quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Pequeno conto com algumas verdades

A primeira coisa que ele fez foi sorrir. Fazia sentido, afinal de contas, estava sorrindo na foto, não? Mas não era bem um sorriso, era um sorriso-misturado-com-careta, daquele tipo que as pessoas riem quando alguém dá. Daquele que você dá quando tem um amigo do seu lado empurrando com força um chapéu multicolorido na sua cabeça – mas Carlos nem era seu amigo, era? Ele não lembrava, nunca fora grande coisa com memória. Mas lembrava da foto, sim, lembrava, tinham tirado no curso de teatro, não foi? Nossa, o curso de teatro...


A foto não era velha. Lógico, claro que não, como seria? Fazia só três anos. Como ele podia não lembrar do que acontecera há três anos? Mas agora, franzindo o cenho e forçando o cérebro, ele lembrava mais ou menos, sim. E reconhecia as pessoas da foto, claro, era Vanessa, era Carlos, e – claro – era ele. Lembrava, sim.Vanessa tinha tranças nos cabelos e armação de óculos vermelha, Carlos tinha piercing na língua e fama de viadinho. E ele, tinha o que? O cabelo escuro caindo pelos ombros, o aparelho nos dentes, as sardinhas na ponta do nariz... E o sorriso-careta, lógico. Carlos sempre ria quando ele dava esse sorriso em resposta a alguma piada de mau gosto, com aquela gargalhada escandalosa que ele tinha, apontando: “Aí, ó, ele tá querendo mais é me mandar à merda. Não é não, Alexandre?”. Não era tão engraçado assim, mas Carlos ria. Vanessa também, mas ela cobria a boca com a mão enquanto o fazia, envergonhada dos dentes grandes. Eles achavam Vanessa tão, tão feia. Todo mundo achava. Ela era pálida demais, magra demais. O cabelo castanho era bonito, mas ela o prendia em tranças, sempre. Era a única menina que ainda usava tranças no ensino médio. Era engraçada. Não tanto quanto Carlos, mas...


Interrompeu as lembranças, despenteando os cabelos agora muito curtos, ciente de que havia esquecido completamente do que começara procurando. Eram as anotações da última aula da faculdade, que estavam paradas a seu lado enquanto ele olhava a foto. Estudar Medicina era importante, mas olhar a foto também era, não? Fazia três anos, eles não tinham tirado nenhuma outra juntos. Eram da mesma sala e não se falavam, mas foram fazer teatro juntos, e nenhum dos três virou ator. Vanessa dizia que queria, que ia fazer Artes Dramáticas na faculdade, mas no fundo ele a achava feia demais para ser atriz, tadinha, era tão legal. Carlos não falava de futuro, cortava o assunto na hora, falava que não tinha idéia do que ia fazer, deitando apoiado na parede e cruzando as pernas, o cabelo louro caindo nos olhos. Carlos parecia mesmo viadinho, mas não achava que ele fosse mesmo, não, nem um pouco – mas, se fosse, o que importava? Ele tinha sido o primeiro a puxar um assunto, a falar algo que reunisse os três, a salvá-los daquele clima desconfortável de semiconhecidos.


Nunca passaram disso, é verdade: Andavam com grupos diferentes e nunca se aproximaram muito. Não eram amigos. Só que eram da mesma turma e seria estranho ficarem no mesmo curso sem se falarem. Se bem que ele e Vanessa sabiam conhecer outras pessoas aos poucos, na verdade, através de risadas, conversas longas e vários momentos. Só Carlos é que tinha aquela tendência a cercar os outros, abraçá-las pelos ombros e dizer que eram seus amigos quando era óbvio que não era verdade. Carlos era bem inconveniente – era engraçado, claro, mas isso não era desculpa: Vanessa era engraçada e respeitava bem o espaço alheio, e era tão divertida, por que tinha que ser tão feia? Mas era tão divertida, e era realmente boa em atuar, sabia imitar vozes e trejeitos tão bem que deixava a ele e a Carlos com uma certa inveja – não-declarada, porque não eram íntimos a ponto de se permitirem brigar. E, de fato, nunca brigaram. Riram juntos muitas vezes, também, mas nunca mais se viram. Não eram amigos, afinal.


Não eram amigos. Só que decidiram experimentar alguns acessórios do baú de figurinos uma vez, e tiraram uma foto. Não sentia falta deles, quando parava para pensar, só que já fazia três anos. Só que Vanessa amarrou um lenço colorido com pedrinhas brilhantes coladas no pescoço (“Nossa, gente, como isso é brega!” Ela dissera, rindo sem cobrir a boca), e Carlos vestiu uma cartola preta e prendeu um bigode com um elástico, e imitou um sotaque inglês tão engraçado. E ele riu mas parou depressa, quando eles mandaram que ele escolhesse. Não gostava quando eles mandavam assim, só porque eram mais soltos – não gostava de muita coisa neles. Só que Vanessa deu a câmera ao professor para ele tirar a foto, e Carlos tirou um chapéu de bobo da corte do baú e forçou em sua cabeça enquanto o flash reluzia diante de seus olhos.


Não eram amigos. Só que gravaram aquela lembrança nas mentes uma vez, e, no final, já que ela existia, significava algo, não?

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Uma bic preta


Era um senhor velho - muito, muito velho. A pele era morena, os olhos castanhos cansados, parecendo injetados, com linhas vermelhas que saíam da íris. Não chegava a mancar, mas andava de um jeito estranho, quase se arrastando. Parecia machucado, e talvez estivesse. Era do tipo que faria as pessoas mudarem de calçada se o vissem, especialmente alguém paranóica como eu. Mas, por algum acaso imbecil do destino, íamos atravessar a mesma faixa. Ele foi até o meio dela antes de o sinal abrir, gritando coisas ininteligíveis, e depois voltou. Tinha a voz gutural e grossa, como se tentasse dizer algo que não sabia direito como se falava.

Era um senhor triste - muito, muito triste.

Não sei porque não me afastei quando ele começou a falar. Ou a grunhir, na verdade. As pessoas ao meu redor se afastaram discretamente, com medo. Mas os olhos dele estavam tão, tão tristes. Ele parecia machucado, mas entendi que não era pelo jeito de andar, e sim pelo rosto. As rugas dele lembravam cicatrizes.

Talvez tenha sido só impressão minha. Talvez ele fosse drogado, talvez fosse louco. Mas parecia que sabia de algo, de alguma verdade tão avassaladora que você não conhece guardar para si mesmo, como se tentasse contar algo. Tentou contar para mim. E eu tentei, realmente tentei ouvir, mas os carros na nossa frente faziam um barulho alto demais e ele falava de um jeito muito confuso.

Em determinado momento, ele tirou algo do bolso e colocou na minha mão. Era uma caneta - uma bic preta. Do tipo que você encontra em qualquer loja. Do tipo que ninguém dá de presente para ninguém. Perguntei o por que, e ele fez um gesto negativo, falando mais alguma coisa. Entendi que queria a caneta de volta, e a entreguei. Ele falou mais alguma coisa antes de colocá-la no bolso, e eu perguntei mais uma vez o que era, me sentinddo terrível por não compreender. Mas ele apenas fez um gesto de "deixa pra lá".

E o sinal abriu e nós atravessamos e ele foi embora.

E eu me sinto mal.

Acho que o desapontei.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Rápido desabafo

E eu fico só calada ouvindo as pessoas reclamarem de que o romantismo está morto, de que tudo que os homens querem é uma bunda e um par de peitos gostosos, de que as pessoas só se importam com aparência agora, de que ninguém mais ama de verdade, etc.

E eu tento, realmente tento entender o lado delas. Mas aí eu lembro de quando eu falei que estava gostando de alguém que não conhecia pessoalmente e todo mundo me perguntou: "Mas como?" E me lembro da minha amiga que tinha medo de se declarar pro garoto de quem ela gostava desde os cinco anos, porque as pessoas costumavam dar risinhos abafados do fato de ela ser mais alta que ele. E de um grupo de garotas que falou "eca" diante de um casal de velhinhos trocando um beijo mais profundo do que um selinho na rua. E de uma porção de gente falando que determinado casal de determinado anime não poderia acontecer porque o cara era muito feio. E eu lembro de tudo isso e percebo que não, não é loucura minha.

Determinaram até a maneira correta de como duas pessoas podem se amar.

E determinaram baseados em que? Na felicidade de ambos os componentes do casal? Na compreensão mútua e companheirismo que um deveria ter para com o outro? No sentimento que os dois deveriam compartilhar? Não. Determinaram baseados no que é bonito de se ver.

E eu penso em como gostar daquela pessoa que eu nunca vi me fez bem, e em como é preciso um sentimento tão forte para gostar de alguém desde os cinco anos, e em como o casal de velhinhos parecia feliz, e acho que talvez eu seja muito cega ou muito estúpida, porque acho tudo isso muito bonito.

Mas que se foda.


Amem quem vocês quiserem, do jeito que quiserem, porque é disso que o mundo tá precisando.