terça-feira, 24 de agosto de 2010

Antes de completar um mês

Eu não queria escrever isso. De verdade, eu odeio esses posts em que a pessoa não fala realmente nada de útil, o tempo todo. Queria escrever um post útil - um daqueles imensos, que dá muitos comentários, muita gente falando que fez pensar. Minha internet tem andado horrível ultimamente, e tem muitas chances de eu precisar de um computador novo, então não tenho como fazer as pesquisas necessárias/manter a conexão tempo suficiente/arrumar imagens boas pra fazer um post como eu queria.

Tava querendo fazer um daqueles meus sobre preconceito. Um sobre sexismo, provavelmente, ou então sobre termos ofensivos, ou sobre piadas aparentemente inofensivas, ou qualquer coisa que venha me incomodando ultimamente. Esses temas nunca saem por inteiro da minha cabeça - e, sim, tenho consciência, melhor do que ninguém, que já tem gente me chamando de maluca por isso, obrigada. Acho que a minha obsessão por essas coisas vem do fato de que as pessoas precisam ouvir isso, por mais que incomode, por mais que irrite ou que eu fique com fama de estraga-prazeres. Esses dias peitei meu professor de química (educadamente, claro) sobre os termos homofóbicos que ele usa em aula. O homem subiu pelas paredes, começou a falar altíssimo, quase a gritar, e terminou a conversa afirmando que não iria nem pensar a respeito, pois não pretendia mudar por minha causa. Porém, na aula seguinte, não fez as usuais piadinhas de "boiolas" que são sua marca característica. No início do ano aconteceu o mesmo com meu professor de física (o mesmo que me chamou de mal-humorada), que fazia piadas de mulher na sala e com quem eu fui conversar e, ao contrário do de química, reagiu muito tranquilamente e parou sem problemas. Hoje em dia somos quase amigos - e não, não peguei orientação em física, hahaha. Não sei, as pessoas sempre dizem que eu sou extremista nesse assunto. Mas, se dá certo, não vejo porque deveria me incomodar.

Também preciso voltar a escrever fanfics. Hoje à noite vou ver se consigo espremer pelo menos uma ficlet pro projeto HG do seis vassouras, que estou devendo há um tempão. Também queria escrever algo de Glee, cheguei até a começar uma, mas não tive chance de terminar. Inclusive, um dia desses pretendo copiar a Júlia, do Innuendo Blues - com a devida permissão que já ganhei, claro, hahaha -, e criar um Random Rant pro livejournal, onde eu posso reclamar dos spoilers da Season 2 sem irritar ninguém. Se bem que ultimamente não tenho ligado muito para irritar ou não os outros. Sem querer incentivar a desarmonia nem nada, mas é algo fácil demais para ficar me atormentando o tempo todo. Deve ser um efeito pós-França, não sei.

E, já que mencionei a França, queria também criar uma conta no flickr pra postar algumas fotos lá. Vou tentar fazê-lo essa semana. Vou tentar terminar de fazer o backup de todos os meus arquivos também, pra poder trocar de computador logo. E vou ver se faço um post grande e desenvolvido aqui também. Sinto falta de vocês e do espaço como um todo. Vamos ver no que vai dar. ♥

terça-feira, 27 de julho de 2010

Anotações num outro continente

(sem imagem, dessa vez, vou deixar pra vocês imaginarem)

Paris é uma cidade-fumaça. Uma lembrança trágica, da qual você não quer se livrar, mesmo depois de ter se atormentado com ela por tanto tempo. Paris dói. Não queima, é feita de cinzas. É a marca de todas as histórias que já lhe aconteceram. Não arde, incomoda o nariz e empesteia o ar. Paris não é pra mim, mas é um pouco para todo mundo. Feita de cinzas.

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As pessoas dizem que fede, e tem certa razão nisso, mas pra mim Paris cheira à fumaça doce, dos fogos de ontem. "Paris dói", escrevi antes, mas no fundo não, Paris é o que eu disse, a lembrança dolorosa pra qual todo mundo tem que voltar às vezes. Mas é impossível ficar. A fumaça escapa por entre os dedos. Paris evapora, a lembrança se esvai. É efêmera. É uma brecha na realidade, tem cheiro e forma de época. Tem gosto de tempo.

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O tempo. Paris está fora dele, é imune aos seus efeitos. Foge-lhe, engana-o, guarda-o. Mata-o.

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Vi um velho no museu hoje. Quando chegar no Rio devo escrever sobre ele. É importante, acho que ele perdeu a filha. Olhou longa e tristemente para aquela estátua de uma criança. Observei-o mais do que a escultura. Tinha olhos claros. Pareceu que ia sorrir pra mim, mas não o fez. Acho que perdeu a filha - acho que perdeu algo. Há muito, muito tempo atrás.

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Não quero deixar Paris. Mas é preciso, se meu tempo parar aqui não encontrarei salvação na volta.

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Tudo aqui é um museu à céu aberto. Os parisienses tem olhos claros e olhos escuros e pele clara e pele escura. Não há meio-termo. As pessoas aqui devem ter medo de cinza.

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Tenho medo de não ser mais a mesma quando voltar.

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(Correção necessária: Tenho medo de não voltar por completo.)

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Nice é morna. Tem mais cores que Paris, tem mais a ver comigo, tem mais movimento, é mais viva. Mas no fundo não. A cor típica de seus prédios é terracota, me disseram. Terracota é um nome lindo. É a cor de Nice. Nice tão mais calorosa que Paris. E por baixo aquele tom de terracota. Inevitável. Sempre lá.

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Aqui em Nice o que mais fotografo são as flores. Não sou grande fã de flores em particular, não mais do que sou de quase tudo no mundo, mas essas chamam a atenção: São brilhantes, fortes. Antibes, Cannes, Saint-Paul, as flores são tudo que as unem - as flores e o terracota. Bendito terracota. É o tipo de nome que precisa repetir para ficar bonito. Nice não precisa, no entanto, é bela de essência. Tem cheiro de planta. Planta, não flor. Aquele cheiro molhado de grama - o toque floral existe, é verdade, mas é mais escondido, mais presença do que aroma. Nice não dói, Nice aquece. Ter-ra-co-ta. Vou sentir falta de Nice.

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(Um fato: Quando se está em frente à praia de Cannes, com o sol quente sobre o seu cabelo molhado, de óculos laranjas e com um sorvete imenso de chocolate na ponta da língua, o mundo todo parece mais bonito, até você mesmo. E você sorri para as pessoas na rua por elas serem tão bonitas quanto você. E o vento faz o chocolate sujar o seu cabelo que voa. E o mar é mais azul que o céu. Você sorri.)

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Tenho tirado fotos demais. Não agora, de verdade, desde Paris fotografo coisas inúteis que ninguém realmente vai querer ver. O céu da França. As plantas. As calçadas. As luzes. Mais tarde vou fotografar os euros. Já tenho mais de mil e quinhentas fotos na máquina, ninguém vai querer ver isso tudo. Não tem problema. Eu vejo.

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Lembrei de falar de Mônaco. Mônaco é tão rico que chega a dar ódio. Também tem um nome bonito, como a maioria das coisas daqui (mas Mônaco não é daqui). Disse antes que andei fotografando as luzes. Mônaco é cheio delas. Reluz. Deram o título para Paris, mas acho que discordo agora. Em Mônaco tudo brilha. É tão esnobe que nem fica na França. Preferiu se separar - e reluzir sozinha em seu próprio pedestral, quase o menor país do mundo, com suas luzes e brilhos e rico. Rico. Mônaco não se desculpa por ser. Mônaco não se desculpa por nada. Mônaco está lá e tudo que você pode fazer é olhar e sentir e absorver as luzes, e admirar em silêncio enquanto fica um pouco cego.

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Em um lugar bem alto, a 9.146 quilômetros do Rio de Janeiro, faz muito frio, venta, o mundo fica muito, muito pequeno. Parece que você vê a Terra de cima. E o céu entre as grades de ferro da Torre Eiffel é mais bonito do que eu pensava.

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Ainda tem muita coisa que eu pode falar sobre essa viagem. Falaria dos postes com outro em Paris, do calor seco de Nice, de tudo que os frances sabem e tudo que ainda deveriam aprender. Falaria das pessoas que me acompanharam, das pessoas que vi, daquelas das quais senti falta. Falaria muito, mas não vou fazer isso. Não vou porque estou prestes a decolar agora, e da França se fala na França. Deveria era falar do quanto aprendi nessa viagem, também, mas não vou. Sou uma pessoa fácil para viajar. Vou em todos os lugares e acho tudo muito bonito. Guardo algumas lembranças, a partir de agora vou tirar fotos. Muitas e muitas fotos. Vou fazer muita coisa quando chegar no Rio, também. Sinto falta de casa. No fundo sinto, apesar de tudo, apesar do quanto é bonito aqui fora. Mas sou forte para suportar. Essa é uma das coisas que trarei comigo: Sou forte. Sou. Preciso lembrar disso. Acho que vou, na verdade - lembrar disso e de várias outras coisas. Tenho as fotos para me alertarem. Tenho o que pensei guardado na mente e nesse caderno. Tenho tudo. Vou voar. Estou feliz.

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(É bom estar de volta.)

terça-feira, 8 de junho de 2010

In the middle

Faz muito tempo que eu não escrevo. Não é bom, acho - me disseram que não vale a pena forçar se eu não tiver inspiração, que eu não tenho obrigação com ninguém de escrever, e é verdade, mas não de todo, eu tenho uma espécie de obrigação comigo mesma. Não sei. Escrever me deixa mais leve. Não porque eu descarregue as coisas, mas porque fico num estado meio suspenso, meio além, quase flutuando - mas não em paz, sempre num tipo de fome esquisita, para a próxima frase, a próxima palavra, a próxima letra, o que eu quero dizer, o que eu não disse. Eu escrevo bem rápido. Acho que é por isso que prefiro o teclado ao lápis, porque a pressa é igual em ambos, mas a aparência do texto não se altera no primeiro caso. Quando fico quieta escrevo na mente. Penso em formato de narração. Vejo todas as pessoas do mundo como personagens, e me incluo aqui, sim, sempre. Às vezes tenho um choque de realidade desagradável, me olho no espelho e percebo que sou real, que, como diria a Lispector, sim, existo. Não é bom. Não sei se me agrada tanto essa história de existir. Quando estou escrevendo páro com freqüência, e olho para a tela ou o papel com aqueles olhos vidrados, as letras e as palavras se misturando na minha cabeça. Gosto mais de digitar porque posso bater forte no teclado e essa confusão vai aos poucos indo embora. Mas às vezes tenho medo de escrever. Quando escrevo algo de vez em quando parece que essa coisa vai embora. Às vezes não estou preparada para deixá-la ir. Fico anti-social quando escrevo, fico grossa, ignoro chamados no msn até terminar a frase em questão. Dá uma sensação de falta de ar, esse é o problema. Escrever me ajuda a respirar. Não é nem que faça bem, mas é o que eu sou, me deixa suspensa, em algum lugar no meio, como diz naquela música do Lifehouse e no título desse espaço. Passei a minha vida inteira vivendo nesse lugar. Não quero deixá-lo, não dá, mas ultimamente tenho estado real demais e isso dói. Preciso de um pouco de ausência, e por isso preciso escrever. Mesmo que não faça sentido. Mesmo que não fique bom. Só pra sentir os dedos se movendo, a sensação de suspensão me embalando de novo, pausa no que é real, existe uma maneira de deixar esse mundo sem morrer, sim. E gosto bastante do mundo, gosto bastante da vida e gosto bastante do que existe, mas essa maneira é minha, sou eu, é o que nunca vai permitir que eu me mate, é o que nunca me deixa nem cogitar a idéia, não importa o que acabe acontecendo. Ah, suspensão, flutuar, e cortar as amarras e esquecer por um bom tempo de tudo que me prende aqui. Somewhere in between, what is real and what is just a dream. Fazia tanto tempo que eu não tinha essa sensação, dá quase vontade de chorar. Senti falta dela.


terça-feira, 11 de maio de 2010

Share with someone

Ela me deu um sorriso. Acho que foi isso que me deu a certeza de que estava fazendo corretamente, mesmo antes de oferecer de fato. Eu gostei da mulher. Normalmente não gosto de contar livremente as coisas gentis que faço - não que sejam tantas assim -, mas gostei dela, esse é o caso. Ela merecia mais do que um pacote de biscoito, então decidi fazer um texto. A pele dela tinha cor de chocolate e era enrugada, quase de velha, uma velha nova demais. Tinha jeito de quem ia para casa - a sacola amarela nas mãos, o andar cansado e firme ao mesmo tempo. Tinha jeito de quem ia para casa, e espero que estivesse mesmo, e espero que não more sozinha. Prefiro pensar que tenha filhos, e prefiro que eles sejam crianças pequenas. Não por qualquer motivo importante, mas porque, quando eu era uma criança pequena, seria uma notícia legal ouvir da mãe que ela ganhou um pacote de biscoito de uma estranha na rua. Queria mesmo que houvessem crianças que crescessem acreditando que esse tipo de coisa acontece a qualquer hora, e o jeito como ela sorriu me deu a impressão de que seria uma boa mãe. Mas tudo bem se não for, biscoitos de waffle são bons de se comer sozinha. Ajudam a pensar. Espero que essa mulher tenha coisas boas em que pensar e, se não tiver, que o gosto de chocolate a distraia o suficiente para não fazê-lo. Eu tinha acabado de sair da escola, e quase não lhe entreguei o pacote, quase fiquei sem coragem no último momento. Foi uma sorte que estivéssemos vindo pelo mesmo caminho, porque só me decidi em frente ao meu prédio. Acho que o porteiro viu - ele me deu um "boa-tarde" especialmente animado quando entrei. Não importa. Tive que chamar três vezes para a moça ouvir. Acho que ela considerou simpático o jeito como eu falei, acho que gostou de ser chamada de "moça". Estava com medo de que tomasse como esmola - porque não era, definitivamente não era, embora tivesse sido comprado primeiramente como tal -, mas ela não se ofendeu. Não tinha jeito de quem se ofendia fácil, parecia o tipo de pessoa que teria enlouquecido se fosse assim. Ela me deu um sorriso. Foi quando entendi que aceitaria, porque existe gente que merece esse tipo de coisa, de ganhar chocolate de repente na rua, e ela me pareceu esse tipo de gente. De manhã eu tinha ficado chateada, por ter ouvido meu professor de física me chamar de mal-humorada, mas não importava, afinal, porque ela não concordaria. Pareceu me achar educada até demais. Espero que fosse o tipo de mulher que achava que não existiam mais pessoas jovens assim. Aquele tipo de pessoa boa e forte, mas que algum dia se perde, se fode, se mata e acaba caída numa cama mal feita por aí, e não há nem como culpá-la por isso. Fiquei feliz de tê-la encontrado antes - doces retardam essas coisas, às vezes até impedem. Por algum motivo, lembrei do senhor da caneta bic. Ela ficou tão surpresa quando a abordei. Aceitou o chocolate. Me deu um sorriso - e eu lhe sorri de volta.


terça-feira, 20 de abril de 2010

O que eu queria acrescentar

(Antes de mais nada: Não assisto BBB. Não acompanho, não vejo notícia, não voto no paredão, mal entendo todas as regras. Não é que eu odeie o programa, vejam bem. Acho a premissa estúpida e inútil? Acho. Mas até aí, dá pra contar nos dedos os programas da televisão brasileira que não são assim. Eu gosto de bastante coisa estúpida e inútil - quer dizer, pelo amor de Deus, eu gosto de Cilada. E rio vendo American Pie. Não é como se eu fosse um bom exemplo de controle de qualidade, então, não é como se eu condenasse que assiste BBB. Apenas não me interessa. Logo, naturalmente, não acompanhei nenhuma edição, incluindo essa última. Mas tenho algumas coisas a dizer a respeito dela, sim.)

Se você é no mínimo um pouco informado, já sabe até do que eu vou falar aqui - ou melhor, de quem eu vou reclamar. Mas respiram aliviados que esse não vai ser mais um post crucificando o Dourado - quer dizer, até vai, mas nem tanto. Tem outros muito melhores com esse assunto, já, e o BBB já terminou há tempo demais pra eu vir aqui atacar um participante. Não se preocupem, fãs. Tenho mais a intenção de usá-lo como exemplo do que criticá-lo diretamente.

Então. Como eu disse antes, não sei porra nenhuma de BBB, mas confesso que esse até que acompanhei direitinho, comparando com os outros, nos quais dava pra contar nos dedos de uma mão os participantes que eu conhecia. O fato é que, por conta da inclusão dos "coloridos" nessa edição, houve um tremendo escândalo na internet. Surgiu até um boato de que tinham selecionado um hermafrodita pra casa, e aí sim eu admito que fui procurar a respeito e descobri que como sempre era apenas mais um exagero de gente que não tem o que fazer. Mas a idéia de três homossexuais no programa, e ainda por cima um deles sendo travesti, me pareceu uma iniciativa boa da Globo, que pra mim é um canal que vive fazendo merda, mas acerta às vezes. Aí pensei em acompanhar o desenrolar da história pela internet, já que não tinha interesse em ver na íntegra. E... Gente.

Saudades da época em que Dourado era só um peixinho legal...

O lado interessante do BBB é que, acompanhando a torcida, dá pra ter uma boa idéia da mentalidade geral da população brasileira no momento. Porque, né, é um dos programas de maior alcance na nossa rede atualmente. E essa edição, em especial, me lembrou dum assunto que eu queria abordar há um tempão, mas não sabia direito como. Então o Dourado surgiu, e ele é o exemplo perfeito do tópico em questão, então vou usá-lo de tal modo.

Peguemos, primeiro, a Máfia Dourada. Aquele pessoal alcança um nível de fanatismo de dar inveja à uma fangirl de Crepúsculo. Mas por quê? O que o Dourado tem pra atrair tanta gente? Personalidade, talvez - muitos alegam que ele é um cara engraçado e autêntico. Mas, vendo os comentários dos fãs, a impressão que dá é que ele tá mais pra uma bandeira humana. Quando ouvi isso pela primeira vez, pensei que fosse pela óbvia homofobia que ele demonstra, e qual não foi a minha surpresa ao ouvir que, de jeito nenhum, o que o Dourado faz não é homofobia, é orgulho. Ele não é homofóbico, alega a torcida, ele é anti-heterofobia.

Mas hein? Sim, pessoal, anti-heterofobia. Que aparentemente é um problema de altíssimo nível da sociedade atual: Ninguém mais é hetero, acusa a Máfia. O mundo inteiro virou gay. Logo, o homem-classe média-branco-hetero, que antigamente teria sido o dominante, se tornou o oprimido. Eles são a atual minoria.

Acredite, eu também gostaria de saber.

O pior é que hoje em dia isso nem é mais um pensamento raro. Centenas de pessoas juram de pés juntos que coisas como homofobia, machismo e racismo não existem mais, imagina, é tudo delírio de alguns paranóicos. O que existe agora é o preconceito inverso. Nós, as pessoas brancas, somos os vilões. Eles, os homens, são os malvados. Eles, os heteros, são os cruéis. É uma visão bem atrasada e ingênua, mas na maioria das vezes é fruto de falta de informação, mesmo. E como argumentar contra isso? Bem, vamos por partes. Começando pela homofobia, e, claro, pelo Dourado.

Afinal, ele é ou não é homofóbico? Muita, mas muita gente tem certeza que não. Afinal, ele não bateu em nenhum dos gays da casa, bateu? Não ofendeu nenhum deles diretamente, ofendeu? Não teve nojo de ser tocado por nenhum, teve? E, além do mais, ele e o Serginho eram amigos. Bem. Para começar, ter um amigo gay não necessariamente significa que você não seja homofóbico. Você pode ser gay e ser homofóbico (lembram?). As ações do Dourado, nesse BBB, foram absolutamente condenáveis - por exemplo, ele declarou em rede nacional que homem hetero não pega AIDS. As pessoas dizem que isso é fruto de ignorância, não de preconceito. Olha, me desculpem, mas a minha experiência diz que os dois fatores andam de mãos dadas, praticamente sempre. E esse negócio de que a AIDS seria um câncer gay foi um obstáculo imenso que surgiu na época da descoberta da doença, mas, hoje em dia, um cara como o Dourado já teria condições de saber pelo menos o BÁSICO a respeito. Ou, se ele não soubesse, que ficasse calado, não abrisse a boca pra falar aquela estupidez sem tamanho (espero que a Globo não tenha deixado isso passar em branco, aliás, porque só me falta a parcela ignorante da população assistir e achar que o que o Mestre Dourado disse tá certo). Ele também disse que gays falando de sexo lhe tiravam o apetite, o que, além de grosso, foi totalmente desnecessário. Sem mencionar, é claro, sua expressão quando o Bial brincou com sobre a relação dele e do Dicesar. E ainda por cima foi mostrado depois falando que sairia do programa sem amigos, sem trabalho e sem moral.

Agora, aí vem a pergunta que não quer calar: Como um cara desses pode não ser considerado homofóbico? A homofobia não está no que você diz, gente, está nas suas ações. E eu NÃO LIGO se o Dourado é o santo encarnado, se ele treina criancinhas com síndrome de Down e o caralho a quatro. Como diria o meu querido Sirius Black, o mundo não é dividido entre os bons e os Comensais da Morte, Harry - e nem entre os homofóbicos e as pessoas legais. Como pessoa o Dourado pode ter infinitas qualidades que compensem a sua homofobia, sim, ele pode, mas eu não o conheço e tô pegando ele como exemplo aqui, então isso não me interessa. A questão não é se o Dourado é ou não é homofóbico: É óbvio que ele é. A questão é: Por que é tão difícil enxergar isso?

O problema é a falta de discernimento. A gente vê coisas como machismo, homofobia e racismo, hoje em dia, como atos extremos: Homofóbico é aquele que pega um gay aleatório e o espanca até a morte. Machista é aquele que acha que mulher não serve pra nada a não ser cozinhar e ter filho. Racista é aquele acha que os negros tem que ser escravizados novamente. Todas as pessoas que não fazem essas coisas (leia-se, a maioria), portanto, não seriam preconceituosas. Então sem problemas, elas estariam livres. "Ufa, ainda bem, não preciso rever minhas ações! Tô na boa, não quero matar ninguém, não sou desse tipo não... Ih, opa, tá vindo um preto do outro lado da rua, tá escuro, melhor mudar de calçada... E, ei, cara, tu tá com medo? Deixa de ser viado! Ah, não, é uma mulher, tá tranquilo então, mulher é bem mais tranquila do que homem, bem mais emocional... Sem problemas então!"

"Isso mesmo, meu filho, continue assim!"

Tem uma explicação pra isso, e ela é até boa, se você olhar de certo modo: Preconceito virou algo feio. É péssimo você tratar diferente uma pessoa por causa do sexo/da cor/da opção sexual dela, hoje em dia. Já falei antes e vou repetir: Ser preconceituoso é algo bem mais normal do que a maioria das pessoas pensa. E isso não é algo para se ter vergonha. A gente cresce, é criado e recebe toda hora milhões de influências de uma sociedade totalmente preconceituosa - nesse meio, é inevitável incorporar alguns conceitos. A solução é encontrá-los, controlá-los e, por fim, eliminá-los de vez. Eu ainda tenho muito preconceitos dos quais não consegui me livrar. Quando tenho raiva de um cara, por exemplo, a primeira ofensa que me vem na cabeça ainda é "veado". Mas tô tentando segurar isso na medida do possível, e é uma questão de tempo até eu conseguir. E é isso que a Máfia Dourada não quer ser obrigada a fazer. Eles querem liberdade para exercerem seus preconceitos, seus "direitos de não gostarem" de gays em paz. Porque mudar dá trabalho demais, sabe. É muito mais cômodo se convencer de que é a vítima.

Aí surge a heterofobia. Assim, sutil, sem que ninguém tivesse notado, os heterossexuais se tornaram a minoria. Enquanto estão adotando crianças sem serem taxados de pedófilos, se casando de maneira aprovada pela Igreja e pela lei, tendo liberdade para se agarrarem livremente e quase fazerem sexo no meio da rua, eles são os perseguidos. Tadinhos. E então, junto com a heterofobia, surge o chamado "orgulho hetero", do qual o Dourado já declarou textualmente compartilhar. E, de certa forma, a doutrina não é totalmente errada. Afinal, por que eu não poderia ter orgulho de ser branca? É a minha raça, né? O que faz um negro poder dizer que tem orgulho da raça dele e eu não? Sacanagem, né? Não é preconceito igual?

Minha resposta: Sim, é. Eu devia poder dizer que tenho orgulho de ser branca, assim como outro cara pode dizer que tem orgulho de ser negro. Mas a questão é que você não pode analisar as coisas assim, sem colocá-las no contexto da nossa sociedade. E aí vem o fato: Eu posso dizer que tenho orgulho de ser branca. O Dourado pode dizer que tem orgulho de ser hetero. Mas nem eu e nem ele precisamos disso. Aliás, se parar pra pensar bem, esse negócio de orgulho, hetero ou homo, é uma coisa estúpida. Digo, cara, é a sua sexualidade. É com quem você transa. Isso não tinha que interessar a ninguém. Ninguém tinha que se importar se você está orgulhoso ou não do fato de gostar só de homens, ou só de mulheres, ou dos dois. O problema é que, pra aplicar isso na vida real, a coisa não funciona assim. Não faz diferença se você tem ou não orgulho de ser hetero. Ninguém vai ter olhar estranho por ser hetero. Ninguém vai dizer que você está confuso por ser hetero. Ninguém vai dizer que você vai pro inferno por ser hetero. Inclusive, se você disser num círculo de heterossexuais que tem orgulho de ser hetero, a maioria deles vai dar de ombros e dizer "tantofas". É por isso que não faz sentido erguer a bandeira do orgulho hetero, ou branco, ou masculino: Porque não há o que combater.

É por isso que temos que pensar no contexto antes de condenar algo baseado apenas no bom senso. No meu mundinho cor-de-rosa, é claro que o orgulho gay seria algo desnecessário, porque não faria diferença nenhuma pra ninguém se a pessoa fosse gay em primeiro lugar. Mas na vida real não é assim. Os gays são uma minoria oprimida. Sim, ainda. Sim, por mais que tanta gente tente negar. Por isso que eu sou obrigada a dizer que tenho orgulho de ser bi, do contrário, como disse antes, não faria a menor diferença. Caguei pra heteressoxualidade do Dourado. Caguei pra heterossexualidade do Bial. Mas não caguei pra homossexualidade do Serginho e do Dicesar. Por quê? Porque eu sou uma preconceituosa invertida, uma paranóica estúpida? Não. Porque, pro Serginho, chegar pra família dele e dizer que "sou gay" levou coragem. Porque, pro Dicesar, assumir em rede nacional que era drag lhe garantiu milhões de ameaças virtuais. Porque, pra Angélica, beijar a pessoa que ela ama na rua será classificado como exibicionismo e exagero. Pro Dourado não. Pro Bial não. E, se há diferença no tratamento, tem que haver diferença na resposta. É isso que eu estou falando.

Mas, mesmo assim, vamos supor que alguém possa ser discriminado por ser hetero. Não gosto de generalizações, então, imagino que existam homossexuais que pensem assim, apesar de nunca ter conhecido nenhum. Então digamos que aquela lésbica da sua sala da faculdade tem tudo contra você por causa da sua heterossexualidade. Aí, um belo dia, contando uma história, você menciona a sua namorada, e ela dá uma risadinha maliciosa e solta uma piada cruel. Ela foi preconceituosa? Foi. Mas quem vai rir? Ela não é a única homossexual assumida da sua sala? Ah, sim, talvez aquele cara meio afeminado da fileira da esquerda dê uma risadinha. Mas aí você e o resto da turma, heteros, não poderiam simplesmente excluí-los de vez? Cadê a repressão aqui?

Mas, ok, vou ser generosa. Talvez se a predominância na sala fosse de gays a situação ocorresse de maneira diferente, mas quais seriam as chances de uma sala aleatória ter 90% dos alunos como homossexuais assumidos? O lugar teria que ser diferente. Teria que ser uma parada gay, ou uma boate gay, ou um evento de anime (não resisti, hahaha, sorry). Conheço milhões de heteros que vão nesses lugares livremente (até nos eventos! Ok, tá bom, eu paro) e não sofrem problema algum, mas suponhamos que possa ocorrer com alguém. Essa pessoa teria que estar num lugar deslocado do espaço dela normal. Ela teria que ter entrado num meio onde a homossexualidade é dominante, porque não é assim no seu dia-a-dia. Entendem? É só ver a diferença nos termos: Comunidade gay, sociedade hetero. O único lugar onde os homossexuais têm o poder são nos seus espaços fechados. No resto do tempo, eles são os oprimidos.

"Fê, tô com um problemão... Meu pai descobriu que eu tô pegando uma mulher e me expulsou de casa..."

Que merda, hein, cara. Não fica triste não, preconceito esses dias é foda mesmo.

Lógico que as reclamações variam. Peguemos o exemplo do meu professor de Biologia, que outro dia contou um caso pra classe de quando ele viajou com uns amigos e lá um pessoal sugeriu que eles fossem pra uma balada gay. Ele disse que não, mas o pessoal mesmo assim insistiu. Aí, nas palavras do próprio: "Hoje em dia, cês sabem, né, a gente é obrigado a gostar".

Eu sinceramente não vejo o sentido dessa afirmação. Falando por mim mesma, assim, não vejo sentido em obrigar alguém a gostar de gays. Odeio gente que idolatra homossexuais, vocês sabem. Eles - aliás, nós, porque se você fala de bissexualidade eu estou no meio - não têm que ser idolatrados, mas têm que ser respeitados e reconhecidos como vítimas atuais. Mas sabe o que é? As pessoas agem como se tratar homossexuais da mesma maneira como se tratam heteros seja ser "obrigado a gostar". Aí surgem idéias como "pode até ser gay, mas não precisa ser tão explícito!", ou "pode até ser gay, mas não precisa se tocar na rua!". E ninguém me convence de que isso não é homofobia. Ora, vejamos o caso do meu professor. Se ele tivesse cedido às sugestões do povo que o acompanhava e ido à tal boate gay, o que poderia ter acontecido? Uma múltipla escolha para homenagear a profissão do analisado:

a) Ele poderia ter achado a noite legal e se divertido.

b) Ele poderia ter achado a noite uma merda e morrido de tédio.

c) Ele poderia ter sido confundido com um gay, levado cantadas, recusado-as educadamente e mesmo assim achado a noite legal e se divertido.

d) Ele poderia ter sido confundido com um gay, levado cantadas, recusado-as educadamente e mesmo assim ter achado a festa um saco.

e) Ele poderia ter sido confundido com um gay, levado cantadas, ficado ofendidíssimo e achado a noite uma merda por causa disso.

Claro que haveriam outras possibilidades, como a boate pegar fogo e meu professor morrer, ou alguém colocar um boa-noite-Cinderela na bebida dele e no dia seguinte ele acordar numa banheira sem um rim, mas vamos nos ater à essas cinco. Alguém duvida que o que o apavorava era a opção "e"? Porque, né, a pior coisa que pode acontecer com um cara que entra numa boate para gays é ser confundido com um. Ok, posso até entender que, se o objetivo do meu professor para aquela noite fosse pegar mulher, não seria exatamente o lugar ideal (se bem que, como eu disse, tem muito hetero que freqüenta boates gays, principalmente mulheres). Mas, se a idéia era simplesmente relaxar e se divertir, qual o problema? Bem, porque, claro, a imagem de machão é mais importante do que isso. É mais necessária. Mas outro dia eu falo dessa necessidade imposta aos homens de serem viris, hoje o assunto é outro.

Voltando ao Dourado, de novo, e com sorte essa é a última vez que o menciono, porque tô querendo encerrar o texto logo: Muita gente argumenta que há uma perseguição em cima dele que é injusta. E, de certa forma, é verdade. Ele não era o único preconceituoso desse BBB. Aquela Fernanda (é impressionante como na mídia só tem Fernanda escrota, cara, não tem uma que se salve) era homofóbica e racista, de quebra. Então, por que a marcação com o Dourado? Por que eu não usei a minha xará de exemplo, aqui, ao invés dele? A resposta é que, se não havia igual perseguição a nenhum outro candidato, também não havia semelhante fama. Apesar de ser tão polêmico e ter agredido uma parcela significativa da população durante a edição, o Dourado conquistou uma legião de fãs assustadora, como o Alemão, o Max Porto e outros antes dele que eram do mesmo estilo (no sentido de ser machão e engraçado, não necessariamente homofóbico. Apesar de eu achar o Alemão um estúpido). O que significa que esse país ainda não tem olhos preparados para reconhecer, efetivamente, o pior tipo de preconceito - aquele que preferimos fingir que não existe, tratar como natural, e que acaba dando origem aos maiores, os assustadores, os "verdadeiramente condenáveis". Uma pessoa não precisa ser espancada para sentir que está sendo agredida. Ela não precisar ser expulsa de casa para sentir que a família não a aprova. E, sim, ela não precisa ouvir alguém dizer que a despreza pelo que é, quando isso é perceptível com um olhar.

E, pra encerrar, só preciso dizer que é necessário entender que se trata de um problema de dimensão bem maior. Eu não ligo pro indíviduo Marcelo Dourado ter ganhado um milhão de reais. Eu ligo pro nosso país, onde um homossexual é assassinado a cada dois dias, um país que acabou de ganhar a adorável posição de mais homofóbico do mundo, e onde a maioria das pessoas parece pensar que está tudo bem desrespeitar os outros se for essa a sua opinião. Não está. Não é tão simples assim, Máfia. Ou, pelo menos, não deveria ser.

sábado, 3 de abril de 2010

Identificação, quem curte


Vontade de conhecer anônimos só pra dizer eu te entendo nem é algo que sinto com freqüência.

sábado, 27 de março de 2010

Cherchez la femme

Era uma garota bonita. Sim, era, sem dúvida, daquela beleza quase artificial, do cabelo tingido de negro e dos lábios excessivamente maquiados. Daquela beleza que você sabe ser falsa, mas mesmo assim torce para ser real. E usava esmalte. Esmalte vermelho, descascado, colorindo parte das unhas roídas. Gostava de vermelho. E gostava de suas mãos, também – pôs vermelho nas unhas porque gostava delas. Era bonita e sabia disso. Gostava de seus cabelos, de sua boca, dos seus olhos e da sua pele. Não gostava do meio de suas pernas. Era uma garota bonita no jeito de falar, de mexer os cabelos e de morder os lábios. No meio de suas pernas não era nem uma garota. E, ainda assim, roía o esmalte. Esmalte vermelho é sinal de confiança, mas roer as unhas significa ansiedade. As pessoas não diriam que ela era ansiosa. Ser ansiosa significa estar esperando por algo.

Que será que ela esperava?

O esmalte deveria saber. O esmalte, descascado, despedaçado, sujando seus dentes tão bonitos. Que será que a fazia roer as unhas? Que será que a fez pintá-las? Gostava de vermelho, porque lhe lembrava as rosas – algum dia o odiaria, porque lhe lembraria o sangue. Mas quais seriam as lembranças dela? Acho que não tinha. Talvez algum dia tivesse tido, mas fizera questão de destruí-las com o tempo.

E nome? Será que tinha? Não me refiro ao primeiro – não ao das certidões e dos documentos bem guardados, que lhe deram sem lhe perguntarem, que há muito ela havia abandonado. Mas ao que escolhera, o verdadeiro. Devia ter nome de jóia. Esmeralda, Safira, Ametista, Cristal. Opala. Sim, devia ser Opala. Não tinha dinheiro para jóias, então o remédio era ser uma. E Opala é um nome bonito, um nome que ninguém tem. Então seria o dela, e as outras de sua espécie (aquelas que também são aberrações no meio das pernas) achariam engraçado, meio bobo, meio arrogante. Mas Opala era arrogante.

Opala não gostava de falar alto, nem de fazer escândalo. Ela usava aquelas sainhas escuras, cheias de babados, de fivelas, de fitas e zíperes. Os homens que gostavam de aberrações gostavam dela. Opala era mais nova do que a maioria – não o suficiente para ser um crime, mas o bastante para ser errado. Era tão, tão bonita. Era bonita o tempo todo, até quando se ajoelhava e tinha que gritar bem alto, ou então gemer bem baixo, ou então passar a língua depressa entre os dentes sujos de esmalte, com algo bem mais sujo no meio deles, que ela tinha que envolver e tocar com os lábios rosados. Opala tinha os lábios rosados e cheios, mas mesmo assim os pintava, o que os deixava meio feios, parecidos com os de um palhaço. Mas Opala não era um palhaço. Não. Opala era uma garota.

Opala um dia tinha sido Pedro. Que nojo, Opala, que nojo. Ela mesma sentia nojo quando era menor – depois passou a achar que nojo era coisa de gente fraca. Coisa de gente fraca e fresca, e ela não estava em posição para ser nenhuma das duas. Mas roía as unhas. Por que roía se era tão forte? Se entendia do mundo tão mais do que muita gente prefere nunca entender? Roer as unhas era sinal de medo. Medo de quê? Que será que a desesperava tanto?

Às vezes tinha hematomas. Não eram nada anormais, para a espécie dela, essa espécie de garotas que tem que apanhar por serem belas demais. E Opala era a mais bela de todas, e portanto apanhava como tal. Um dia ganhou uma cicatriz de um corte no pescoço, e teve que agradecer por isso – agradecer ajoelhada. Não se importava, não chorava, só descascava o esmalte. As pessoas odeiam aberrações. As pessoas jamais diriam que era uma delas, mas eventualmente descobriam, e os resultados variavam. Só chorou nas primeiras vezes, mas teve medo em todas. Ela não acreditava em deus, mas nessas horas rezava – no início para não ter que se ajoelhar, com o tempo apenas para ser capaz de levantar depois. Opala não queria morrer. Não acreditava em deus, mas tinha medo de ir pro inferno. Sua única saída era continuar viva.

Temia a morte.

Temia como nenhum outro dos horrores que havia visto, e havia visto muita coisa. Nem todas eram terríveis, entretanto. Havia o bastante para que se satisfizesse às vezes. O suficiente para ela.

Acho que uma vez Opala se apaixonou. Só uma vez, acredito, mas é apenas um palpite, posso estar me enganando. Acho que foi por um cara mais velho. Não mais velho de uns quarenta anos, mais velho de uns sessenta. Mais velho e mais feio. Ele levava-a para um hotel e a tratava como uma dama. Achava que Opala era um nome bonito. Tinha dinheiro para comprar várias delas, e ainda assim a preferia, talvez porque uma jóia que se acha na calçada tem mais valor do que uma adquirida nas lojas. As suas mãos eram enrugadas e ele a pedia para fazer a coisa toda bem devagar, e ela fazia, e não achava nem muito bom nem muito ruim, e ele lhe dizia que era linda. Linda. Ela era mesmo. Não sei por que o amou. Talvez fosse porque dizia não acreditar em amor, mas no fundo todos precisam acreditar um pouco e com o velho não haveria problemas se assim o fizesse. Ou talvez não. Talvez porque o velho lhe deu um colar com uma de suas irmãs como pingente, e ela nunca mais o tirou, e ele refletia todas as cores do arco-íris. Talvez porque ele sorria mais do que a maioria dos homens que a chamava. Era um velho com gosto por aberrações. Era um velho que às vezes a fazia rir.

Não sei por que o amou. Mas sei porque chorou quando ele foi embora: Porque ele chegou ao ponto de vir despedir-se. Não se ofereceu para levá-la e nem Opala lhe pediu que o fizesse – não sei o porquê disso também. Ele uma vez lhe dissera para parar de roer as unhas. Ela nunca parou.

Tinha gosto de rosas.

Toda menina sonha em ser uma rosa – toda menina devia sonhar em ser uma Opala. Opala, Opala, Opala. Opala tinha o nome tão bonito e os olhos tão lindos, e às vezes era preciso simplesmente ignorá-la por isso, por pura necessidade. Opala e suas lágrimas nunca derramadas. Opala e seus hematomas escondidos, Opala e seu pingente, Opala e seu esmalte descascado. Ela morreu um dia. E no inferno teria unhas compridas e finas, e elas teriam aquele vermelho forte de seu sangue, que boca nenhuma era capaz de roer.

sexta-feira, 19 de março de 2010

Dez fatos

Roubei de um post antiquíssimo da Pam.

1. Eu sempre me distraio enquanto o professor vai fazendo a chamada - fico lendo, ou conversando, ou às vezes simplesmente viajando em pensamentos mesmo. Como resultado, sempre que chega no meu nome, levo um susto achando que ele quer falar comigo e, em vez de "presente", pergunto: "que foi?!".

2. Me sinto terrivelmente grossa quando recuso os folhetos que as pessoas ficam distribuindo na rua, principalmente se elas falarem comigo. Na maioria das vezes, pego mesmo que não me interesse e guardo no bolso, só para não ter que ignorar.

3. Sou viciada em suco de maracujá. Assim, terrivelmente. Tenho sempre uma jarra na geladeira, peço sempre na cantina, peço em TODOS os restaurantes. Bebo mais suco de maracujá do que água.

4. Sempre que alguém faz um comentário do estilo "essa é para as meninas", ou "as meninas vão saber isso melhor", eu fico um pouco chateada. Não por causa de sexismo nem nada do gênero, mas porque, invariavelmente, quando alguém diz que "as meninas vão entender", eu não entendo. E isso me faz sentir mal.

5. Eu não faço as unhas. Já fiz, mas, atualmente, o máximo que faço é mantê-las curtinhas e limpas. Nem é porque cheiro de esmalte me enjoa, mas é porque realmente não acho bonito.

6. Eu fico muito, muito feliz quando alguém que não conheço e de quem nunca ouvi falar aparece no blog para comentar e dizer que gostou. Não que os comentários de gente conhecida não tenham valor, mas é que... Ah, é diferente. Fico bobamente alegre, ainda que não demonstre, porque nunca sei como responder os comentários. Mas que fique registrado que eu adoro.


7. Não sei qual é o código do teclado que faz esse coraçãozinho. Eu só copio e colo quando quero usar.

8. Oitenta por cento das coisas que as pessoas me contam que fizeram achando "OMG FODAS" normalmente são coisas que eu acho terrivelmente desnecessárias e estúpidas. Não que eu nunca faça merda na vida, mas acho que fazer de propósito, e ainda sabendo perfeitamente que vai acabar magoando alguém, não somente não é foda como é coisa de primeira série.

9. Quando não tenho o que fazer na internet, normalmente vou ler as críticas do Pablo Villaça, no Cinema em Cena. Não entendo de cinema e discordo dele setenta por cento das vezes, mas gosto do jeito como ele escreve.

10. Levei mais de um dia para elaborar essa lista. É muito mais difícil falar sobre você se algo de fato te pede para fazer isso.

sábado, 6 de março de 2010

Maybe I just want to breathe

Eu estava lendo Nana esses dias, e tem aquela cena em que ela pergunta à Hachi se, se o fim chegasse agora, ela estava vivendo sua vida de forma a não ter nenhum arrependimento. E é uma cena bonita, de verdade, eu sempre acho bonitas as cenas que mostram como elas se amam, mas não sei por que me incomodou. Todo mundo sempre diz que a gente tem que viver se forma a não ter nenhum arrependimento, viver como se todo dia fosse o último. Parece verdadeiro e belo, mas não sei bem como se aplica à realidade.

Quer dizer. Não acho que algum dia eu fosse conseguir algo assim. Se eu morresse amanhã, ou mesmo agora, digitando esse texto pra vocês, guardaria uma dezena de arrependimentos, uma porção de coisas que eu ainda queria fazer. Mas não é o caso de largar tudo que estou fazendo e ir realizá-las, simplesmente. Algumas dessas coisas não estão viáveis no momento por, sei lá, a minha idade. Outras não são do tipo que você pode chegar e realizar em um dia. E ainda há algumas - muitas, na verdade - que eu apenas não acho certo realizar agora.

Mas as pessoas continuam falando de arrependimentos. De viver cada dia como se fosse o último. Eu não faço a menor idéia de como iria querer viver o meu último dia. Rodeada de pessoas que eu amo, sim, talvez, mas é gente demais para reunir num único lugar. E, mesmo sem contar as que eu amo, tem pessoas que eu simplesmente gostaria de falar antes de ir embora. Essas são ainda mais difíceis de conseguir, e talvez seja por isso que eu não entendo essa idéia de morrer.

Eu nunca vou morrer sem arrependimentos. Nunca vou morrer tendo feito tudo que queria. Morrer assim me parece o equivalente a já estar morto, a reconhecer que não há nada mais que você deseja da vida, e eu não sei se vou chegar a esse ponto. André Gide escreveu: "Dai-me a felicidade de não esperar a morte para morrer", e acho que concordo. Dai-me a felicidade de morrer após ter vivido muito e realizado diversas idéias e planos, mas ainda ter vários outros e querer viver muito mais. Dai-me a felicidade de morrer rindo e pensando no dia seguinte que nunca virá. Dai-me a felicidade de morrer viva.

Todo mundo diz que o incrível é chegar ao topo, mas, se possível, gostaria de viver subindo.

Gostaria de morrer em paz, acreditando que ainda tenho mais milhares e milhares de anos de vida.

Todo mundo quer um final bonito. Todo mundo quer um final comovente. Todo mundo quer um final feliz. E acho que aí reside o meu problema e maior discordância com o resto da humanidade: Eu não quero um final.


quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

You gotta dig a little deeper

Acharam engraçado quando comentei que veria. A verdade é que até eu mesma estava em dúvida. Já faziam tantos anos, e tanta coisa mudou nesse meio tempo. Tive medo de não ser como antes. Das minhas novas opiniões e ideologias tornarem impossível que eu gostasse. Ver seria como destruir uma boa parte dos momentos bons que tive quando menor - mas não ver seria como trair um velho amigo. Então eu vi. Fazia tanto tempo que eu não entrava num mundo desses - vocês sabem, com animais falantes, cenários coloridos e pessoas cantando músicas bonitas do nada. Tem coisas novas, também, como um príncipe que não tem nada de encantado e uma princesa cujo lema de vida é trabalhar duro. Mas leva aqueles lemas básicos, aquelas mensagens de seguir seus sonhos, de ser você mesmo e amar o máximo que puder. Aquelas bobagens que todo mundo diz que estão batidas, mas que no fundo todos nós precisávamos ouvir mais vezes. E uma velhinha simpática e excêntrica, um jacaré que toca trompete, um vilão estiloso e um vagalume meio louco que acredita em coisas que parecem absurdas. Evangeline. Luzes, cores, músicas, risadas, quase-lágrimas, amizade, amor, sonhos. E o momento em que os créditos finais aparecem na tela e me fazem entender, sempre, que isso ainda não mudou. Ainda faz sentido. Ainda é mágico.


Não importa o quanto eu cresça mesmo, a Disney nunca vai me decepcionar.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Stephanie Navarro Diniz

Acho que eu nunca vou conseguir chamá-la pelo primeiro nome inteiro. Não que eu ache que não combine nem nada do gênero, mas é que pra mim ela vai ser sempre a Teka, mesmo. Teka do orkut, no início, do tópico de internet, e depois só Teka. Teka de brisar, de desabafar, de xingar Crepúsculo, de comentar HP, de comentar Friends, de brincar no projeto. Teka dos textos bonitos e das fotos ainda mais. Teka de ouvir, de falar, de brigar. De rir - de rir pra caralho. De uma profundidade tão grande e indescritível. De chorar, de fazer vídeos, de enviar emoticons engraçados uma para outra. Teka de sorriso meio de criança, meio dela. De ver filmes da Disney e fazer um álbum só pra eles. De escrever sobre árvores de natal. Tem tanta coisa que eu poderia dizer sobre Teka - Teka de tantas coisas. Teka de amor, no final das contas, todo que ela tem e todo que eu sinto por ela.

Acho que ela não entende que, no fim das contas, eu não conseguiria esquecê-la mesmo se quisesse.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Dentro da minoria

Vi um filme esses dias que eu estava evitando há um tempão. Sabe aquele tipo de filme que você quer ver, sabe que vai acabar vendo algum dia e sabe que vai adorar, mas fica adiando porque a história parece tão triste que você tem medo de entrar em depressão? Pois é, assim mesmo. No meu caso, foi um chamado "Meninos Não Choram". É relativamente conhecido, mas vou dar o resumo assim mesmo, pro caso de alguém não ter ouvido falar: Brandon Teena, transexual feminino (a.k.a. homem que nasceu mulher), se muda para Falls City, uma cidade pequena e isolada, onde só se se identifica como homem. Ele se adapta perfeitamente ao lugar, arruma amigos, faz sucesso com as garotas e arranja até uma namorada, Lana Tisdel. Em resumo, tudo dá certo até que, por conta de um problema com a polícia, seu segredo é revelado - o que desencadeia uma onda de violência contra Brandon.

Eu não recomendaria o filme, na verdade, pelo menos não para qualquer um. Além de ter umas cenas fortes pra caralho (no sentido de violência e de sexo) e ser uma das coisas mais tristes que eu já assisti, é uma história REAL, ou seja, mais depressivo ainda. Anyway, esse post não é uma resenha, apesar conter várias referências a história. Não é aí que eu quero chegar.

Brandon e Lana.

(Parêntese necessário: Vocês vão reparar que, ao falar de Brandon, vou usar sempre o masculino. Mas que ninguém se engane: Apesar de ter intenção, no filme, Brandon não chega a fazer, de fato, uma operação de mudança de sexo. Mas era como homem que ele se identificava, se dizia e se sentia, então é assim que vou tratá-lo - acho que se sentir de certa forma psicologicamente é muito mais relevante do que o fato de ter um pênis ou não. De qualquer modo, ele não tinha.)

O caso é que o filme me levou a refletir a respeito disso, da condição dos transgêneros em geral. Quer dizer, a maioria de nós já está familiarizado com o preconceito contra os homossexuais. Apesar de ainda sofrerem bastante (principalmente com relação ao preconceito mascarado) e ainda terem significativamente menos direitos em comparação aos heterossexuais, eles já conquistaram um relativo espaço na sociedade. Mas
e os outros? E quanto aos travestis, os transexuais, os bis, os hermafroditas? Eles são minoria dentro da minoria! Há casos de discriminação contra essa parcela da comunidade GLS pela própria comunidade. Fora dela, então, eles não existem. Travestis são bichas; transexuais e hermafroditas, aberrações; e bissexuais não existem de verdade, são todos gays com medo de assumir. Ou heteros que seguem a modinha.

Sei que é errado classificar níveis de sofrimento, como se isso significasse alguma coisa, mas não posso deixar de pensar que, desses exemplos que eu citei (que são só
algumas minorias e nem de longe englobam toda a diversidade sexual que existe no mundo), os mais martirinizados são, realmente, os transexuais. Pelo simples motivo que ser um trans, por si só, já traz sofrimento. Não por ser "errado" ou um "problema", mas pelo fato de que... Imagine viver num corpo que você não acha que é o seu. Não estou falando de odiar o seu físico, e sim de simplesmente não se identificar com ele. Eu não consigo nem imaginar como deve ser. Quer dizer, quando vou tomar banho e tiro a roupa e me olho no espelho, posso encontrar milhões de imperfeições que me desagradem, mas eu sei que aquele corpo é meu. Sou eu. Agora imagine olhar no espelho e sentir que aquele reflexo não é você. Não você numa visão desagradável, nem você num momento ruim, simplesmente não é você. Aquele corpo não é seu. O que está fazendo com ele, você não sabe. Só sabe que definitivamente não é você. Não é que você tenha algo contra esse tipo de corpo, ou problemas de auto-estima, é só que... Não é. Imagine viver com isso. E ainda ser discriminado por tal, como se a culpa fosse sua. E por quê? Porque é esquisito. Porque não é considerado normal. Porque - e isso se aplica a todas as minorias citadas aqui - não é rotulável.

Essa junção ainda assusta tanta gente...

No final das contas, é isso. Tudo acaba resultando no problema dos rótulos. É incrível como essa mania de diferenciar e colocar tudo em potinhos distintos acaba sendo a causa de praticamente todos os problemas existentes na sociedade humana. É
tudo causado pela maldita necessidade de designar papéis. Isso tem a ver com machismo e sexismo, também. Explica-se: Ao estabelecer um modelo de comportamento masculino e um feminino, colocando homens de um lado e mulheres do outro, houve uma divisão na humanidade: Feminino e masculino, Vênus e Marte, amor e sexo, rosa e azul, etc - e, é claro, homem por cima e mulher por baixo, em todos os sentidos.

Os homossexuais foram os primeiro a abalarem essa divisão, e é por isso que eles são atacados até hoje: Por balançarem os rótulos. Afinal, a idéia principal era que homens e mulheres foram feitos para se encaixarem, e é por isso que eles seriam tão opostos. A partir do momento em que você aceita que um homem pode se encaixar com outro homem e vice-versa, da parte de uma mulher, então essas diferenças não teriam razão de ser, e seríamos obrigados a reconhecer que - gasp! - cada ser humano é composto de um universo totalmente diverso e contraditório de opiniões, sentimentos e preferências.

Mas, puta merda, isso dá muito trabalho! Então, o que fazer? Mais rótulos. E aí surgiram, junto com os homossexuais, as
bichas. Os "viadinhos", os "afeminados". Eles são um problema para essa divisão de gêneros. Afinal de contas, são - horror dos horrores - homens com características (que a sociedade determinou que são) de mulher. O mesmo se aplica às lésbicas "masculinizadas". Então, o que a sociedade patriarcal (mas esperta) fez? Diminuiu somente a eles. Ou seja, tudo bem que um homem gostar de homens, contanto que ele ainda seja "masculino" - contanto que ele não deixe de desempenhar seu papel. As "bichas" só são inferiores porque possuem características femininas. São homens abrindo mão de sua posição de dominantes, e a partir daí eles perdem seus direitos. É só olhar ao redor. Já cansei de ouvir que "o problema não é o cara ser gay, e sim ser uma diva. Aí eu não gosto", ou "tudo bem ser lésbica, mas não precisa deixar de ser feminina!". E o que me dizem de manisfestações homossexuais como essa? O que eu falei sobre ser discriminado dentro da própria comunidade? Pois é.

Na verdade, eu não sei bem o que classificaria um cara como bicha. Podem pensar que é óbvio, mas, quando você pára para aplicar a teoria ao mundo real, você acaba percebendo que não. Tenho um amigo (hetero) que é bastante educado e fino, além de ter uma aparência ligeiramente andrógina. Segundo certas visões, ele é uma bichona. Por outro lado, tenho outro amigo que, além de grosseiro várias vezes, também é totalmente homofóbico. Mas, quando fomos ver um filme de terror há um tempo atrás, ele ficou tremendo de medo e de olhos fechados o tempo todo, enquanto eu, que sou menina, não tive temor algum. Ora, isso não o faria um "viadinho"?

E é aí que os travestis entram. Eles são o suprassumo da viadagem, na visão dos machões. Eles também são o pesadelo de qualquer visão atrasada - porque são homens, mas se vestem como mulheres, e mesmo assim não têm a intenção de deixarem de ser homens (nem todos pretendem fazer a operação). Aí confunde tudo. E confunde ainda mais se você pensar que, na verdade,
nem todos eles são homossexuais (confusão que também se aplica aos trans). Opa, e os caras que os procuram, hein? Esses são um problema maior ainda, porque normalmente não tem "jeito de bicha". Às vezes são casados. Às vezes nem gostam de homens que não estão travestidos! Então o que eles são? Heteros? Bis? Drag-sexuais? Ah, e se um cara hetero pegar um travesti sem querer, achando que é mulher? Ele é gay? Ai, que dor de cabeça! Melhor dizer logo que estão todos errados e pronto.

No fundo, é isso mesmo que prejudica mais essas minorias: Essa suposta
indefinição, esse pavor que elas inspiram por não serem completamente compreensíveis. Isso é mostrado com clareza no filme, através de uma cena em que Lonny, primo de Brandon, o confronta. Ele é homossexual, aparentemente (o filme deixa em aberto), e exige que Brandon que assuma como lésbica. Mas Brandon diz que não vai se assumir porque não é lésbica. E Lonny não entende quando ele diz isso - ele é incapaz de entender que Brandon não pode ser lésbica porque é um homem. Ponto. E às vezes isso nem tem caráter sexual. Num outro filme, "Melhor que Chocolate" (que eu nunca vi, mas pretendo), há um transexual masculino, a Judy. Ela exerce sua transexualidade com orgulho durante toda a história. E se apaixona por uma mulher. Esquisito, né? Na verdade, não. Porque, quando você pára para pensar, "identidade" e "preferência sexual" não poderiam ser termos mais diferentes um do outro. Não é uma questão do que você gosta, e sim do que você é. Mas isso assusta ainda mais as pessoas.

Porta de banheiro especial para transexuais - separar e definir, é isso que a humanidade faz.

E essa exigência de definição não é só com relação aos trans. Puxando a brasa pro meu lado, qual bissexual nunca ouviu que sua preferência não é realmente verdadeira? Que só estava "confuso", que era só "uma fase"? As pessoas COBRAM esse tipo de definição. Segundo alguns, eu não POSSO gostar de meninos e meninas, eu tenho que escolher um. Do contrário, estou em cima do muro. Sou lésbica e não tenho coragem de me assumir, acusa a comunidade GLS. Sou hetero e estou seguindo a modinha e ofendendo os homossexuais de verdade, acusa o resto da sociedade. Não tô exagerando, procurem por aí! Enquanto o debate sobre a homossexualidade consiste basicamente no "é certo ou errado", o debate sobre a bissexualidade ainda é "existe?". E tem gente (muita gente) que acredita piamente que não. Eu sei que tem pessoas que me conhecem que não compram a idéia de que eu seja bissexual. Sou pessoas que não acreditam nas minhas palavras sobre mim. Eu, que me conheço desde que nasci. Que convivo comigo mesma vinte e quatro horas por dia. Eu posso saber que gosto de chocolate e maracujá, de livros e animes, mas não de homens e mulheres. Aí estou enganando a mim mesma.

É daí que surge o estereótipo de que "bissexual = tarado obcecado por sexo". Honestamente, não tenho nada contra gente que saia pegando tudo que respire, mas é chato ver que, em milhões de filmes, séries, livros, animes e whatever, praticamente todos os bissexuais assumidos que você encontra são assim. Aliás, já é raro achar um personagem que se auto-denomine bissexual - o que ocorre normalmente é a pessoa ter "experiências" com o outro lado, e, mesmo que elas sejam prazerosas, continuar se declarando hetero (não me perguntem qual é a lógica disso). Os que literalmente se declaram bis, além de serem raríssimos, entram no estereótipo. E, veja bem, não estou dizendo que não existam bis que sejam assim, só que... Sei lá, às vezes eu queria ver um personagem bi que fosse normal, só pra variar.

Isso se aplica a todos, na verdade: As pessoas não pensam em bissexuais, trans ou travestis como gente com que você cruza na rua, senta ao lado no ônibus ou pergunta que horas são. E, sei lá, depois de ver "Meninos Não Choram", por exemplo, muita gente vai achar um absurdo todo o preconceito e tal, mas sabem... No filme e na vida real, quando Lana descobriu a verdadeira identidade de Brandon, ela ficou do lado dele. Mas quantos teriam realmente feito isso? Imagina você, garota perfeitamente normal, hetero e saudável, que se apaixona por um cara, fica com ele, namora e de repente descobre que o seu querido amor é, na verdade,
outra garota? Tu reagiria pacificamente? Ou tu ficaria assustada, amendrontada, confusa a respeito da sua própria sexualidade? Não seria provável que você acabasse sendo grossa e estúpida sem querer? Claro que seria. E isso nem é inteiramente sua culpa - tem a ver com a visão que a sociedade ensinou, a manipulação da mídia, enfim, essas coisas das quais eu já falei. A gente simplesmente não pensa nesse tipo de ser humano como uma pessoa que pode estar do nosso lado.

Aliás, a gente não pensa nem como ser humano. É só ver o exemp
lo dos travestis. Quando a gente pensa em travestis, vem aquela imagem caricaturada, escrachada, meio engraçada, até. E não é nem que essa imagem seja totalmente errada. É só que não é a única. Quer dizer, pensa nos travestis que você vê retratados na mídia. Eles são aquelas divas, aqueles cheios de glamour, aqueles seres alegres que exalam purpurina por onde passam. Você nunca vê um travesti envolvido em algum problema emocional. Você nunca vê retratado o fato de que eles são provavelmente a parte da comunidade GLS que mais sofre com crimes de ódio. Você nunca vê um travesti apaixonado, ou chorando, ou com raiva (a não ser que seja pra dar um piti de perua e todo mundo achar engraçado). Quando um travesti sofre violência, o que é incrivelmente freqüente, é raro ele reportar à polícia, porque em boa parte das vezes os policiais prosseguem com a humilhação. Mas isso quase nunca é mostrado. O autor simplesmente inclui um personagem traveco e divertidinho na história, pra poder que não tem preconceito. Falta humanização. Essa é a chave.

Achei essa foto tão bonita... É raro ver esse tipo de retratação.

É provável que algumas pessoas não entendam aonde eu quero chegar com isso. Afinal, tirando a bissexualidade, eu não tenho nenhum vínculo (que eu saiba) com travestis ou transexuais. Mas é que o buraco é mais embaixo, mesmo. Toda essa discriminação é fruto de medo. Medo e ignorância. E da necessidade de rotular, claro. Que é causada por medo. Enfim, é um ciclo contínuo. E falta reflexão sobre isso, de todas as partes. Porque, quando você pára pra pensar, a questão é que a sexualidade e os sentimentos humanos são tão complexos, tão cheio de poréns e entretantos, que simplesmente não vale a pena tentar compreender e nomear a todos. Eu podia citar tantos exemplos que deixam os nossos rótulos numa sinuca, e que confundem a cabeça de qualquer um que tenha eles aferrados na mente. Duvidam? Vamos lá:

Tanto no filme como na vida real, Lana era apaixonada por Brandon. Isso fazia dela lésbica? Ela se sentia atraída por Brandon sem saber que ele tinha corpo de mulher, verdade, mas o fato é que ele tinha. Mas psicologicamente ele se dizia homem. Se bem que, quando se trata de sexualidade, o que importa não é o físico? Por que então temos tantos psicólogos estudando a questão? Baseado nisso, Lana Tisdel era ou não era lésbica? E outra: Se por acaso Brandon fosse lésbica, e se identificasse como mulher, e Lana se apaixonasse por ele, ela não seria hetero, né? Mas e se, depois que Brandon morresse, ela nunca tornasse a sentir atração ou amor por nenhuma outra mulher? Aí ela voltaria a ser hetero e só teria tido uma experiência? Mas, se Brandon tivesse vivido, então ela teria ficado com ele, isso a faria lésbica? Mas aí isso teria sido determinado pela situação, e sexualidade não é algo com que você nasce? Aliás: E se Brandon se identificasse como homem mas agisse de maneira afeminada, se transformando numa "bicha"? Isso ainda o manteria como transexual? Homens com comportamento e jeito de mulher poderiam ser considerados homens? E se uma bicha se apaixonasse por uma mulher, e mesmo não quisesse abstrair de seu jeito de ser? E se a mulher gostasse dele mesmo assim? Essa mulher seria lésbica por gostar de alguém feminino? Ou talvez bissexual? Isso também se aplicaria às garotas que gostam de caras andróginos? E um cara que namorasse uma tomboy, poderia ser considerado meio gay? Ou hetero, porque afinal de contas ainda namoraria uma garota? Então uma mulher que gostasse de um travesti também não seria hetero? O que é, o que é, o que é?

São pessoas.

Que gostam de outras pessoas.

Se todo mundo entendesse as soluções de todos os enigmas trincados com relação à sexualidade são
simples assim, seria infinitamente mais fácil. Mas o que é que eu sei, né? Sou indefinida, afinal, sou muito confusa. Tô falando de cima do muro. E não pretendo descer tão cedo.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Lama

Ele entrou no ônibus quanto tínhamos parado no sinal. “Passa na Tijuca?” ; “Passa”. Pagou a entrada em várias moedinhas de dez, e recebeu um olhar mal-humorado do cobrador. As moedas tilintaram quando ele as soltou da mão.

Tinham vários lugares vagos, mas se sentou do meu lado.

Pensei vagamente em assalto, mas não cheguei a me preocupar. Era um moleque baixote e magricela demais pra meter medo em alguém. Mesmo assim, me remexi desconfortavelmente no banco.

Tio”, ele chamou, a boca se mexendo devagar e mostrando os dentes tortos e muito brancos. Ele usava um par de chinelos azuis e surrados, e uma calça comprida suja nos joelhos. “Ô, tio”, repetiu, desta vez batendo de leve no meu ombro. Tinha uma mão pequena e áspera, e acho que só isso me fez responder.

Que foi?”

Ele fez um gesto, abanando a mão.

Chega a cabeça um pouco pra trás, vai?”

Ergui as sobrancelhas, surpreso. Ele apenas me encarou com os olhos escuros, quase pretos, enquanto repetia o abano da mão. Obedeci. Ele era tão magro, meu Deus. Os ossos dos nós dos dedos se sobressaltavam na mão.

Valeu, tio”, e ficou olhando para o meu lado, para além de mim, para algum ponto visível da janela. Examinei seu rosto naquele momento, aquele rosto de criança, com dentes brancos e tortos e olhos escuros quase pretos. Ele tinha cor de lama. Não se tratava de preconceito da minha parte, era assim mesmo: Aquele marrom meio sujo, meio mesclado, de quem não é nem negro nem branco, nem chocolate nem baunilha. Lama.

Ele não tinha, por si só, nada de especial, nada que teria me feito virar a cabeça se cruzássemos na rua. Era igual a todas essas crianças que você encontra sentadas na calçada. Quando garoto, eu costumava pensar que todas elas se conheciam, ou que eram todas irmãs de alguma forma, porque todas me pareciam idênticas. Aquelas crianças cor de lama, de terra, de chocolate, de areia, de carvão, de noite, de tudo. Aquelas crianças de cor. Aquelas pelas quais você passa apressado e sem olhar, porque precisa ir ao trabalho, porque precisa ir à escola, porque vai à algum lugar e elas não vão sair dali. Porque está atrasado, porque está adiantado, porque está quase chegando e porque ainda falta muito. Ninguém devia fazer o contrário, é claro – porque ninguém quer ser assaltado, ninguém quer ser xingado, ninguém quer apanhar sem motivo. Mas esse medo justificado não é o maior problema: É que, se olhar para aquelas crianças por muito tempo, o seu maior risco não é ser assaltado. Se você olhar muito para aquelas crianças, você morre. Você morre.

Se eu olhar mais um pouco para esse garoto, vou morrer.

Tá vendo o que?” Perguntei, virando o rosto para a janela também. Estávamos presos num engarrafamento em Botafogo. O moleque não respondeu de primeira, apenas bateu levemente no meu ombro de novo, para que eu colocasse a cabeça na posição anterior.

Ele respondeu, e pelo tom de voz adivinhei que sorria, mesmo sem olhar para seu rosto.

O céu. Tá mó azul hoje, né, tio?”

Azul.

Senti algo se quebrar dentro de mim naquele momento. Algo quebrou e se estilhaçou em milhões de pedacinhos, e se espalhou por toda a parte, dos fios de cabelos até a ponta dos dedos. Nunca consegui recuperar aquilo. E até hoje não sei o que era.

Senti vontade de abraçá-lo.

O céu está sempre azul.” Resmunguei, tolo e estúpido, apenas para não ter que encarar-lhe em silêncio. Descobri que amava profundamente aquele menino. Só por ele existir, só por ter se sentado ao meu lado, só por olhar o céu de uma janela de um ônibus. Desejei que fosse meu filho – mas, se fosse, provavelmente jamais faria algo assim. Porque eu não tinha cor de lama, e ele tinha, aquela cor que se adquire nascendo e não tomando sol, que não é aquele chocolate bonito que tem nas peles de vários negros, só um tom de marrom feio, comum. Gente dessa cor se espalha pelas calçadas em dias de chuva – mancha as cidades mais bonitas e vê os sapatos dos outros passarem, porque são lama. Feitos de lama. Moldados em barro.

Ele sorriu.

É, né?”

Desejei dizer algo bonito, algum tipo de lição de vida. Algo que fizesse aquele moleque pensar e concluir alguma coisa que eu não sabia direito o que era, alguma coisa que o faria ficar vivo e crescer e sorrir com os dentes tortos – e tão, tão brancos! E ele era tão, tão magro! Ele não tinha nem razão para estar vivo.

...Que foi, tio?” Me perguntou, notando meu olhar.

Tive vontade de tentar salvar aquele garoto. Tive vontade de pedir-lhe que não se drogasse, que não pegasse em armas, que não se metesse com a polícia. Que não machucasse ninguém, que não fosse parar na cadeia, que não morresse cedo. Mas que direitos eu tinha para fazer isso? Que direitos eu tinha de privá-lo de suas poucas opções? Teria passado por esse menino centenas de milhares de vezes na rua, e ignorado todos os seus pedidos de esmola sem peso na consciência. Mas é que ele olhava o céu. Ele olhava o céu pela janela de um ônibus. Você sente vontade de salvar uma pessoa assim, por mais hipócrita que possa ser. Você sente.

Você deve.

Nada.” Respondi. Sentia um nó na garganta enquanto o ônibus avançava pelas ruas. O mundo precisava daquele garoto e eu não poderia salvá-lo. Mas deveria, porque o mundo precisava dele – eu precisava dele. Precisava dele porque todo mundo precisa de uma pessoa que sorri ao olhar o céu. Todo mundo, no mundo inteiro.

Virei a cabeça para a janela. Um momento de silêncio pairou entre nós, antes que eu dissesse algo. “Está bonito mesmo.”

Ele deve ter sorrido, acho, mas não tive coragem de descobrir.

“Opa” Disse, vários minutos depois, levantando-se de um salto. “É o meu ponto. Tchau, tio.”

Murmurei uma despedida atrapalhada. Me desculpe, pedi, silenciosamente, enquanto o observava se afastar. Me desculpe, pedi à todo o universo, ao cobrador, ao motorista e a todas as pessoas daquele ônibus. A mim mesmo. E, sem forças para observá-lo sair na rua, apenas voltei minha cabeça para a janela. Para o céu, para os olhos daquele menino. “Tá mó azul hoje, né, tio?”, foi o que ele me dissera.

E estava.

sábado, 9 de janeiro de 2010

Endless fact

Fico puta com aquele pessoal que diz que não consegue ser feliz por causa de tudo que está errado com o mundo. Fico puta com aquele pessoal que acha que eu não tenho o direito de rir em paz por causa das crianças morrendo de fome na África. Fico puta com aquele pessoal que acha que felicidade plena não existe, e que no final das contas a tristeza é tudo que nos resta.

Fico puta porque acho isso de um egoísmo sem tamanho. Acho que se recusar a tentar viver bem por causa das desgraças que ocorrem diariamente é algo covarde, patético, risível, desprezível. Quero bater com um bastão nessas pessoas que tentam vender a idéia de que o amor é um mito, de que a amizade não existe e que os laços familiares só vão até certo ponto. Quero bater com um bastão nessas pessoas que se acham no direito de contaminar a felicidade alheia com seus comentários descrentes e ignorantes, que eles dizem que são feitos no intuito de "conscientizar", quando só conseguem satisfazer as suas próprias mentes medíocres. Essas mentes repugnantes que vivem de procurar todos os problemas do mundo apenas para apontá-los, e jamais tentar solucioná-los - porque isso é impossível, é utopia. Essas mentes que se alimentam de estatísticas e números para dizer determinada quantidade de pessoas morreu em determinado lugar, por determinada causa e de determinada forma, e por isso você não pode acordar de manhã e olhar para cima e dizer que o mundo é bonito só porque o céu está azul. Só porque está fazendo sol e tem gente rindo e indo à praia. Só por isso, eles afirmam que eu não tenho o direito de ser feliz.

Verdade seja dita que, se alguém me perguntasse, eu jamais diria que qualquer uma dessas pessoas gostaria do que eu escrevo. Convivi com essas pessoas a vida inteira, como qualquer outro, e elas gostam de me caracterizar como sonhadora, como boba, como ingênua. Porque nunca acreditei no que elas dizem. Nunca acreditei que a essência das pessoas é a maldade. Nunca acreditei que os problemas do mundo não tem solução. E, por mais contraditório que pareça, nunca afirmei "acreditar" em felicidade. Dizer que eu acredito em felicidade seria o mesmo que dizer que acredito em oxigênio - quando oxigênio não é uma crença, é um fato. Felicidade também.


E, já que qualquer pessoa desse tipo, a essa altura do post, já deve ter fechado a janela ou está arrancando os cabelos, irei mais longe. Mas não serei arrogante - não vou afirmar que tristeza eterna não existe. Existe. Mas é que nem felicidade eterna - só existe se você deixar.

E sobre o mundo? O mundo está aí. Com todos os seus defeitos e merdas e gente morrendo e sofrendo o tempo todo. E gente que vê tudo isso e tenta nos convencer de que não vale mais a pena, de que não tem mais jeito. De que ódio existe e amor não. De que tristeza existe e felicidade não. E sobre tudo isso eu só tenho a dizer foda-se. Sou feliz porque o céu quando eu volto à pé da escola é bonito. Porque suco de maracujá é bom. Porque a textura do carpete do meu quarto é gostosa. E porque eu "acredito" - eu sei que nenhum problema do mundo é inteiramente sem solução. E sou alienada, sou ingênua, sou boba? Não cabe a mim responder. Só que a verdade é que conheço todas estatísticas que tendem a jogar repetidamente na minha cara, e provavelmente eu saberia da determinada quantidade de pessoas que morreu em determinado dia e em determinado lugar de determinada forma, mas isso para mim seria mais um motivo a favor, outra prova da minha filosofia. Porque ser feliz não é a minha alienação, não é uma prova de minha ignorância (e, com certeza, ela é margistral, como a de qualquer um). Ser feliz é O MÍNIMO que todos nós devíamos fazer pelo mundo.


sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

A bunch of fireworks

Uma das coisas que faz do ano-novo o meu feriado favorito, por mais clichê que pareça, são os fogos de artifício. Dezenas de flores desabrochando no céu. De todas as cores, subindo em pequenas cobras de luz e explodindo e encantando e sumindo tão rápido, tão simples, tão, tão bonito. Adorei 2009, adorei seu início, seu meio e seu fim. Conheci tanta gente nova, perdi contato com tanta gente antiga, chorei tanto, ri tanto, briguei tanto, amei tanto. Li tanto livro bom, vi tanto filme bom, escrevi tanta coisa boa e ruim. Falei tanta merda, falei tantas coisas bonitas - fiz tanta merda, fiz tantas coisas bonitas. Fiz tanta coisa diferente aquele ano, tanta coisa que eu nunca tinha feito antes. Valeu tanto a pena.

Fiz várias promessas para este ano, e talvez ano que vem eu descubra que não consegui cumprir nenhuma delas, e que algumas não eram tão relevantes quanto pareciam. Mas não importa.


É o primeiro dia de 2010 e eu estou feliz.

Espero que todos vocês sintam o mesmo - não só hoje, como na maior parte dos 365 dias que virão a seguir. ♥