domingo, 27 de setembro de 2009

Entre preconceitos não-declarados e hipocrisia

Nunca entendi direito aqueles que afirmam que "preferiam ter nascido em outra época". Quer dizer, entendo aqueles que falam isso apenas pela vontade de experimentar, assim como eu gostaria de ver como eram as coisas na Grécia Antiga ou de ter ido no festival de Woodstock. Agora, comentários como "nasci na época errada" ou "odeio a forma como as coisas são hoje em dia" são incompreensíveis para mim. Sério, parece que as pessoas realmente acham que os tempos em que uma mulher não podia usar uma saia acima do joelho ou começar a comer sem a presença do marido foram a época áurea da humanidade. Enfim, não é sobre isso que eu quero falar.

Não sou ingênua a ponto de achar que a nossa sociedade é perfeita. Na verdade, ela mal chega à classificação de aceitável, a meu ver. Afirmar que estávamos melhor na época em que negros eram chicoteados em público simplesmente pelo fato de terem levantado a cabeça e encarado um branco nos olhos é, no mínimo, bizarro. MAS, também, afirmar, como já ouvi alguns fazerem, que "preconceito não existe mais", é um absurdo completo. Lógico que hoje em dia ninguém mais algema um negro e declara-o sua propriedade particular, o que sem dúvida representa um avanço, mas o preconceito ainda existe, sim, NO MESMO NÍVEL daquela época.

Sim, no mesmo nível. Mas, atenção: Não estou falando de números ou estatísticas, mas sim da mentalidade individual de cada ser humano - ou seja, sei que o número de pessoas que têm preconceito contra as minorias diminuiu bastante de uns tempos para cá, mas o que estou querendo dizer é que, as que ainda têm, têm exatamente como as pessoas daqueles tempos.

Exagero? Não, não acho. É um fato. O preconceito ainda existe, tão forte como antigamente, embora em menor quantidade. Qual é, então, a grande diferença? A diferença é que não existe mais o preconceito declarado. Ou seja, não há mais gente que chicoteia negro em preça pública, mas gente que faz careta diante da idéia da filha apresentar um namorado de pele escura.

A situação te soa familiar?

Quer uma prova? Saia perguntando. Pergunte pros seus amigos, familiares e conhecidos se eles tem algum preconceito contra negros, homossexuais, mulheres, ou qualquer outro tipo de "minoria" (embora esse conceito seja errado em muitos pontos - no Brasil, por exemplo, já foi comprovado que a maioria da população é mestiça, não branca). DUVIDO que qualquer um deles responda que sim. O máximo que alguns podem chegar é a manifestar preconceito contra homossexuais, já que a discriminação desses últimos ainda não é completamente "condenada" pela mídia. Agora, racismo? Machismo? "Deus me livre, não sou disso não!"

Ué, mas, se todo mundo é assim tão mente aberta e livre de preconceitos, por que então os negros continuam a constituir a maior parte da população pobre e desempregada? Por que a gente ainda ouve casos de mulheres que deixam de ser qualificadas para um cargo só por serem mulheres? Por que ainda ouvimos histórias de um bando de adolescentes que decidiu juntar e dar uma surra em outro garoto só porque ele estava usando roupas afeminadas? Por que "gay", "crioulo" e "lésbica" ainda são considerados termos ofensivos? Coincidência? Obra de alguns poucos desajustados que ainda estão presos à estereótipos do século passado? Claro que não. O que ocorre aqui é o preconceito mascarado, o não-declarado, que muitas pessoas tem sem sequer perceber. É o que nos faz achar bonito um ditado que diz que "não se bate em mulher nem com uma flor", ao passo que o certo devia ser não bater em NINGUÉM nem com uma flor. É o que nos faz ficar surpresos quando um cara machão afirma que é gay, e resulta em comentários do tipo "nossa, mas eu nem achei que ele tinha jeito" - como se homossexuais TIVESSEM, de fato, qualquer traço em comum além da atração por pessoas do mesmo sexo. É o que nos faz achar natural e bonito favorecimentos para negros nas universidades, como se eles tivessem algum tipo de problema que os impedisse de se esforçarem como gente normal. Todo mundo tem algum preconceito desse tipo. As pessoas que não possuem são raríssimas, a maioria nem o tem conscientemente. Que diabos, EU já tive - e olha que ainda estou trabalhando para me livrar dele.

E não é pra menos: Somos criados com esse tipo de conceito na cabeça, com o conceito de que xingar um cara por ele ser gay não é legal, mas que também não é legal permitir que ele durma na sua casa ou que te abrace (se você for uma mulher, basta trocar "gay" por "lésbica" que tu vai entender). Daí que surgem pérolas do tipo falar que Forrest Gump é racista, só porque no filme tem um negro que morre. Detalhe que o negro em questão é um grande amigo do protagonista, uma pessoa muito importante para ele, e, apesar do Q.I. baixo (que é do mesmo nível do Q.I. do próprio Forrest, felizmente, se não com certeza iam reclamar disso também), ele é retratado como um personagem simpático e cheio de carisma, que deixa tristeza nos espectadores quando morre. Mas a moralidade falsa e hipócrita de Hollywood não devia nos permitir ver um negro sofrendo, não é mesmo? Assim como ela tenta nos fazer acreditar que não existem gays que não sejam amiguinhos, divertidos e sexualmente inofensivos. Ou mulheres que não sejam sensuais, independentes, inteligentes e capazes de lutarem por elas mesmas. Mas nem vou entrar na questão da manipulação da mídia aqui, isso é assunto para um outro post.

Essa nem tanto, né?

O terrível é ver como as pessoas sequer percebem isso. Usando a mim mesma como exemplo: Eu nunca me considerei uma pessoa racista. Nunca. Eu nunca achei que negros fossem remotamente inferiores a brancos nem nada do gênero. Nunca fui do tipo que fala "é preto, mas é bonzinho". Mas, no meu antigo colégio, só me lembro de ter conhecido três negros (não incluindo mestiços e mulatos nessa conta). Dois foram bons amigos meus, o outro eu só conhecia de vista. Pois bem, estudei durante onze anos lá. Não era uma escola pequena. Não era uma escola assumidamente preconceituosa. Pelo contrário, era considerada uma das melhores da cidade. E eu, que me dizia tão mente aberta, nunca tinha sequer notado a discriminação gritante que ocorria lá dentro, só notei quando a minha mãe me disse quando estava tentando me convencer a sair da escola (e foi um argumento que pesou bastante na minha decisão, devo confessar). Esses dias, entretanto, ao comentar com amigos que ainda estudam lá, recebi uma resposta assustadora quando eles afirmaram que acreditavam que isso era mais por coincidência do que por racismo por parte da direção. Coincidência. E vale dizer que não foi um grupo de imbecis ignorantes que me disse isso. Foi um grupo de pessoas inteligentes e sensatas, simpáticas na maior parte do tempo e que jamais hostilizavam ninguém por causa de qualquer diferença. E que realmente acreditavam que uma escola bem cotada, respeitada, grande e com centenas de alunos não teria negros por coincidência.

Não quero ofender nem magoar ninguém com esse post. Só quero fazer um apelo desesperado: Gente, por favor, revejam seus conceitos. Parem com esses desespero em negar uma coisa que na maioria das vezes é mais culpa da criação do que da própria pessoa. Procure teus preconceitos, encontre-os, e ELIMINE-OS de vez. Isso não precisa nem ser relacionado à raça, ao gênero ou à opção sexual. Se você acha que uma menina que pega três caras por noite é uma pessoa desprezível, reveja seus conceitos. Se você acha que não há nada de errado em ser gay mas jamais seria amiga de uma lésbica por medo que ela se interessasse por ti, reveja seus conceitos. Ter sido manipulado pela sociedade e ter um preconceito inconsciente não é motivo de vergonha, gente. Vergonhoso é ser hipócrita, fingir que não tem e continuar alimentando essa estupidez.

E por falar em hipocrisia... Que tal pararmos também com essa mistificação, com esse paranóia excessiva de "medo de ofender"? Certa vez, tava conversando com uma colega minha sobre Grey's Anathomy, e comentei que achava um dos médicos da série muito bonito. Ela me perguntou qual, e eu, já que não sabia o nome de ninguém, falei apenas: "Ah, aquele negão lá." Para minha surpresa, a menina arregalou os olhos e me encarou como se eu tivesse insultado o homem, acrescentando em seguida: "Ai, não fala assim!".

Julgue por si mesmo: Quem foi preconceituosa na cena, eu ou ela? Por acaso eu devia ter diminuído o fator de identificação, falando algo como "aquele cara de cabelo preto", ou pior, "aquele cara de olhos escuros"? Ou talvez eu devesse ter usado algum eufemismo, dito "aquele cara de cor", ou "aquele afro-americano"? Por que o termo "negão" devia ser tomado como ofensa? O cara é um negão gostoso da porra mesmo! Se eu chamo um cara de "branquelo", ninguém vai dizer que estou sendo racista, então por que o contrário devia existir? Agora as pessoas tem que ter vergonha de serem chamadas de negras? Como se fosse algo horrível ou pejorativo? É só a droga de uma característica física! Se uma pessoa pode falar "eu gosto de caras de olhos azuis", por que eu não poderia falar "gosto de caras negros"? Se você é do tipo que se controla antes de falar "negro" para descrever alguém, pode parar com isso, cara. Quem se irritar por isso é que demonstrando preconceito, não você. Aliás, se alguém quiser ver maneiras GENIAIS de satirizar o racismo, deêm uma olhada nesses vídeos do musical Hair. Tem a letra do primeiro aqui, também, se alguém não conseguir entender direito o que o Hud canta - compreensível, porque a música é bem rápida.

E esse tipo de hipocrisia nem se limita ao racismo. Exemplo? Experimente chegar na sua sala da escola e perguntar se alguém ali tem algum preconceito contra homossexualidade. No máximo, um ou dois vão falar que "não acham muito certo". Agora, tente perguntar se alguém ali é homossexual/já teve experiências/já teve vontade de ter. Na minha sala deste ano e do ano passado, pelo menos, sei que todo mundo ia negar. Aí vem a dúvida básica: Vocês acreditam mesmo que, num grupo de quase trinta pessoas, nenhuma delas nunca sentiu nem uma curiosidade com relação ao mesmo sexo? Ainda mais se forem adolescentes? Vocês acham mesmo que, aos catorze anos, alguém pode plenamente se considerar hetero, homo, bi ou o que quer que seja? Não pode. Por quê? Porque ninguém prevê o futuro, porra. Você não pode afirmar com cem por cento de certeza nem que vai estar vivo semana que vem, como poderia afirmar que vai gostar de homens/mulheres pelo resto da tua vida? Pode ser que aconteça, claro, mas que diferença isso vai fazer? Por que somos todos tão obcecados por essas definições?

Você gostaria de ter uma pulserinha dessas pra usar pro resto da vida?

E eu poderia falar de machismo, também (me preocupo um pouco quanto ao tamanho do post, mas foda-se, não criei isso aqui pra economizar caracteres mesmo). Esse é o que as pessoas mais gostam de acreditar que não existe mais - eu também pensava assim, até me deparar com exemplos reais e assustadores. Como o caso da menina que, inconsciente por causa de bebida, foi estuprada e filmada em Joaçaba em 2008 e chocou muita gente não pelo acontecimento em si, mas pelas reações absurdas de vários internautas, que queriam porque queria ver o vídeo do estupro, para "ver se foi mesmo culpa dos caras". E não foram um ou dois maníacos que vieram com essa, foram dezenas. E ainda arrematavam que a culpa era da menina, porque "quem mandou ela beber até cair?". Falaram que ela devia ter provocado os garotos, que "estupro por menor de idade não existe" (!), que nem virgem mais ela devia ser (o que o cu tem a ver com as calças?!), e daí pra baixo. O pior: Muitos desses comentários vinham de OUTRAS MULHERES.

Sim, isso mesmo. Porque, normalmente, é muito mais fácil achar mulheres machistas do que homens. Sério. O problema é que o machismo aí é não-declarado, como eu falei antes. É aquele tipo de mulher que despreza uma garota e a taxa de puta só porque ela fala de sexo sem tabus - mas, se ouve um cara falar as mesmas coisas, apenas sorri e revira os olhos como se dissesse "homens são assim mesmo". Eu estou até agora tentando entender no que o número de pessoas que uma garota pega por noite influi no caráter dela. E dizer que alguém "merece" ser estuprada só por causa disso, olha, chegar a DOER de ouvir, hein.

Eu vou falar algo bem direto pra qualquer cara que venha a ler este post: Colega, mesmo que uma garota tire toda a roupa e dance pelada na tua frente, você NÃO TEM o direito de forçar ela a transar contigo (embora eu duvide que alguma menina fosse fazer algo assim na frente de alguém que não a interessasse, mas enfim, não importa). Não me interessa se ela já tiver dado para mil caras. Não me interessa se ela já tive dado pra mil caras ao mesmo tempo. Não me interessa se ela já tiver dado em todas as posições imagináveis por um ser humano. Ela continua NÃO QUERENDO transar com você. E, sejamos honestos, quem pode culpá-la?

Machismo e racismo numa única imagem. Mandou bem, Desmotivado. (Y)

Vejam bem, eu não estou dizendo pra você, mulher, andar de camisola pela rua às três da manhã - bom senso é recomendável, claro, assim como cuidados básicos. O ponto é que esses cuidados não DEVERIAM ser básicos. Uma mulher deveria poder andar pela rua às três da manhã vestindo o que bem entender sem se preocupar que algum maluco tente atacá-la, mas sabemos muito bem que não é isso que acontece. Então, tudo bem, podemos até classificar a moça da foto e a menina de Joaçaba como imprudentes, mas chamá-las de vadias? De burras? Falar que "merecem mesmo" algo assim? É estupidez demais para um ser humano só.

Ainda tem muito mais coisas que eu gostaria de falar sobre preconceito de todas as formas, mas vou encerrar por aqui, mesmo. Espero que dê pelo menos para pensar um pouco a respeito, sei lá. E fica a dica (de novo): Reveja seus conceitos. Sério. Vai te fazer um bem sem tamanho, e às pessoas ao seu redor também.

Igualdade, galera. Igualdade. É isso que nos falta.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Pequena vontade

Acabei me lembrando dele, não sei por que. Ele não era meu amigo - na verdade, eu só o conheci por cinco dias, numa viagem. Acho que eu tinha onze anos. Ele fazia parte de uma turma que eu normalmente evitava, não por serem antipáticos, mas por me intimidarem. Mas lembro de ter gostado dele, porque ele era legal comigo - era do tipo que era legal com todo mundo. Fazia brincadeiras bobas o tempo todo. E olha que era de longe o mais velho dali: Fiquei chocada quando soube que ele tinha dezoito anos, não parecia. Tinha uma espécie de paixão infantil, também, por uma menina bonita dali, que tinha um namorado em sua cidade e não se interessou por ele. Mas ele não pareceu triste, apenas chateado - e continuou a brincar com ela, fazendo cócegas, piadinhas estúpidas, empurrando-a num balanço. Senti pena; achei bonito. Ri de várias zoações bobas que ele inventava, conversamos pouco e não ficamos amigos. Mas numa noite ele me disse que, no ano seguinte, queria sair do Brasil - ele ia estudar algo que eu não lembro o que, num país que eu não lembro qual, talvez Inglaterra ou os EUA. Era seu sonho, ele me disse, batendo no peito de um jeito idiota. Não cheguei a vê-lo de novo, não mantivemos contato. Mas lembrei dele esses dias, porque era do tipo que era legal com todo mundo. Do tipo que aos dezoito anos empurrava num balanço uma menina que não gostava dele, do tipo que batia de verdade no peito quando falava o que queria, do tipo que fazia piadinhas bobas e cócegas, do tipo que falava de sonhos.

Não sinto saudades dele, não nos conhecemos bem o suficiente para isso. Mas sei lá.


Tomara que ele tenha ido.

sábado, 5 de setembro de 2009

Sobre mim,

Ou sobre como o postsecret é foda.












Da voz da guerra

Há algum tempo atrás, na escola, tivemos que ver um filme chamado Quase Dois Irmãos. Era um filme brasileiro, passado na época da ditadura militar, e não agradou à muitos dos meus colegas. Sendo honesta, não era o tipo de filme que eu pegaria numa locadora, também. Mas queimei a língua, e não de um jeito bom, na verdade. Quase Dois Irmãos trata de dois temas que mexem comigo: A vida na prisão e a luta.


O "bem-humorado" é completamente infundado, mas vale a pena ver mesmo assim.


No fundo, mal sei dizer se gostei do filme. O que eu senti enquanto via foi uma espécie de angústia crescente e desesperadora, uma vontade de sair correndo daquela sala, de tampar os ouvidos e fechar os olhos para fingir que não estava vendo nada.

Eu não fechei.

Em vez disso, mantive os olhos bem abertos, sem perder um detalhe das cenas. Foi uma sorte que não tivéssemos tempo para ver o filme todo naquela aula, e a psicóloga que havia proposto a idéia pausou-o lá para perto da metade, dizendo que terminaríamos outro dia. Também foi sorte o fato de aquele ser o último tempo, porque eu não confiava na minha capacidade de voltar para a sala e agir como se não tivesse visto nada. Sentia como se fosse vomitar, ou desmaiar, ou cair em prantos em plena sala de vídeo. Ou todos os anteriores.

Parece exagero? É, entendo que você veja assim. Honestamente, não acho que alguém vá experimentar a mesma sensação que tive ao assistir esse filme. Não digo isso por prepotência, mas é que esse assunto me afeta de maneira quase doentia. A maioria das pessoas acha tranquilizante o fato de todos os "monstros" da sociedade estarem trancados num prédio grande destruindo uns aos outros, mas a verdade é que eu não consigo imaginar um ambiente mais cheio de desesperança que uma cadeia. Não sei bem o por que. Não tenho nenhum parente ou conhecido na prisão. Nunca estive em uma, pra ser sincera. Tenho consciência do tipo de pessoas que se encontra lá dentro, mas não consigo ignorar, do mesmo jeito. Talvez numa vida passada eu tenha morrido em Alcatraz ou na Ilha Grande, quem sabe.

Mas não é disso que eu quero falar aqui. O fato é que, mesmo tendo perdido as aulas em que a minha turma viu o resto do filme, senti-me na obrigação de vê-lo até o final. Por isso, baixei e o vi todo pelo computador. E acho que entendi um pouco porque o filme mexeu comigo. Sim, é uma mistura dos assuntos que me afetam mais, como já disse. Sim, me angustiou do começo ao fim. Sim, doeu. Mas, no fundo, bem por trás de tudo, eu senti um pouquinho de esperança. Um tantinho de nada, imperceptível se você não prestar atenção. Não pelo final ou pelas opiniões dos personagens, mas pelo decorrer dos acontecimentos - pela luta.

Neste ponto, é necessário explicar um pouco da história do filme (coisa que, honestamente, não queria ter fazer, pra não deixar isso aqui com cara de resenha): Miguel, deputado federal, visita Jorge, que, da cadeia, comanda todo o tráfico de uma das maiores favelas do Rio de Janeiro (o filme não especifica qual, mas a verdade é que pode ser qualquer uma). A partir dessa visita, entretanto, o filme começa a contar o passado dos dois, que, por incrível que pareça, se conhecem desde a infância e se encontram de novo na vida adulta, no presídio da Ilha Grande. Miguel, contrário à ditadura militar, é um preso político - Jorge, por outro lado, é apenas um preso comum, condenado por assalto. E essa diferença, que parece insignificante, acaba determinando toda a história. Mesmo presos, os detentos políticos não deixam de ter seus ideais - tanto que, sendo maioria, eles dominam toda a prisão, que é obrigada a agir sob suas três maiores regras: Sem roubo, sem estupro e sem fumar maconha. Englobando todos os presos comuns em seus ideais, também, por conseqüência, eles declaram que todos ali são companheiros e se referem à prisão toda como "o coletivo". E isso é baseado numa história real.

Acho que foi isso que me conquistou, no final das contas. O que me leva, também, à parte que mais gostei no filme, que é quando o Jorge leva uma surra dos guardas no corredor entre as celas, e todos os prisioneiros começam a bater nas portas com as canecas e as mãos, com um coro conjunto de "Solta o cara, porra, solta o cara!". Essa energia tribal é que me fascina. Uma luta, um ideal, um objetivo em conjunto. Revolução. Mudança. Igualdade. Liberdade. Revolução, revolução, revolução.

Essa palavra que a gente tanto ouve nas aulas de história faz um efeito diferente em mim. Traz uma espécie de excitação, uma energia anormal, algo que brota e cresce o tempo todo na minha alma e que eu nem sei direito o que é. Tem gente que diz que o mais bonito é morrer por amor, mas, para mim, a beleza está em morrer por um ideal. Morrer por algo não palpável, que pode jamais vir a se realizar. Morrer por um bem maior. Morrer por gente que você não conheceu e nem virá a conhecer. Morrer por tudo que você viveu, por tudo que você passou. Morrer para mudar algo. Morrer porque você se recusou a desistir.

Tem gente que despreza essas tentativas. Tem gente que acha tolo, inútil, uma utopia. Mas eu só tenho olhos para os que não acharam - para os presos do coletivo do presídio da Ilha Grande, para Harvey Milk, para Fidel Castro, para Voltaire, para Joana D'arc. Para aqueles que criticaram o mundo. Para aqueles que tentaram mudá-lo. Por mais que tivessem várias opiniões erradas, por mais que possam ter recorrido à truques baixos, por mais que possam ter falhado em vários aspectos, eles fizeram algo.

Acho que eles entenderiam essa sensação, às vezes. Essa vontade de fazer algo. De mudar algo. Fome de revolução. Às vezes essa vontade se apossa de mim de um jeito tão intenso que não sei sequer o que fazer para me livrar de toda essa energia. Nessas horas, eu lembro de uma das últimas cenas de Capitães da Areia, e só o Jorge Amado me entende, através dos atabaques que ressoam como clarins de guerra, da primavera da luta, "a voz da revolução chama Pedro Bala".

Será que é pretensão dizer que a ouço também? A voz da revolução, a voz da guerra. Tem uma causa me chamando em algum lugar - ou duas, ou três, ou milhares. Quero lutar por todas elas. Gostaria de morrer por todas elas, também - mas só se morre uma vez, então vou ter que dar um jeito de continuar viva.

Essa sensação não é coisa de hoje. Eu a tenho desde pequena. Ela me atormentava constatemente, junto com uma pesada impotência que uma menina de sete anos não deveria sentir. Até que, um dia, eu perdi a cabeça e desabafei tudo com a minha mãe, chorando, porque o mundo estava horrível e eu não podia fazer nada. E ela não mentiu pra mim, não disse que o mundo estava bem sem a minha ajuda. Ela me disse para crescer. Ela me disse para aprender tudo que eu podia por enquanto, para sentir toda a raiva que quisesse agora, para crescer o máximo que pudesse internamente e então, fazer algo.

E é o que estou fazendo. E eu espero nunca perder isso. Não quero jamais me deixar seduzir pela indiferença, de jeito nenhum: Preciso da raiva e da sensação de injustiça para ouvir essa voz. Essa voz que levou tanta gente à morte. Preciso de todas as minhas emoções para não começar a olhar para eles e taxá-los de tolos. Para continuar a encará-los sem pena, sem tristeza, e ainda pensar que é assim que eu quero ser.