post, já deve ter fechado a janela ou está arrancando os cabelos, irei mais longe. Mas não serei arrogante - não vou afirmar que tristeza eterna não existe. Existe. Mas é que nem felicidade eterna - só existe se você deixar.

E sobre o mundo? O mundo está aí. Com todos os seus defeitos e merdas e gente morrendo e sofrendo o tempo todo. E gente que vê tudo isso e tenta nos convencer de que não vale mais a pena, de que não tem mais jeito. De que ódio existe e amor não. De que tristeza existe e felicidade não. E sobre tudo isso eu só tenho a dizer foda-se. Sou feliz porque o céu quando eu volto à pé da escola é bonito. Porque suco de maracujá é bom. Porque a textura do carpete do meu quarto é gostosa. E porque eu "acredito" - eu sei que nenhum problema do mundo é inteiramente sem solução. E sou alienada, sou ingênua, sou boba? Não cabe a mim responder. Só que a verdade é que conheço todas estatísticas que tendem a jogar repetidamente na minha cara, e provavelmente eu saberia da determinada quantidade de pessoas que morreu em determinado dia e em determinado lugar de determinada forma, mas isso para mim seria mais um motivo a favor, outra prova da minha filosofia. Porque ser feliz não é a minha alienação, não é uma prova de minha ignorância (e, com certeza, ela é margistral, como a de qualquer um). Ser feliz é O MÍNIMO que todos nós devíamos fazer pelo mundo.


sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

A bunch of fireworks

Uma das coisas que faz do ano-novo o meu feriado favorito, por mais clichê que pareça, são os fogos de artifício. Dezenas de flores desabrochando no céu. De todas as cores, subindo em pequenas cobras de luz e explodindo e encantando e sumindo tão rápido, tão simples, tão, tão bonito. Adorei 2009, adorei seu início, seu meio e seu fim. Conheci tanta gente nova, perdi contato com tanta gente antiga, chorei tanto, ri tanto, briguei tanto, amei tanto. Li tanto livro bom, vi tanto filme bom, escrevi tanta coisa boa e ruim. Falei tanta merda, falei tantas coisas bonitas - fiz tanta merda, fiz tantas coisas bonitas. Fiz tanta coisa diferente aquele ano, tanta coisa que eu nunca tinha feito antes. Valeu tanto a pena.

Fiz várias promessas para este ano, e talvez ano que vem eu descubra que não consegui cumprir nenhuma delas, e que algumas não eram tão relevantes quanto pareciam. Mas não importa.


É o primeiro dia de 2010 e eu estou feliz.

Espero que todos vocês sintam o mesmo - não só hoje, como na maior parte dos 365 dias que virão a seguir. ♥