quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Made in Brasil

Certa vez, estava fazendo um trabalho de classe com alguns amigos. Enquanto fingíamos fazer o dever, por algum motivo, a conversa acabou rumando para livros, filmes e músicas brasileiras. Nisso, um dos meus melhores amigos comentou: "Pra ser sincero, eu não gosto muito de nada que venha da cultura brasileira...". Abri a boca pronta para protestar, mas um outro garoto que estava conosco sintetizou meus pensamentos numa frase. Ele disse: "Cara... Vai se foder."

Ou "Vitória Épica", se assim preferirem.

Eu acho engraçado a maneira como as pessoas encaram a palavra "brasileiro" hoje em dia, quando ela vem depois das palavras "livro", "filme" ou "música". Vocês já repararam? A reação costuma se dividir em dois extremos: Os que fazem careta e dizem "OMG ISSO VAI SER RUIM PRA CARALHO!1!", e os que batem palmas e dizem "OMG ISSO VAI SER BOM PRA CARALHO!1!".

Não serei hipócrita: Sei bem que, se tivesse que escolher algum, eu provavelmente estaria no segundo tipo, mas também sei que não me encaixo exatamente em nenhum dos dois. É que eu honestamente NÃO ENTENDO isso. Primeiro que dizer: "Não curto a cultura brasileira" é, por si só, uma arrogância sem tamanho, porque, na tua condição de ser humano normal, é óbvio que você não conhece nem um terço de todos os produtos dessa cultura. Claro que isso também não te obriga a dizer "Amo a cultura brasileira", mas qual a dificuldade de entender que isso não deveria ser um fator relevante? Quer dizer, o fato de um livro/filme/música ser brasileiro não faz dele ruim ou bom, faz dele... Brasileiro. Oras. Desde quando qualidade e nacionalidade viraram sinônimos?

Tem gente que argumenta que é sempre o mesmo tema. Em se tratando de filmes brasileiros, por exemplo, muito gente reclama que eles só falam de favela, tráfico e tiroteio. Pois bem, normalmente o pessoal responde falando o óbvio. Tipo: "Errr... Não é querendo te ofender nem nada, colega, mas é a realidade, sabe?". Ao que todo mundo replica de imediato: "É, mas não é só isso". É um argumento válido, se não fosse pela forma como esse pessoal se contradiz. Eles reclamam do retrato "pobre" do país e tal, mas desde que essa novela nova estreou, essa tal de "Viver a Vida" (que nunca vi), o que eu mais ouço é que todo mundo na novela é rico e isso é uma representação irreal do Brasil. Mas então o que é uma representação fiel, afinal? Devemos exigir um filme de classe média, então? Opa, mas a gente também está metido no tráfico, não? Assim fica difícil.

O pior é que esse preconceito interno prejudica a representação internacional do Brasil, também. Outro exemplo: Pra meter o pau no cinema brasileiro, ultimamente, outro grande argumento é que nós nunca ganhamos um Oscar. Não vou nem entrar na moral da falta de verba e divulgação, porque isso não justifica totalmente. Mas que tal pensar no seguinte: Toda essa paranóia com a "imagem brasileira" inibe a demonstração da cultura em caráter mundial. Foi por isso que "Tropa de Elite" não foi o enviado do Brasil pro Oscar, oras! Preferiram mandar "O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias", um que tinha mais "cara de Oscar", e claro que não deu em nada. Pessoalmente, não vi nenhum dos dois, de modo que não posso julgar em termos de qualidade - mas, convenhamos, o próprio Oscar não se importa muito com isso. Eles julgam mais pela visibilidade do que qualquer outra coisa. E alguém acha mesmo que, independemente do fato dos filmes serem bons ou ruins, o sucesso desses dois é comparável? Aliás, falando francamente, alguém tinha sequer ouvido falar do "Ano" antes de sair a notícia de que tinha sido mandado pro Oscar? Eu não tinha. Agora, se existir alguém nesse país que não conheça o Capitão Nascimento, eu como minha mão esquerda.

"Não me conhece? NÃO ME CONHECE, FILHO DA PUTA? PEDE PRA SAIR, PORRA!" - Ok, não resisti.

Em matéria de música, o povo é ainda mais taxativo. Para eles, música brasileira se divide entre funk e samba - e ambos os gêneros são classificados como merda. Eu acho engraçado que esse povo que fala do funk não se preocupa em conhecer as raízes da música, e duvido que qualquer um deles saiba que, no início, o funk brasileiro era um estilo revolucionário, cujas letras protestavam contra a violência e a pobreza nas favelas. A sexualização e vulgarização das músicas é um fenômeno recente, não característico do estilo em si. Mas claro que ninguém perde tempo tentando se informar sobre isso, só eu. O povo se limita a ouvir Créu e Adultério e encher a boca pra falar que música nacional não presta. Esse pessoal nunca ouviu Cazuza e só conhece Legião Urbana de nome, mas se acham no direito de falar mal mesmo assim, porque desprezar é cool.

Acho que só na literatura que o preconceito é um pouco menor. Quer dizer, achava. Tanto que, quando a Pam postou sobre literatura brasileira no "E tudo o mais", achei ótimo, mas pensei que ela estava exagerando um pouco. Isso até chegar no msn com uma amiga, comentar que estava relendo "Capitães da Areia" pela décima vez, e ouvir como resposta que ela não conhecia o livro. Diante de meu choque, ela emendou: "Não leio literatura brasileira". Assim, cheia de orgulho, mesmo. Fiquei ainda mais chocada quando descobri que se trata de uma postura comum. O único brasileiro que, aparentemente, é poupado desse tipo de julgamento é Machado de Assis, talvez porque nem mesmo os pseudo-intelectuais mais radicais tenham coragem de mexer com gente grande de verdade. Ou talvez seja apenas porque ele acabou ganhando a fama de "exceção" da literatura brasileira. Vamos e convenhamos: Tem gente que acha que o nosso movimento literário começou e terminou com Machado. E, em vez das escolas darem um jeito nisso, só mistificam o cara ainda mais. Não que ele não tenha sido foderoso, mas ele não foi o único e seria legal se as pessoas parassem de colocá-lo, sozinho, num pedestral. Engraçado que a maioria dos que fazem isso sequer leu realmente alguma coisa dele - e, os que leram, leram Dom Casmurro.

Acabei de notar que, em sua maioria, as pessoas que fazem isso também são os meus queridíssimos pseudo-intelectuais, que já mencionei antes no meu post sobre supervalorização da leitura (e no das cinco coisas aleatórias que me irritam - sim, eles são os que se dizem fodas). Não consigo acompanhar o raciocínio desse povo tr00, realmente. Será que não dava pra simplesmente não ligar pra isso? Tem tanto livro brasileiro foda, tem tanto livro brasileiro ruim; tem tanto filme brasileiro bom, tem tanto filme brasileiro de merda; e pra cada Cazuza que existir vai haver um Cine. E daí, porra? Será que uma pessoa não pode avaliar algo independentemente do autor ser carioca ou não? Não estou dizendo para idolatrarem a cultura brasileira, galera. Apenas parem de rotular.

Nesse exato momento, estou ouvindo "Pais e Filhos", do Legião. Antes, estava ouvindo "We Are the World", do Michael Jackson e uma porrada de outros cantores, como Stevie Wonder, Diana Ross, etc. Esse mês, li "Felicidade Clandestina", da Clarice Lispector, e "Os Trabalhadores do Mar", de Victor Hugo. Revi "Pocahontas" ontem e estou à procura de "Do Começo ao Fim" para baixar. Alguém se arrisca a traçar um padrão?

Eu ajudo: Coisas de que gosto. Simples assim.

domingo, 6 de dezembro de 2009

To be

Ontem fui ver 2012 no cinema. Não é um bom filme, na verdade, eu não gostei muito. Mas a minha recém-adquirida habilidade de pensar sobre coisas aleatórias no meio do cinema me fez entender uma coisa que me assustou um pouco. Tem gente que acha estranha a minha mania de procurar sempre ver o lado bonito dos outros, mas agora acho que eu entendi: É que estamos todos vivos. Todos, todos nós. E isso não é sequer algo bom - é assustador, é intimidante. Eu estou respirando agora e você também, e o presidente do país também, e o mendigo na rua também, e o pedófilo que está atacando uma criança agora também, e a criança que ele está atacando também. Estamos todos vivos. Em ritmos diferentes, em lugares diferentes, alguns mais e outros menos. Não interessa mais nada - a gente respira, e ponto.

Acho que é por isso que tenho estado tão Pollyanna ultimamente, vendo o lado bom de todos e tendo certa dificuldade em odiar. É que a pessoa que odeio está viva e eu também, e essa familiaridade me faz simpatizar com ela. Porque estamos. Somos. Respiramos. E isso basta.