domingo, 28 de junho de 2009

Um pouco sobre amor

Tem gente que sabe amar. Não que isso seja uma grande habilidade, a princípio - porque todo mundo sabe amar, mas tem gente que não ama direito. Tem gente que ama demais, com uma intensidade tão grande e a tantas pessoas diferentes, que se torna incompreensível e assustadora (e acaba ouvindo um "desculpe, não posso" a cada vez que tenta entregar seu amor a alguém). E tem gente que ama pouco - são aqueles que escolhem com cuidado, com extrema cautela, até encontrar alguém que seja merecedor (e às vezes não encontram ninguém). Mas os piores, mesmo, são aqueles que amam em segredo - aqueles que amam tão intensamente quanto o primeiro tipo, mas não sabem o que fazer com isso.

Mas como não amar em segredo? É fácil dizer que ama quando tem todos os fatores a seu favor. Alguns podem perguntar "que fatores?", mas a verdade é que eles existem. Conheça o seu amor. Toque-o. Compreenda-o. Faça-o feliz. E tantas, tantas outras coisas. O que acontece se você não consegue fazer nenhuma delas? Aí você não ama. Você pode sentir dor e adorar e decorar da traço da essência daquela pessoa, você pode pensar nela muito mais vezes do que o aconselhável, você pode chorar por ela. Mas você não a ama, porque foi assim que decidiram. Porque o mundo inventou um jeito certo de amar e você não se encaixou nele.

E aí, pra quem você vai contar? Quem é que vai saber como é? Quem é que vai entender? Você mesmo não entende. Como é que se faz pra amar alguém que não conhece? Como é que se faz pra se apaixonar através de palavras? Como se conta isso pra alguém? Como se faz que os outros acreditem em você?

Tem gente que ama errado.

domingo, 21 de junho de 2009

A arte da supervalorização

Começou no quarto dia. Eu lembro. Por causa de um livro (sempre é por causa de um livro).

O nome dele era "Sua resposta vale um bilhão" e tinha inspirado o filme Slumdog Millionaire, que eu amei. Então, quando vi aquele garoto da minha sala com o livro na mão, só faltei implorar pra ele me emprestar. Fui atendida. Não lembro quantas páginas tinha, mas eram muitas. Não para mim, mas para os outros. Por isso, no dia seguinte, quando abri o livro no intervalo e faltavam só umas vinte, todo mundo se surpreendeu. E todo mundo perguntou, e um deles disse: "Tu gosta de ler?". E eu disse: "Gosto".

Começou aí.

Ler os livros que a professora mandava, no prazo certo? A Fernanda lia. Frequentar a biblioteca, no mínimo um livro por mês? A Fernanda frequentava. Debate, ninguém sabia o que perguntar? A Fernanda falava. Dever de português, surgia alguma dúvida? A Fernanda respondia. Trabalho em grupo, tinha que escrever algo? Deixava com a Fernanda, ela fazia. Porque a Fernanda é inteligente, diziam. Porque a Fernanda gosta de ler.

Pra ser honesta, isso nunca me incomodou. De verdade. Eu estou acostumada, e até considero um elogio, às vezes. Foi assim desde sempre, desde pequena, na quarta série, implorando pra coordenadora me deixar usar a biblioteca de escola, que só os do ensino fundamental podiam frequentar. "Por que, afinal?" "Porque eu gosto de ler". Lá, pelo menos, as pessoas já sabiam, e não havia muito choque. Sendo honesta, eu tinha até esquecido como era a reação usual, mas agora lembro direito: Olhos arregalados, a expressão de espanto, "caraca" ou derivados.

O engraçado é que as pessoas precisam de uma demonstração prática para reagirem assim, na maioria das vezes. Não basta responder "ler" se a pessoa te perguntar o que tu gosta de fazer, você tem que ser flagrado com um livro de mais de duzentas páginas aberto em cima da mesa. Aí, sim, vem a pergunta cabalística, que sempre recebe a mesma resposta: "É que eu gosto de ler".

E então vem o que eu não entendo. Os elogios. O tom de orgulho na voz dos mais velhos; o assombro na voz dos da minha idade. "A Fernanda é inteligente. Ela gosta de ler."

Eu não sei, de verdade, quando gostar de ler se tornou um elogio. Na verdade, não sei nem quando se tornou uma característica. Mas deve ser, né, já que, atualmente, dizer que gosta de ler é o equivalente a dizer que está dando continuidade às pesquisas Albert Einstein sobre o universo. Sério, você vira uma espécie de ícone. As pessoas começam a achar, sei lá, que o fato de você ter lido Harry Potter todo te garante 300 pontos de Q.I ou algo assim.


Tudo gênio.

Certo, não vou negar que no início é divertido. Dá uma calibrada no ego, é claro. Mas a pergunta que não quer calar é por que diabos valorizam tanto?

Vou ser honesta com vocês: Eu gosto de ler. Gosto muito. Mesmo. Pode me trancar em casa numa tarde de sábado com um livro de quatrocentas páginas, eu vou achar um programão. E isso já vem de anos. Desde pirralha eu já "desperdiçava" as minhas férias devorando os livros de Monteiro Lobato, Pedro Bandeira, João Carlos Marinho e o que mais caísse nas minhas mãos. A diferença, entretanto, é que considerava isso perfeitamente normal. E se, por algum acaso do destino, começasse a me achar melhor que os outros por causa disso, minha progenitora sempre tratava de me colocar no meu devido lugar ("Mesmo, Fernanda? E José de Alencar, Dickens, Tolkien, Kafka, Àlvares de Azevedo? A grande leitora nunca experimentou nada deles?").

Todo mundo que lê muito deveria ter alguém assim, na real. Porque, falando honestamente, uma boa parte das pessoas que gosta de ler são muito chatas. São os chamados pseudo-intelectuais, que, em sua condição de raça mais insuportável do planeta, um dia ganharão um post só pra eles aqui. São aquele tipo de pessoa que "ama ler" e que ama ainda mais ler somente grandes clássicos, só pra jogar na cara de todo mundo que nunca leu. Eles vivem de meter o pau em que não lê, chamar de burro, ignorante e whatever - mas, se virem alguém lendo Paulo Coelho ou Meg Cabot, já descartam, chamando-o de seguidor de modinhas e fútil. E depois ainda tem coragem de reclamar que "a sociedade lê pouco".


Na boa, com esse tipo de rótulo, eu me pergunto porque diabos um ser humano tentaria ler qualquer coisa, pra começar. Sério, do jeito que falam, parece que ler é uma DÁDIVA DOS DEUSES, concedida a poucos. Que fique bem claro: Qualquer um que saiba o alfabeto e tenha prestado atenção nas aulas de português do C.A. pode ler qualquer coisa. Inteligência e leitura NÃO caminham de mãos dadas. No máximo, acenam de vez em quando uma pra outra - e, mesmo assim, à distância. Falando sério, o que eu já conheci de imbecil que lia muito não tá no catálogo. E algumas das pessoas mais brilhantes que eu conheço não gostam de ler.

O pior é que os outros não veêm o quanto essa valorização excessiva desencoraja. Para exemplificar, é como ir passar as férias no Havaí, e descobrir que estão dando aulas de surf por lá. Você nunca surfou, mas quer experimentar, porque parece divertido. Mas aí, quando você vai se inscrever, algum morador local começa a te falar sobre como surfar é difícil, sobre como precisa de equilíbrio, como precisa de bom preparo físico, como aquela área é infestada de tubarões, etc. E aí, você faz a aula? Claro que não. Você fica tomando sol, que parece bem mais seguro e menos arriscado.

Com a leitura é assim também. Eu sei disso, porra. Quando você não é excluído (e isso é um outro extremo, que não vem ao caso agora), você é exaltado. Te usam como exemplo pra falar dos outros ("Por que você não é tão culto quanto a Fernanda? Veja o quanto ela lê, você não lê nada."). Se você deixa de fazer algo, é um completo choque ("Mas como assim VOCÊ não sabe a matéria?!"). Agem como se você tivesse que gostar de todos os livros do mundo ("Nossa, se VOCÊ não gostou, deve ser mesmo ruim!").

Pois bem, o que eu quero dizer é simples: Isso é pura babaquice. De verdade. Ler não te faz mais inteligente. Ler não te faz escrever bem (no máximo, melhora a sua capacidade gramatical e de estruturação de textos. Agora, escrever bem, não). Ler não te faz se dar bem na escola, ler não te faz ter responsabilidade com as suas coisas, ler não acaba com as suas espinhas, ler não faz nada disso.

Mas ler é legal.

Eu juro. É legal. É divertido, é engraçado, é bom pra deixar de pensar, dependendo do livro que você escolher. As pessoas dizem que a primeira função dos livros é ensinar. É a coisa mais imbecil que alguém pode dizer, não deêm atenção! Livros são um meio de entretenimento como qualquer outro, como músicas ou filmes - e, como os outros, tem a mesma função: Entreter. Se o livro cumpre essa função, não há porque ser desprezado. Alguns dos livros que eu mais gosto não tem nenhuma lição de vida ou palavras difíceis, mas continuam me agradando. "Confissões de uma banda", "Garoto encontra garota", "O Santinho", "Gossip Girl", todos da Thalita Rebouças, todos do Pedro Bandeira. E aqueles livrinhos adolescentes estilo "Diário de Fulana", porra, eu adoro! Os da Liliane Prata, então, são os melhores.

O que? Pensou que eu só lesse grandes clássicos da literatura mundial? Cara, deixa de ser idiota. Não é porque você gosta de música que eu vou achar que você só ouve Mozart dia e noite, né? Francamente. Pela vigésima vez, o fato de eu gostar de ler não quer dizer que eu seja mais inteligente que você. Eu sou, claro, (8D) mas isso não tem nada a ver com a leitura.

Então, termino esse post com um apelo desesperado: Não mistifiquem a leitura, gente. Ela não é só coisa de intelectual e de "gente culta", e ela não faz de ninguém melhor do que ninguém. Tirem os livros desse pedestral, porra, porque está ficando cada vez mais difícil alcançá-los.