sexta-feira, 29 de maio de 2009

Tipos de pessoas

Eu tenho o péssimo hábito de decorar citações e diálogos que me interessam e depois esquecer de quem são. Entre os milhares que tenho na memória, tem uma frase em particular, que sempre me fez refletir. A frase era: "Existem dois tipos de pessoas no mundo: As que dividem o mundo em dois tipos, e as que não dividem".

Sendo honesta, eu não lembro de onde tirei isso, não sei se é uma frase conhecida, não faço idéia. A única coisa que eu sei é que não foi de minha autoria, e que ela me fez pensar, por um tempo. Quantos "existem dois tipos de pessoas no mundo" a gente não ouve o tempo todo? Eu, pelo menos, conheço vários. É verdade que nem todos são sérios, mas, mesmo assim, existem.

Por um longo tempo, achei que fosse sinal de mente fechada. Sabe, colocar as coisas em dois pontos certos. Sempre achei que isso fosse tolo - a verdade sempre tem dois lados, ninguém é igual a ninguém, vivemos num mundo de cinzas, etc. Mas, observando as pessoas com que eu convivo, acabei concluindo que é possível, sim, dividir a humanidade em dois. Não por cor, sexo, religião, opinião sobre chocolate ou whatever, mas pelos pensamentos. Sim. Eu acredito que, há milhares de anos atrás, quando nossos ancestrais desceram das árvores, os seres humanos se diviram em dois tipos: Os que se perguntaram "Por que fizemos isso?", e os que se perguntaram "E agora, o que eu vou comer?".

Pode parecer bobo (e sim, eu sei que nós ainda não éramos capazes de formular pensamentos claros na época), mas é a verdade. Digo, dê uma olhada ao seu redor. Quantas pessoas ficam mergulhadas em pensamentos tipo "Por que eu não fiz diferente?", e quantas pensam "E agora, o que eu faço?"? Você não vai achar ninguém que não se encaixe em nenhum dos dois, porque essa é uma questão sem meio-termo, a meu ver. Nunca conheci alguém que fizesse parte de uma terceira categoria, diferente das que formulei: As pessoas e-agora e as pessoas por-que.

"Mas qual é a diferença, Fernanda?"
É simples, meu caro: As pessoas e-agora olham para frente. Elas lembram do que aconteceu e podem até se ferirem por causa disso, mas elas seguem em frente. As pessoas por-que não.

É como estar andando por uma estrada e, de repente, tropeçar numa pedra e ralar o joelho. A pessoa por-que vai chorar, xingar, chutar a pedra pra um canto, se perguntar por que não tomou outro caminho e por que essas coisas sempre acontecem com ela. A pessoa e-agora vai xingar mentalmente um ou dois palavrões, e talvez até grite alguns. Ela vai ficar com os olhos marejados, mas vai engolir o choro. E vai levantar e continuar andando, porque ela sabe que, se ficar por lá, não vai conseguir um curativo nunca.

Eu sempre tive uma grande admiração por pessoas e-agora. Mesmo quando ainda não tinha chegado a essa conclusão, elas sempre se destacaram aos meus olhos. Não gosto muito da expressão brilhar, mas acho que é o que explica melhor. Elas sempre me pareceram diferentes dos demais. Mesmo assim, eu não posso evitar o fato de que sou uma pessoa por-que.

Não que ser uma pessoa por-que seja ruim, é só mais difícil. Quero dizer, em algum momento, a pessoa por-que vai parar de chorar, se levantar e continuar andando. O problema é que, quando ela fizer isso, a farmácia já vai ter fechado e não haverão mais curativos. E ela vai ter que esperar o arranhão cicatrizar sozinho, e isso sempre demora mais. Os meus sempre demoraram. E o pior é que eu caio com qualquer pedrinha, qualquer cascalho que acabe no meu caminho. E, com o tempo, eu acabo com tanta certeza de que vou cair que começo a desviar de toda pedra que encontro.

E eu esqueço. Não só de como é cair, mas também de como é se levantar.

Pode parecer estranho citar isso aqui, mas sei que existem milhares de pessoas como eu. E essa é outra diferença. As pessoas por-que, com o tempo, param de cair. E as e-agora caem tantas, mas tantas vezes, que aprendem a se levantar cada vez mais rápido.

Não que refletir sobre as coisas te faça uma pessoa por-que. Na verdade, na maioria das vezes, é complicado definir. Às vezes, pessoas por-que se tornam pessoas e-agora - não naturalmente, mas por esforço próprio. E, às vezes, pessoas que aparentam ser completamente e-agora acabam se revelando pessoas por-que. É como se a pessoa fosse capaz de passar horas estirada no chão quando está sozinha, mas, se alguém está observando, ela levanta em cinco segundos. Mas nem sempre alguém e-agora é extrovertido e cheio de amigos, e nem sempre alguém calado e sério é uma pessoa por-que. Não é uma questão do que você é, mas da maneira como você lida com o que a vida faz disso.

Eu estou em processo pra me tornar uma e-agora, no momento. E não sei bem se estou conseguindo, mas eu tô tentando. Porque eu não me importo mais em cair. E porque, de qualquer modo, uma ou outra cicatriz nova não vai fazer tanta diferença.

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Para voltar a acreditar no mundo

"Em 27 de dezembro de 1904, o escritor e dramaturgo James Matthew Barrie estava consideravelmente nervoso. Era a primeira vez que a peça "Peter Pan" seria encenada ao vivo, diretamente para o público-alvo do texto original - os adultos. Uma cena, em particular, preocupava todo o elenco. Era um momento em que a personagem Tinkerbell (ou "Sininho") estava prestes a morrer, e Peter Pan dava uma deixa à platéia, pedindo que aplaudissem. Mas, para surpresa dos atores, todos os homens que estavam ali presentes aplaudiram de pé naquela noite.

A deixa era "Aplaudam aqueles que acreditam em fadas"".

Às vezes, só um pouco, eu ainda acredito na humanidade. Só um pouquinho.

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Masoquismo

Ontem eu fui num evento de anime. Vocês conhecem o tipo - duas horas na fila mesmo depois de ter furado, num sol infernal, para ver cosplays mal feitos do L e do Raito num palco cantando a versão traduzida de If You Were Gay. Em suma, coisas que humanos normais jamais poderão entender.

"Se você for gay... Eu vou dizer, ok!"


Mas não foi apenas isso. Muito embora a maioria das pessoas não saibam, e eu mesma só tenha chegado à esta conclusão recentemente, o fato é que: Otakus vão para os eventos de anime para se torturarem. Ou, para ser mais precisa: Otakus POBRES vão para os eventos de anime para se torturarem.

Sério. Aquilo é sadismo puro. Camisetas, acessórios, miniaturas, bottons, imãs de geladeira, chaveiros, DVDs, jogos de playstation. E, claro, o pobre otaku rodando no meio disso tudo, tentando, em desespero, decidir aonde gastar a mesada que ele tão dedicadamente guardou para tal acontecimento. É de dar pena, de verdade. Posso imaginar os vendedores após o evento, alegremente conversando e rindo horrores de nosso sofrimento ("E quando eu disse quanto a miniatura custava? Você TINHA que ter visto a cara dela...").

"Mas então, por que ir?" Ora, não tente compreender, pobre mortal! É quase uma necessidade passear entre os milhares de estandes de coisas que você jamais conseguirá comprar e levar de lá, no máximo, um ou dois brindes mais baratos - mas esses são TROFÉUS, conseguidos arduamente através do seu próprio suor, meu caro gafanhoto! Levante a cabeça! Abandone os lamentos por novamente não ter conseguido comprar uma camiseta com o shanringan e orgulhe-se do seu imã de geladeira do Itachi! A camisa nem era tão bonita assim. Aí, lógico, um pirralho de quae meio metro de altura passa saltitante ao seu lado usando exatamente a mesma camisa e você tem que se controlar pra não ter uma síncope nem virar um assassino de crianças ali mesmo, mas faz parte.

Ou então, como no meu caso esse domingo, você não é pobre. De jeito nenhum! Você é parte da Elite, parte do grupo altamente seleto Daqueles Que Guardaram Dinheiro. Não há camisa do sharingan que te segure - você se sente capaz de comprar O EVENTO e levá-lo para casa num saco plástico, se assim desejar. Os vendedores são seus servos e os estandes, seus reinos particulares, de onde você pode levar absolutamente tudo que quiser. E então, rodopiando feliz em um mar de gente usando roupas de gosto duvidoso, você o vê.


Bem diante de seus olhos.

Você pára. De andar e de respirar. O que acontece a seguir é uma sincronia mágica única no universo, e você sabe, de repente, que aquela não é uma simples miniatura, aquele é um Presente dos Deuses, enviado dos Céus diretamente para as suas mãos, você, como uma recompensa por todos os seus dias de sofrimento e horror neste lugar de gente louca que é a Terra. O pagamento que você deve efetuar não passa de mera formalidade, pois ele já te pertence. Após todos esses anos procurando incessantemente por garage kits bons do Zoro em eventos, você finalmente encontrou. O produto dos sonhos. Você se aproxima do estande, tremendo de emoção.

O vendedor, abrindo magnificamente suas asas brancas como o Anjo que é, pergunta se você gostaria de dar uma olhada. Sim, sim, você gostaria! No do Zoro? Siiiiiiiiim!

Você o examina, ainda tremendo. Não é apenas o Zoro, é o Zoro usando as roupas da sua saga favorita. Definitivamente, foi feito para você. Você merece! Não olha o preço, lógico (que tipo de idiota sem mágica no coração faz isso?), apenas o admira, com cuidado para não deixar impressões digitais. Se prepara para colocá-lo com cuidado na mochila, arrajando espaço entre os outros produtos adquiridos... Mas, ah, é claro, você tem que pagar! Olha para o vendedor, que sorri meigamente da sua reverência diante do Tesouro. "Quanto custa?" Pergunta, meio distraída, já pensando em qual canto da sua escrivaninha ele ficará melhor. E ele responde...

"Cento e vinte reais."

Você treme. Você sente o chão se abrir aos seus pés. "...Q-quanto?", você gagueja, com o pânico escorrendo por cada sílaba da palavra. "Cento e vinte reais", repete o vendedor, com suas asas de Anjo rapidamente perdendo as penas e transfigurando-se nos chifres do Demônio. Em desespero, você procura nos seus bolsos, para o caso de alguma nota de cem reais tiver magicamente materializado-se lá dentro, mas é inútil. Você não tem como pagar. Se isso fosse um filme, o vendedor se comoveria com sua condição digna de pena e faria pela metade do preço, mas esta é a vida real - e, quando você observa com pura desolação o Tesouro pela última vez, o filho da puta ainda RI da sua cara!

Não há palavras de consolo para um momento como este. Nenhuma. Se você fosse, sei lá, um cara com três metros de altura por dois de largura, ainda poderia rosnar ameaçadoramente para fazer o vendedor baixar o preço, mas você não é (e sabe-se lá o que um cara assim ia querer com uma miniatura do Zoro - sem ofensas). Então, sem outra escolha, você apenas deposita a miniatura de volta na mesa, pensando em como o mundo é injusto. Mas o bom de evento é a quantidade de distrações que aparecem: Em pouco tempo, você se esquece do produto perdido, se anima com os cosplays, compra outras coisas, se diverte com seus amigos e... Dá de cara com um filho da puta de camisa do Hitsugaya, naquele mesmo estande, COMPRANDO COM A MAIOR CARA LAVADA O (SEU!) TESOURO!


Concluindo, eu sou contra toda essa parada de igualdade e de sermos pessoas normais: Vida de otaku é uma merda. E tenho dito.

(E prometo que o próximo post será sério. Prometo)