quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Made in Brasil

Certa vez, estava fazendo um trabalho de classe com alguns amigos. Enquanto fingíamos fazer o dever, por algum motivo, a conversa acabou rumando para livros, filmes e músicas brasileiras. Nisso, um dos meus melhores amigos comentou: "Pra ser sincero, eu não gosto muito de nada que venha da cultura brasileira...". Abri a boca pronta para protestar, mas um outro garoto que estava conosco sintetizou meus pensamentos numa frase. Ele disse: "Cara... Vai se foder."

Ou "Vitória Épica", se assim preferirem.

Eu acho engraçado a maneira como as pessoas encaram a palavra "brasileiro" hoje em dia, quando ela vem depois das palavras "livro", "filme" ou "música". Vocês já repararam? A reação costuma se dividir em dois extremos: Os que fazem careta e dizem "OMG ISSO VAI SER RUIM PRA CARALHO!1!", e os que batem palmas e dizem "OMG ISSO VAI SER BOM PRA CARALHO!1!".

Não serei hipócrita: Sei bem que, se tivesse que escolher algum, eu provavelmente estaria no segundo tipo, mas também sei que não me encaixo exatamente em nenhum dos dois. É que eu honestamente NÃO ENTENDO isso. Primeiro que dizer: "Não curto a cultura brasileira" é, por si só, uma arrogância sem tamanho, porque, na tua condição de ser humano normal, é óbvio que você não conhece nem um terço de todos os produtos dessa cultura. Claro que isso também não te obriga a dizer "Amo a cultura brasileira", mas qual a dificuldade de entender que isso não deveria ser um fator relevante? Quer dizer, o fato de um livro/filme/música ser brasileiro não faz dele ruim ou bom, faz dele... Brasileiro. Oras. Desde quando qualidade e nacionalidade viraram sinônimos?

Tem gente que argumenta que é sempre o mesmo tema. Em se tratando de filmes brasileiros, por exemplo, muito gente reclama que eles só falam de favela, tráfico e tiroteio. Pois bem, normalmente o pessoal responde falando o óbvio. Tipo: "Errr... Não é querendo te ofender nem nada, colega, mas é a realidade, sabe?". Ao que todo mundo replica de imediato: "É, mas não é só isso". É um argumento válido, se não fosse pela forma como esse pessoal se contradiz. Eles reclamam do retrato "pobre" do país e tal, mas desde que essa novela nova estreou, essa tal de "Viver a Vida" (que nunca vi), o que eu mais ouço é que todo mundo na novela é rico e isso é uma representação irreal do Brasil. Mas então o que é uma representação fiel, afinal? Devemos exigir um filme de classe média, então? Opa, mas a gente também está metido no tráfico, não? Assim fica difícil.

O pior é que esse preconceito interno prejudica a representação internacional do Brasil, também. Outro exemplo: Pra meter o pau no cinema brasileiro, ultimamente, outro grande argumento é que nós nunca ganhamos um Oscar. Não vou nem entrar na moral da falta de verba e divulgação, porque isso não justifica totalmente. Mas que tal pensar no seguinte: Toda essa paranóia com a "imagem brasileira" inibe a demonstração da cultura em caráter mundial. Foi por isso que "Tropa de Elite" não foi o enviado do Brasil pro Oscar, oras! Preferiram mandar "O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias", um que tinha mais "cara de Oscar", e claro que não deu em nada. Pessoalmente, não vi nenhum dos dois, de modo que não posso julgar em termos de qualidade - mas, convenhamos, o próprio Oscar não se importa muito com isso. Eles julgam mais pela visibilidade do que qualquer outra coisa. E alguém acha mesmo que, independemente do fato dos filmes serem bons ou ruins, o sucesso desses dois é comparável? Aliás, falando francamente, alguém tinha sequer ouvido falar do "Ano" antes de sair a notícia de que tinha sido mandado pro Oscar? Eu não tinha. Agora, se existir alguém nesse país que não conheça o Capitão Nascimento, eu como minha mão esquerda.

"Não me conhece? NÃO ME CONHECE, FILHO DA PUTA? PEDE PRA SAIR, PORRA!" - Ok, não resisti.

Em matéria de música, o povo é ainda mais taxativo. Para eles, música brasileira se divide entre funk e samba - e ambos os gêneros são classificados como merda. Eu acho engraçado que esse povo que fala do funk não se preocupa em conhecer as raízes da música, e duvido que qualquer um deles saiba que, no início, o funk brasileiro era um estilo revolucionário, cujas letras protestavam contra a violência e a pobreza nas favelas. A sexualização e vulgarização das músicas é um fenômeno recente, não característico do estilo em si. Mas claro que ninguém perde tempo tentando se informar sobre isso, só eu. O povo se limita a ouvir Créu e Adultério e encher a boca pra falar que música nacional não presta. Esse pessoal nunca ouviu Cazuza e só conhece Legião Urbana de nome, mas se acham no direito de falar mal mesmo assim, porque desprezar é cool.

Acho que só na literatura que o preconceito é um pouco menor. Quer dizer, achava. Tanto que, quando a Pam postou sobre literatura brasileira no "E tudo o mais", achei ótimo, mas pensei que ela estava exagerando um pouco. Isso até chegar no msn com uma amiga, comentar que estava relendo "Capitães da Areia" pela décima vez, e ouvir como resposta que ela não conhecia o livro. Diante de meu choque, ela emendou: "Não leio literatura brasileira". Assim, cheia de orgulho, mesmo. Fiquei ainda mais chocada quando descobri que se trata de uma postura comum. O único brasileiro que, aparentemente, é poupado desse tipo de julgamento é Machado de Assis, talvez porque nem mesmo os pseudo-intelectuais mais radicais tenham coragem de mexer com gente grande de verdade. Ou talvez seja apenas porque ele acabou ganhando a fama de "exceção" da literatura brasileira. Vamos e convenhamos: Tem gente que acha que o nosso movimento literário começou e terminou com Machado. E, em vez das escolas darem um jeito nisso, só mistificam o cara ainda mais. Não que ele não tenha sido foderoso, mas ele não foi o único e seria legal se as pessoas parassem de colocá-lo, sozinho, num pedestral. Engraçado que a maioria dos que fazem isso sequer leu realmente alguma coisa dele - e, os que leram, leram Dom Casmurro.

Acabei de notar que, em sua maioria, as pessoas que fazem isso também são os meus queridíssimos pseudo-intelectuais, que já mencionei antes no meu post sobre supervalorização da leitura (e no das cinco coisas aleatórias que me irritam - sim, eles são os que se dizem fodas). Não consigo acompanhar o raciocínio desse povo tr00, realmente. Será que não dava pra simplesmente não ligar pra isso? Tem tanto livro brasileiro foda, tem tanto livro brasileiro ruim; tem tanto filme brasileiro bom, tem tanto filme brasileiro de merda; e pra cada Cazuza que existir vai haver um Cine. E daí, porra? Será que uma pessoa não pode avaliar algo independentemente do autor ser carioca ou não? Não estou dizendo para idolatrarem a cultura brasileira, galera. Apenas parem de rotular.

Nesse exato momento, estou ouvindo "Pais e Filhos", do Legião. Antes, estava ouvindo "We Are the World", do Michael Jackson e uma porrada de outros cantores, como Stevie Wonder, Diana Ross, etc. Esse mês, li "Felicidade Clandestina", da Clarice Lispector, e "Os Trabalhadores do Mar", de Victor Hugo. Revi "Pocahontas" ontem e estou à procura de "Do Começo ao Fim" para baixar. Alguém se arrisca a traçar um padrão?

Eu ajudo: Coisas de que gosto. Simples assim.

domingo, 6 de dezembro de 2009

To be

Ontem fui ver 2012 no cinema. Não é um bom filme, na verdade, eu não gostei muito. Mas a minha recém-adquirida habilidade de pensar sobre coisas aleatórias no meio do cinema me fez entender uma coisa que me assustou um pouco. Tem gente que acha estranha a minha mania de procurar sempre ver o lado bonito dos outros, mas agora acho que eu entendi: É que estamos todos vivos. Todos, todos nós. E isso não é sequer algo bom - é assustador, é intimidante. Eu estou respirando agora e você também, e o presidente do país também, e o mendigo na rua também, e o pedófilo que está atacando uma criança agora também, e a criança que ele está atacando também. Estamos todos vivos. Em ritmos diferentes, em lugares diferentes, alguns mais e outros menos. Não interessa mais nada - a gente respira, e ponto.

Acho que é por isso que tenho estado tão Pollyanna ultimamente, vendo o lado bom de todos e tendo certa dificuldade em odiar. É que a pessoa que odeio está viva e eu também, e essa familiaridade me faz simpatizar com ela. Porque estamos. Somos. Respiramos. E isso basta.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Quero escrever,

quero, quero, preciso. Quero falar de umas paradas que andei pensando, mas elas parecem meio melancólicas demais; quero falar algo engraçado, mas parece meio bobo demais. Quero escrever algo que faça as pessoas pensarem, refletirem, rirem, chorarem e acreditarem. Quero escrever sobre como tem merda nesse mundo, sobre como tem coisas bonitas nesse mundo, sobre como as merdas e as coisas bonitas conseguem às vezes ficar tão próximas que você sequer saber a diferença entre uma e outra. Sobre mim, sobre gente que eu conheço, sobre gente que eu não conheço, sobre gente que eu ainda quero conhecer. Sobre tudo, sobre tudo. Acho que não existem palavras suficientes para todos os assuntos que eu quero abordar.

sábado, 7 de novembro de 2009

Dos Frutos da Terra


"Nossa literatura, e particularmente a romântica, louvou, cultivou, propagou a tristeza; e não essa tristeza ativa e resoluta que empurra o homem às ações mais gloriosas; mas uma espécie de estado frouxo da alma, a que chamavam melancolia, que empalidecia vantajosamente a fronte do poeta e lhe carregava o olhar de nostalgia. Havia nisso um tanto de moda e também de complacência. A alegria parecia vulgar, sinal de uma saúde demasiado boa e tola; e o riso enrugava desagradavelmente o rosto.

[...] Sim, sei que há nisso mais resolução do que abandono ao natural. Sei que Prometeu sofre acorrentado no Cáucaso, e que Jesus Cristo morre crucificado, um e outro por terem amado os homens. Sei que, único entre os deuses, Hércules traz na fronte a marca da angústia de ter triunfado dos monstros, das hidras, de todas as forças horríveis que mantinham a humanidade submissa. Sei que ainda há, e talvez haja sempre, muitos dragões a vencer... Mas há na renúncia à alegria algo da falência, de abdicação, de covardia."


E pensar que alguém que viveu há mais de cem anos me entendia, e que há pessoas que convivem comigo aqui e agora que simplesmente preferem não fazê-lo.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Pequeno conto com algumas verdades

A primeira coisa que ele fez foi sorrir. Fazia sentido, afinal de contas, estava sorrindo na foto, não? Mas não era bem um sorriso, era um sorriso-misturado-com-careta, daquele tipo que as pessoas riem quando alguém dá. Daquele que você dá quando tem um amigo do seu lado empurrando com força um chapéu multicolorido na sua cabeça – mas Carlos nem era seu amigo, era? Ele não lembrava, nunca fora grande coisa com memória. Mas lembrava da foto, sim, lembrava, tinham tirado no curso de teatro, não foi? Nossa, o curso de teatro...


A foto não era velha. Lógico, claro que não, como seria? Fazia só três anos. Como ele podia não lembrar do que acontecera há três anos? Mas agora, franzindo o cenho e forçando o cérebro, ele lembrava mais ou menos, sim. E reconhecia as pessoas da foto, claro, era Vanessa, era Carlos, e – claro – era ele. Lembrava, sim.Vanessa tinha tranças nos cabelos e armação de óculos vermelha, Carlos tinha piercing na língua e fama de viadinho. E ele, tinha o que? O cabelo escuro caindo pelos ombros, o aparelho nos dentes, as sardinhas na ponta do nariz... E o sorriso-careta, lógico. Carlos sempre ria quando ele dava esse sorriso em resposta a alguma piada de mau gosto, com aquela gargalhada escandalosa que ele tinha, apontando: “Aí, ó, ele tá querendo mais é me mandar à merda. Não é não, Alexandre?”. Não era tão engraçado assim, mas Carlos ria. Vanessa também, mas ela cobria a boca com a mão enquanto o fazia, envergonhada dos dentes grandes. Eles achavam Vanessa tão, tão feia. Todo mundo achava. Ela era pálida demais, magra demais. O cabelo castanho era bonito, mas ela o prendia em tranças, sempre. Era a única menina que ainda usava tranças no ensino médio. Era engraçada. Não tanto quanto Carlos, mas...


Interrompeu as lembranças, despenteando os cabelos agora muito curtos, ciente de que havia esquecido completamente do que começara procurando. Eram as anotações da última aula da faculdade, que estavam paradas a seu lado enquanto ele olhava a foto. Estudar Medicina era importante, mas olhar a foto também era, não? Fazia três anos, eles não tinham tirado nenhuma outra juntos. Eram da mesma sala e não se falavam, mas foram fazer teatro juntos, e nenhum dos três virou ator. Vanessa dizia que queria, que ia fazer Artes Dramáticas na faculdade, mas no fundo ele a achava feia demais para ser atriz, tadinha, era tão legal. Carlos não falava de futuro, cortava o assunto na hora, falava que não tinha idéia do que ia fazer, deitando apoiado na parede e cruzando as pernas, o cabelo louro caindo nos olhos. Carlos parecia mesmo viadinho, mas não achava que ele fosse mesmo, não, nem um pouco – mas, se fosse, o que importava? Ele tinha sido o primeiro a puxar um assunto, a falar algo que reunisse os três, a salvá-los daquele clima desconfortável de semiconhecidos.


Nunca passaram disso, é verdade: Andavam com grupos diferentes e nunca se aproximaram muito. Não eram amigos. Só que eram da mesma turma e seria estranho ficarem no mesmo curso sem se falarem. Se bem que ele e Vanessa sabiam conhecer outras pessoas aos poucos, na verdade, através de risadas, conversas longas e vários momentos. Só Carlos é que tinha aquela tendência a cercar os outros, abraçá-las pelos ombros e dizer que eram seus amigos quando era óbvio que não era verdade. Carlos era bem inconveniente – era engraçado, claro, mas isso não era desculpa: Vanessa era engraçada e respeitava bem o espaço alheio, e era tão divertida, por que tinha que ser tão feia? Mas era tão divertida, e era realmente boa em atuar, sabia imitar vozes e trejeitos tão bem que deixava a ele e a Carlos com uma certa inveja – não-declarada, porque não eram íntimos a ponto de se permitirem brigar. E, de fato, nunca brigaram. Riram juntos muitas vezes, também, mas nunca mais se viram. Não eram amigos, afinal.


Não eram amigos. Só que decidiram experimentar alguns acessórios do baú de figurinos uma vez, e tiraram uma foto. Não sentia falta deles, quando parava para pensar, só que já fazia três anos. Só que Vanessa amarrou um lenço colorido com pedrinhas brilhantes coladas no pescoço (“Nossa, gente, como isso é brega!” Ela dissera, rindo sem cobrir a boca), e Carlos vestiu uma cartola preta e prendeu um bigode com um elástico, e imitou um sotaque inglês tão engraçado. E ele riu mas parou depressa, quando eles mandaram que ele escolhesse. Não gostava quando eles mandavam assim, só porque eram mais soltos – não gostava de muita coisa neles. Só que Vanessa deu a câmera ao professor para ele tirar a foto, e Carlos tirou um chapéu de bobo da corte do baú e forçou em sua cabeça enquanto o flash reluzia diante de seus olhos.


Não eram amigos. Só que gravaram aquela lembrança nas mentes uma vez, e, no final, já que ela existia, significava algo, não?

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Uma bic preta


Era um senhor velho - muito, muito velho. A pele era morena, os olhos castanhos cansados, parecendo injetados, com linhas vermelhas que saíam da íris. Não chegava a mancar, mas andava de um jeito estranho, quase se arrastando. Parecia machucado, e talvez estivesse. Era do tipo que faria as pessoas mudarem de calçada se o vissem, especialmente alguém paranóica como eu. Mas, por algum acaso imbecil do destino, íamos atravessar a mesma faixa. Ele foi até o meio dela antes de o sinal abrir, gritando coisas ininteligíveis, e depois voltou. Tinha a voz gutural e grossa, como se tentasse dizer algo que não sabia direito como se falava.

Era um senhor triste - muito, muito triste.

Não sei porque não me afastei quando ele começou a falar. Ou a grunhir, na verdade. As pessoas ao meu redor se afastaram discretamente, com medo. Mas os olhos dele estavam tão, tão tristes. Ele parecia machucado, mas entendi que não era pelo jeito de andar, e sim pelo rosto. As rugas dele lembravam cicatrizes.

Talvez tenha sido só impressão minha. Talvez ele fosse drogado, talvez fosse louco. Mas parecia que sabia de algo, de alguma verdade tão avassaladora que você não conhece guardar para si mesmo, como se tentasse contar algo. Tentou contar para mim. E eu tentei, realmente tentei ouvir, mas os carros na nossa frente faziam um barulho alto demais e ele falava de um jeito muito confuso.

Em determinado momento, ele tirou algo do bolso e colocou na minha mão. Era uma caneta - uma bic preta. Do tipo que você encontra em qualquer loja. Do tipo que ninguém dá de presente para ninguém. Perguntei o por que, e ele fez um gesto negativo, falando mais alguma coisa. Entendi que queria a caneta de volta, e a entreguei. Ele falou mais alguma coisa antes de colocá-la no bolso, e eu perguntei mais uma vez o que era, me sentinddo terrível por não compreender. Mas ele apenas fez um gesto de "deixa pra lá".

E o sinal abriu e nós atravessamos e ele foi embora.

E eu me sinto mal.

Acho que o desapontei.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Rápido desabafo

E eu fico só calada ouvindo as pessoas reclamarem de que o romantismo está morto, de que tudo que os homens querem é uma bunda e um par de peitos gostosos, de que as pessoas só se importam com aparência agora, de que ninguém mais ama de verdade, etc.

E eu tento, realmente tento entender o lado delas. Mas aí eu lembro de quando eu falei que estava gostando de alguém que não conhecia pessoalmente e todo mundo me perguntou: "Mas como?" E me lembro da minha amiga que tinha medo de se declarar pro garoto de quem ela gostava desde os cinco anos, porque as pessoas costumavam dar risinhos abafados do fato de ela ser mais alta que ele. E de um grupo de garotas que falou "eca" diante de um casal de velhinhos trocando um beijo mais profundo do que um selinho na rua. E de uma porção de gente falando que determinado casal de determinado anime não poderia acontecer porque o cara era muito feio. E eu lembro de tudo isso e percebo que não, não é loucura minha.

Determinaram até a maneira correta de como duas pessoas podem se amar.

E determinaram baseados em que? Na felicidade de ambos os componentes do casal? Na compreensão mútua e companheirismo que um deveria ter para com o outro? No sentimento que os dois deveriam compartilhar? Não. Determinaram baseados no que é bonito de se ver.

E eu penso em como gostar daquela pessoa que eu nunca vi me fez bem, e em como é preciso um sentimento tão forte para gostar de alguém desde os cinco anos, e em como o casal de velhinhos parecia feliz, e acho que talvez eu seja muito cega ou muito estúpida, porque acho tudo isso muito bonito.

Mas que se foda.


Amem quem vocês quiserem, do jeito que quiserem, porque é disso que o mundo tá precisando.

domingo, 27 de setembro de 2009

Entre preconceitos não-declarados e hipocrisia

Nunca entendi direito aqueles que afirmam que "preferiam ter nascido em outra época". Quer dizer, entendo aqueles que falam isso apenas pela vontade de experimentar, assim como eu gostaria de ver como eram as coisas na Grécia Antiga ou de ter ido no festival de Woodstock. Agora, comentários como "nasci na época errada" ou "odeio a forma como as coisas são hoje em dia" são incompreensíveis para mim. Sério, parece que as pessoas realmente acham que os tempos em que uma mulher não podia usar uma saia acima do joelho ou começar a comer sem a presença do marido foram a época áurea da humanidade. Enfim, não é sobre isso que eu quero falar.

Não sou ingênua a ponto de achar que a nossa sociedade é perfeita. Na verdade, ela mal chega à classificação de aceitável, a meu ver. Afirmar que estávamos melhor na época em que negros eram chicoteados em público simplesmente pelo fato de terem levantado a cabeça e encarado um branco nos olhos é, no mínimo, bizarro. MAS, também, afirmar, como já ouvi alguns fazerem, que "preconceito não existe mais", é um absurdo completo. Lógico que hoje em dia ninguém mais algema um negro e declara-o sua propriedade particular, o que sem dúvida representa um avanço, mas o preconceito ainda existe, sim, NO MESMO NÍVEL daquela época.

Sim, no mesmo nível. Mas, atenção: Não estou falando de números ou estatísticas, mas sim da mentalidade individual de cada ser humano - ou seja, sei que o número de pessoas que têm preconceito contra as minorias diminuiu bastante de uns tempos para cá, mas o que estou querendo dizer é que, as que ainda têm, têm exatamente como as pessoas daqueles tempos.

Exagero? Não, não acho. É um fato. O preconceito ainda existe, tão forte como antigamente, embora em menor quantidade. Qual é, então, a grande diferença? A diferença é que não existe mais o preconceito declarado. Ou seja, não há mais gente que chicoteia negro em preça pública, mas gente que faz careta diante da idéia da filha apresentar um namorado de pele escura.

A situação te soa familiar?

Quer uma prova? Saia perguntando. Pergunte pros seus amigos, familiares e conhecidos se eles tem algum preconceito contra negros, homossexuais, mulheres, ou qualquer outro tipo de "minoria" (embora esse conceito seja errado em muitos pontos - no Brasil, por exemplo, já foi comprovado que a maioria da população é mestiça, não branca). DUVIDO que qualquer um deles responda que sim. O máximo que alguns podem chegar é a manifestar preconceito contra homossexuais, já que a discriminação desses últimos ainda não é completamente "condenada" pela mídia. Agora, racismo? Machismo? "Deus me livre, não sou disso não!"

Ué, mas, se todo mundo é assim tão mente aberta e livre de preconceitos, por que então os negros continuam a constituir a maior parte da população pobre e desempregada? Por que a gente ainda ouve casos de mulheres que deixam de ser qualificadas para um cargo só por serem mulheres? Por que ainda ouvimos histórias de um bando de adolescentes que decidiu juntar e dar uma surra em outro garoto só porque ele estava usando roupas afeminadas? Por que "gay", "crioulo" e "lésbica" ainda são considerados termos ofensivos? Coincidência? Obra de alguns poucos desajustados que ainda estão presos à estereótipos do século passado? Claro que não. O que ocorre aqui é o preconceito mascarado, o não-declarado, que muitas pessoas tem sem sequer perceber. É o que nos faz achar bonito um ditado que diz que "não se bate em mulher nem com uma flor", ao passo que o certo devia ser não bater em NINGUÉM nem com uma flor. É o que nos faz ficar surpresos quando um cara machão afirma que é gay, e resulta em comentários do tipo "nossa, mas eu nem achei que ele tinha jeito" - como se homossexuais TIVESSEM, de fato, qualquer traço em comum além da atração por pessoas do mesmo sexo. É o que nos faz achar natural e bonito favorecimentos para negros nas universidades, como se eles tivessem algum tipo de problema que os impedisse de se esforçarem como gente normal. Todo mundo tem algum preconceito desse tipo. As pessoas que não possuem são raríssimas, a maioria nem o tem conscientemente. Que diabos, EU já tive - e olha que ainda estou trabalhando para me livrar dele.

E não é pra menos: Somos criados com esse tipo de conceito na cabeça, com o conceito de que xingar um cara por ele ser gay não é legal, mas que também não é legal permitir que ele durma na sua casa ou que te abrace (se você for uma mulher, basta trocar "gay" por "lésbica" que tu vai entender). Daí que surgem pérolas do tipo falar que Forrest Gump é racista, só porque no filme tem um negro que morre. Detalhe que o negro em questão é um grande amigo do protagonista, uma pessoa muito importante para ele, e, apesar do Q.I. baixo (que é do mesmo nível do Q.I. do próprio Forrest, felizmente, se não com certeza iam reclamar disso também), ele é retratado como um personagem simpático e cheio de carisma, que deixa tristeza nos espectadores quando morre. Mas a moralidade falsa e hipócrita de Hollywood não devia nos permitir ver um negro sofrendo, não é mesmo? Assim como ela tenta nos fazer acreditar que não existem gays que não sejam amiguinhos, divertidos e sexualmente inofensivos. Ou mulheres que não sejam sensuais, independentes, inteligentes e capazes de lutarem por elas mesmas. Mas nem vou entrar na questão da manipulação da mídia aqui, isso é assunto para um outro post.

Essa nem tanto, né?

O terrível é ver como as pessoas sequer percebem isso. Usando a mim mesma como exemplo: Eu nunca me considerei uma pessoa racista. Nunca. Eu nunca achei que negros fossem remotamente inferiores a brancos nem nada do gênero. Nunca fui do tipo que fala "é preto, mas é bonzinho". Mas, no meu antigo colégio, só me lembro de ter conhecido três negros (não incluindo mestiços e mulatos nessa conta). Dois foram bons amigos meus, o outro eu só conhecia de vista. Pois bem, estudei durante onze anos lá. Não era uma escola pequena. Não era uma escola assumidamente preconceituosa. Pelo contrário, era considerada uma das melhores da cidade. E eu, que me dizia tão mente aberta, nunca tinha sequer notado a discriminação gritante que ocorria lá dentro, só notei quando a minha mãe me disse quando estava tentando me convencer a sair da escola (e foi um argumento que pesou bastante na minha decisão, devo confessar). Esses dias, entretanto, ao comentar com amigos que ainda estudam lá, recebi uma resposta assustadora quando eles afirmaram que acreditavam que isso era mais por coincidência do que por racismo por parte da direção. Coincidência. E vale dizer que não foi um grupo de imbecis ignorantes que me disse isso. Foi um grupo de pessoas inteligentes e sensatas, simpáticas na maior parte do tempo e que jamais hostilizavam ninguém por causa de qualquer diferença. E que realmente acreditavam que uma escola bem cotada, respeitada, grande e com centenas de alunos não teria negros por coincidência.

Não quero ofender nem magoar ninguém com esse post. Só quero fazer um apelo desesperado: Gente, por favor, revejam seus conceitos. Parem com esses desespero em negar uma coisa que na maioria das vezes é mais culpa da criação do que da própria pessoa. Procure teus preconceitos, encontre-os, e ELIMINE-OS de vez. Isso não precisa nem ser relacionado à raça, ao gênero ou à opção sexual. Se você acha que uma menina que pega três caras por noite é uma pessoa desprezível, reveja seus conceitos. Se você acha que não há nada de errado em ser gay mas jamais seria amiga de uma lésbica por medo que ela se interessasse por ti, reveja seus conceitos. Ter sido manipulado pela sociedade e ter um preconceito inconsciente não é motivo de vergonha, gente. Vergonhoso é ser hipócrita, fingir que não tem e continuar alimentando essa estupidez.

E por falar em hipocrisia... Que tal pararmos também com essa mistificação, com esse paranóia excessiva de "medo de ofender"? Certa vez, tava conversando com uma colega minha sobre Grey's Anathomy, e comentei que achava um dos médicos da série muito bonito. Ela me perguntou qual, e eu, já que não sabia o nome de ninguém, falei apenas: "Ah, aquele negão lá." Para minha surpresa, a menina arregalou os olhos e me encarou como se eu tivesse insultado o homem, acrescentando em seguida: "Ai, não fala assim!".

Julgue por si mesmo: Quem foi preconceituosa na cena, eu ou ela? Por acaso eu devia ter diminuído o fator de identificação, falando algo como "aquele cara de cabelo preto", ou pior, "aquele cara de olhos escuros"? Ou talvez eu devesse ter usado algum eufemismo, dito "aquele cara de cor", ou "aquele afro-americano"? Por que o termo "negão" devia ser tomado como ofensa? O cara é um negão gostoso da porra mesmo! Se eu chamo um cara de "branquelo", ninguém vai dizer que estou sendo racista, então por que o contrário devia existir? Agora as pessoas tem que ter vergonha de serem chamadas de negras? Como se fosse algo horrível ou pejorativo? É só a droga de uma característica física! Se uma pessoa pode falar "eu gosto de caras de olhos azuis", por que eu não poderia falar "gosto de caras negros"? Se você é do tipo que se controla antes de falar "negro" para descrever alguém, pode parar com isso, cara. Quem se irritar por isso é que demonstrando preconceito, não você. Aliás, se alguém quiser ver maneiras GENIAIS de satirizar o racismo, deêm uma olhada nesses vídeos do musical Hair. Tem a letra do primeiro aqui, também, se alguém não conseguir entender direito o que o Hud canta - compreensível, porque a música é bem rápida.

E esse tipo de hipocrisia nem se limita ao racismo. Exemplo? Experimente chegar na sua sala da escola e perguntar se alguém ali tem algum preconceito contra homossexualidade. No máximo, um ou dois vão falar que "não acham muito certo". Agora, tente perguntar se alguém ali é homossexual/já teve experiências/já teve vontade de ter. Na minha sala deste ano e do ano passado, pelo menos, sei que todo mundo ia negar. Aí vem a dúvida básica: Vocês acreditam mesmo que, num grupo de quase trinta pessoas, nenhuma delas nunca sentiu nem uma curiosidade com relação ao mesmo sexo? Ainda mais se forem adolescentes? Vocês acham mesmo que, aos catorze anos, alguém pode plenamente se considerar hetero, homo, bi ou o que quer que seja? Não pode. Por quê? Porque ninguém prevê o futuro, porra. Você não pode afirmar com cem por cento de certeza nem que vai estar vivo semana que vem, como poderia afirmar que vai gostar de homens/mulheres pelo resto da tua vida? Pode ser que aconteça, claro, mas que diferença isso vai fazer? Por que somos todos tão obcecados por essas definições?

Você gostaria de ter uma pulserinha dessas pra usar pro resto da vida?

E eu poderia falar de machismo, também (me preocupo um pouco quanto ao tamanho do post, mas foda-se, não criei isso aqui pra economizar caracteres mesmo). Esse é o que as pessoas mais gostam de acreditar que não existe mais - eu também pensava assim, até me deparar com exemplos reais e assustadores. Como o caso da menina que, inconsciente por causa de bebida, foi estuprada e filmada em Joaçaba em 2008 e chocou muita gente não pelo acontecimento em si, mas pelas reações absurdas de vários internautas, que queriam porque queria ver o vídeo do estupro, para "ver se foi mesmo culpa dos caras". E não foram um ou dois maníacos que vieram com essa, foram dezenas. E ainda arrematavam que a culpa era da menina, porque "quem mandou ela beber até cair?". Falaram que ela devia ter provocado os garotos, que "estupro por menor de idade não existe" (!), que nem virgem mais ela devia ser (o que o cu tem a ver com as calças?!), e daí pra baixo. O pior: Muitos desses comentários vinham de OUTRAS MULHERES.

Sim, isso mesmo. Porque, normalmente, é muito mais fácil achar mulheres machistas do que homens. Sério. O problema é que o machismo aí é não-declarado, como eu falei antes. É aquele tipo de mulher que despreza uma garota e a taxa de puta só porque ela fala de sexo sem tabus - mas, se ouve um cara falar as mesmas coisas, apenas sorri e revira os olhos como se dissesse "homens são assim mesmo". Eu estou até agora tentando entender no que o número de pessoas que uma garota pega por noite influi no caráter dela. E dizer que alguém "merece" ser estuprada só por causa disso, olha, chegar a DOER de ouvir, hein.

Eu vou falar algo bem direto pra qualquer cara que venha a ler este post: Colega, mesmo que uma garota tire toda a roupa e dance pelada na tua frente, você NÃO TEM o direito de forçar ela a transar contigo (embora eu duvide que alguma menina fosse fazer algo assim na frente de alguém que não a interessasse, mas enfim, não importa). Não me interessa se ela já tiver dado para mil caras. Não me interessa se ela já tive dado pra mil caras ao mesmo tempo. Não me interessa se ela já tiver dado em todas as posições imagináveis por um ser humano. Ela continua NÃO QUERENDO transar com você. E, sejamos honestos, quem pode culpá-la?

Machismo e racismo numa única imagem. Mandou bem, Desmotivado. (Y)

Vejam bem, eu não estou dizendo pra você, mulher, andar de camisola pela rua às três da manhã - bom senso é recomendável, claro, assim como cuidados básicos. O ponto é que esses cuidados não DEVERIAM ser básicos. Uma mulher deveria poder andar pela rua às três da manhã vestindo o que bem entender sem se preocupar que algum maluco tente atacá-la, mas sabemos muito bem que não é isso que acontece. Então, tudo bem, podemos até classificar a moça da foto e a menina de Joaçaba como imprudentes, mas chamá-las de vadias? De burras? Falar que "merecem mesmo" algo assim? É estupidez demais para um ser humano só.

Ainda tem muito mais coisas que eu gostaria de falar sobre preconceito de todas as formas, mas vou encerrar por aqui, mesmo. Espero que dê pelo menos para pensar um pouco a respeito, sei lá. E fica a dica (de novo): Reveja seus conceitos. Sério. Vai te fazer um bem sem tamanho, e às pessoas ao seu redor também.

Igualdade, galera. Igualdade. É isso que nos falta.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Pequena vontade

Acabei me lembrando dele, não sei por que. Ele não era meu amigo - na verdade, eu só o conheci por cinco dias, numa viagem. Acho que eu tinha onze anos. Ele fazia parte de uma turma que eu normalmente evitava, não por serem antipáticos, mas por me intimidarem. Mas lembro de ter gostado dele, porque ele era legal comigo - era do tipo que era legal com todo mundo. Fazia brincadeiras bobas o tempo todo. E olha que era de longe o mais velho dali: Fiquei chocada quando soube que ele tinha dezoito anos, não parecia. Tinha uma espécie de paixão infantil, também, por uma menina bonita dali, que tinha um namorado em sua cidade e não se interessou por ele. Mas ele não pareceu triste, apenas chateado - e continuou a brincar com ela, fazendo cócegas, piadinhas estúpidas, empurrando-a num balanço. Senti pena; achei bonito. Ri de várias zoações bobas que ele inventava, conversamos pouco e não ficamos amigos. Mas numa noite ele me disse que, no ano seguinte, queria sair do Brasil - ele ia estudar algo que eu não lembro o que, num país que eu não lembro qual, talvez Inglaterra ou os EUA. Era seu sonho, ele me disse, batendo no peito de um jeito idiota. Não cheguei a vê-lo de novo, não mantivemos contato. Mas lembrei dele esses dias, porque era do tipo que era legal com todo mundo. Do tipo que aos dezoito anos empurrava num balanço uma menina que não gostava dele, do tipo que batia de verdade no peito quando falava o que queria, do tipo que fazia piadinhas bobas e cócegas, do tipo que falava de sonhos.

Não sinto saudades dele, não nos conhecemos bem o suficiente para isso. Mas sei lá.


Tomara que ele tenha ido.

sábado, 5 de setembro de 2009

Sobre mim,

Ou sobre como o postsecret é foda.












Da voz da guerra

Há algum tempo atrás, na escola, tivemos que ver um filme chamado Quase Dois Irmãos. Era um filme brasileiro, passado na época da ditadura militar, e não agradou à muitos dos meus colegas. Sendo honesta, não era o tipo de filme que eu pegaria numa locadora, também. Mas queimei a língua, e não de um jeito bom, na verdade. Quase Dois Irmãos trata de dois temas que mexem comigo: A vida na prisão e a luta.


O "bem-humorado" é completamente infundado, mas vale a pena ver mesmo assim.


No fundo, mal sei dizer se gostei do filme. O que eu senti enquanto via foi uma espécie de angústia crescente e desesperadora, uma vontade de sair correndo daquela sala, de tampar os ouvidos e fechar os olhos para fingir que não estava vendo nada.

Eu não fechei.

Em vez disso, mantive os olhos bem abertos, sem perder um detalhe das cenas. Foi uma sorte que não tivéssemos tempo para ver o filme todo naquela aula, e a psicóloga que havia proposto a idéia pausou-o lá para perto da metade, dizendo que terminaríamos outro dia. Também foi sorte o fato de aquele ser o último tempo, porque eu não confiava na minha capacidade de voltar para a sala e agir como se não tivesse visto nada. Sentia como se fosse vomitar, ou desmaiar, ou cair em prantos em plena sala de vídeo. Ou todos os anteriores.

Parece exagero? É, entendo que você veja assim. Honestamente, não acho que alguém vá experimentar a mesma sensação que tive ao assistir esse filme. Não digo isso por prepotência, mas é que esse assunto me afeta de maneira quase doentia. A maioria das pessoas acha tranquilizante o fato de todos os "monstros" da sociedade estarem trancados num prédio grande destruindo uns aos outros, mas a verdade é que eu não consigo imaginar um ambiente mais cheio de desesperança que uma cadeia. Não sei bem o por que. Não tenho nenhum parente ou conhecido na prisão. Nunca estive em uma, pra ser sincera. Tenho consciência do tipo de pessoas que se encontra lá dentro, mas não consigo ignorar, do mesmo jeito. Talvez numa vida passada eu tenha morrido em Alcatraz ou na Ilha Grande, quem sabe.

Mas não é disso que eu quero falar aqui. O fato é que, mesmo tendo perdido as aulas em que a minha turma viu o resto do filme, senti-me na obrigação de vê-lo até o final. Por isso, baixei e o vi todo pelo computador. E acho que entendi um pouco porque o filme mexeu comigo. Sim, é uma mistura dos assuntos que me afetam mais, como já disse. Sim, me angustiou do começo ao fim. Sim, doeu. Mas, no fundo, bem por trás de tudo, eu senti um pouquinho de esperança. Um tantinho de nada, imperceptível se você não prestar atenção. Não pelo final ou pelas opiniões dos personagens, mas pelo decorrer dos acontecimentos - pela luta.

Neste ponto, é necessário explicar um pouco da história do filme (coisa que, honestamente, não queria ter fazer, pra não deixar isso aqui com cara de resenha): Miguel, deputado federal, visita Jorge, que, da cadeia, comanda todo o tráfico de uma das maiores favelas do Rio de Janeiro (o filme não especifica qual, mas a verdade é que pode ser qualquer uma). A partir dessa visita, entretanto, o filme começa a contar o passado dos dois, que, por incrível que pareça, se conhecem desde a infância e se encontram de novo na vida adulta, no presídio da Ilha Grande. Miguel, contrário à ditadura militar, é um preso político - Jorge, por outro lado, é apenas um preso comum, condenado por assalto. E essa diferença, que parece insignificante, acaba determinando toda a história. Mesmo presos, os detentos políticos não deixam de ter seus ideais - tanto que, sendo maioria, eles dominam toda a prisão, que é obrigada a agir sob suas três maiores regras: Sem roubo, sem estupro e sem fumar maconha. Englobando todos os presos comuns em seus ideais, também, por conseqüência, eles declaram que todos ali são companheiros e se referem à prisão toda como "o coletivo". E isso é baseado numa história real.

Acho que foi isso que me conquistou, no final das contas. O que me leva, também, à parte que mais gostei no filme, que é quando o Jorge leva uma surra dos guardas no corredor entre as celas, e todos os prisioneiros começam a bater nas portas com as canecas e as mãos, com um coro conjunto de "Solta o cara, porra, solta o cara!". Essa energia tribal é que me fascina. Uma luta, um ideal, um objetivo em conjunto. Revolução. Mudança. Igualdade. Liberdade. Revolução, revolução, revolução.

Essa palavra que a gente tanto ouve nas aulas de história faz um efeito diferente em mim. Traz uma espécie de excitação, uma energia anormal, algo que brota e cresce o tempo todo na minha alma e que eu nem sei direito o que é. Tem gente que diz que o mais bonito é morrer por amor, mas, para mim, a beleza está em morrer por um ideal. Morrer por algo não palpável, que pode jamais vir a se realizar. Morrer por um bem maior. Morrer por gente que você não conheceu e nem virá a conhecer. Morrer por tudo que você viveu, por tudo que você passou. Morrer para mudar algo. Morrer porque você se recusou a desistir.

Tem gente que despreza essas tentativas. Tem gente que acha tolo, inútil, uma utopia. Mas eu só tenho olhos para os que não acharam - para os presos do coletivo do presídio da Ilha Grande, para Harvey Milk, para Fidel Castro, para Voltaire, para Joana D'arc. Para aqueles que criticaram o mundo. Para aqueles que tentaram mudá-lo. Por mais que tivessem várias opiniões erradas, por mais que possam ter recorrido à truques baixos, por mais que possam ter falhado em vários aspectos, eles fizeram algo.

Acho que eles entenderiam essa sensação, às vezes. Essa vontade de fazer algo. De mudar algo. Fome de revolução. Às vezes essa vontade se apossa de mim de um jeito tão intenso que não sei sequer o que fazer para me livrar de toda essa energia. Nessas horas, eu lembro de uma das últimas cenas de Capitães da Areia, e só o Jorge Amado me entende, através dos atabaques que ressoam como clarins de guerra, da primavera da luta, "a voz da revolução chama Pedro Bala".

Será que é pretensão dizer que a ouço também? A voz da revolução, a voz da guerra. Tem uma causa me chamando em algum lugar - ou duas, ou três, ou milhares. Quero lutar por todas elas. Gostaria de morrer por todas elas, também - mas só se morre uma vez, então vou ter que dar um jeito de continuar viva.

Essa sensação não é coisa de hoje. Eu a tenho desde pequena. Ela me atormentava constatemente, junto com uma pesada impotência que uma menina de sete anos não deveria sentir. Até que, um dia, eu perdi a cabeça e desabafei tudo com a minha mãe, chorando, porque o mundo estava horrível e eu não podia fazer nada. E ela não mentiu pra mim, não disse que o mundo estava bem sem a minha ajuda. Ela me disse para crescer. Ela me disse para aprender tudo que eu podia por enquanto, para sentir toda a raiva que quisesse agora, para crescer o máximo que pudesse internamente e então, fazer algo.

E é o que estou fazendo. E eu espero nunca perder isso. Não quero jamais me deixar seduzir pela indiferença, de jeito nenhum: Preciso da raiva e da sensação de injustiça para ouvir essa voz. Essa voz que levou tanta gente à morte. Preciso de todas as minhas emoções para não começar a olhar para eles e taxá-los de tolos. Para continuar a encará-los sem pena, sem tristeza, e ainda pensar que é assim que eu quero ser.

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

All the pretty faces

Ela era feia.

Ela tinha um nariz especialmente grande, a pele cheia de espinhas, o cabelo despenteado. O aparelho era cheio de borrachinhas e pedaços de comida que davam um pouco de nojo quando ela ria. A única coisa que se salvava eram os olhos. Eles eram azuis, profundamente azuis - e grandes, e com cílios compridos. Mas eles não importavam. O mais feio nela eram os dentes, e eles apareciam o tempo todo, nas risadas escandalosas que ela dava - e dava com os olhos se fechando ligeiramente, acabando com a sua única qualidade.

Nas minhas lembranças, ela parecia estar sempre mastigando algo. Não era gorda, a propósito - era magra, alta e sem corpo. Ela tinha algumas fitas coloridas amarradas num dos pulsos. Acho que uma delas era verde, mas não lembro direito. Não lembro nem o nome dela (acho que ela também se chamava Fernanda, mas é só uma impressão). Não éramos muito íntimas, afinal.

Ela gostava de mim.

Até hoje não entendo direito o motivo, e não é falsa modéstia. Ela parecia se socializar bem com as pessoas. Mas era sempre do meu lado que se sentava, todas as aulas, o pulso com a fita verde-limão amarrada se apoiando de forma displicente na carteira, como uma menina infinitamente mais bonita não conseguiria fazer jamais. Ela gostava bastante de mim. Nunca nos vemos fora da sala do curso, mas ela me adicionou no orkut e me mandou um depoimento falando como se fôssemos velhas amigas. Ela costumava rir muito das piadas e comentários bobos que eu fazia - dizia que eram hilários. Ela falava o tempo todo que eu era "muito engraçada".

Era do tipo que se apoiava no ombro dos outros para rir. No meu, principalmente. Apoiava-se e jogava o corpo para frente, rindo alto, escandalosamente, atraindo risadinhas de deboche dos outros alunos e um olhar de censura da professora. Chorava de rir fácil. E limpava as lágrimas de riso com as pontas dos dedos, abrindo ligeiramente os olhos muito azuis, os dentes feios completamente à mostra.

Acho que eu gostava dela, também.

Depois que saí do curso, nosso contato se tornou escasso. Fomos trocando scraps cada vez menos até pararmos de vez. Não senti falta. Mas, recentemente, passei por uma alteração de seu profile no orkut, que dizia que ela tinha mudado muito, que tinha amadurecido e parado de fazer besteiras. Os álbuns ainda estavam cheios, mas não havia mais foto no avatar. Nunca cheguei a vê-la de novo.

Espero que continue feia. E que continue rindo.

X

Ele era lindo. Ele tinha cabelos escuros e sedosos, grandes olhos castanhos que brilhavam muito e lábios grossos. Acho que eu poderia ter tido uma espécie de paixonite infantil por ele, algum dia, se não nos conhecêssemos a tanto tempo e nos odiássemos na mesma medida. Eu lembro o nome dele, ainda, mas não quero citar aqui - ele tinha um nome duplo e comum, e chamá-lo o fazia detestável.

Não me lembro quando nos conhecemos. Acho que foi no maternal, ou em algum momento do jardim de infância. Me lembro que éramos bons amigos. Algumas das minhas coleguinhas já tinham escolhido os garotos de quem "gostavam", mas eu ainda não via a diferença entre o gênerio masculino e feminino, então nunca consegui gostar dele. Sabia, meio que com indiferença, que ele era bonito, mas ele poderia ser deformado que não significaria nada para mim. Ele era engraçado. Era engraçado, porque ele fazia piadas o tempo todo, mas ria pouco. Desde pequeno, ele tinha uma tendência para o deboche, e a maioria de seus risos era assim.

Fomos amigos por um tempo. Ficávamos nas mesmas turmas, brincávamos no recreio. Freqüentamos a mesma colônia de férias - e ele costumava desobedecer aos monitores e nadar até o lado mais fundo da piscina (no que eu nunca o acompanhava, embora ambos fôssemos capazes de nadar ali), e então se remexer em falso desespero e fingir que se afogava. E eu, que tinha tanto talento para a estupidez como ele para o deboche, esquecia rapidamente os meus princípios e nadava até ali, apenas para ficar furiosa enquanto ele ria e bater nas suas costas.

Eu batia muito nele.

Não lembro direito quando a amizade deu lugar à implicância mútua. Não conversávamos nem brincávamos mais juntos, mas ele gostava de me incomodar, xingando e roubando as minhas coisas. Eu batia nele, chutava, ficávamos trocando ofensas aos gritos até algum professor intervir. E aí vinha a minha vitória, enquanto ele era levado para o coordenador, com os olhos brilhando de raiva. Mas às vezes eu não vencia. Às vezes ele ganhava e eu começava a chorar ali mesmo - a suprema derrota.

Algumas vezes ainda dava para enxergar um vestígio da nossa antiga amizade - ele mandou um garoto que riu do meu choro calar a boca; eu livrei a cara dele na coordenação um pouco depois. Mas nunca passou disso. O deboche dele começou a ficar pior. Ele machucava as pessoas. Nunca bateu em mim intencionalmente, que eu me lembre, mas o fazia com outros. Ele tirava dinheiro de alguns alunos, jogava mijo em outros. Conhecia toda uma série de palavrões e fazia questrão de exercer sua fluência neles em plena sala de aula. Mesmo assim, eu sentia uma espécie de carinho relutante por ele, talvez só pelo fato de conhecê-lo há tanto tempo.

Aí ele saiu do colégio, eu saí do colégio, e não voltamos a nos ver. Ouvi dizer que os pais os mandaram para um colégio bem rigoroso. Não imagino como deve se sair lá - provavelmente, mal. Ele continua debochado, sem dúvida. Continua bonito. Mas tenho a impressão de que os olhos dele não brilham mais.

X

Não sei se ele era bonito ou feio. Ele tinha cabelos castanhos um pouco compridos, usava óculos, e não lembro de que cor eram seus olhos. Não lembro seu nome também. Tinha a pele clara e algumas espinhas, mas também alguns sinais.

Ele era mais velho, do segundo ou terceiro ano. Gostava de matemática, era calmo e paciente. Não tínhamos nada em comum e nunca reparamos um no outro. Eu estava na sexta série, e fugia dos "mais velhos" como o diabo foge da cruz. Ele apenas não me notava, o que, honestamente, eu não teria feito questão de mudar. Não tinha nenhum penteado ou estilo fora do normal. Na verdade, nunca teríamos falado um com o outro, se não fosse aquele único interesse comum: A biblioteca. Ele a freqüentava tanto quanto eu. E, um dia, quando eu devolvia A Mão de Leonardo, ele se dirigiu à mim pela primeira vez, com a voz séria e calma: "Esse livro é muito bom."

Foi a primeira vez que reparei em sua presença. Ele não era bonito o bastante para me intimidar, mas não era feio o bastante para atrair meu assombro. Respondi normalmente, e ele respondeu a minha resposta normalmente, e assim nasceu a nossa pequena amizade - normalmente.

Digo pequena porque jamais levamos adiante. Talvez soubéssemos que, na ausência de uma porção de livros, nosso contato soaria desconfortável e artificial. Às vezes nos cumprimentávamos nos corredores, mas era só. Nunca nos aprofundamos muito nas nossoas conversas, elas eram sempre superficiais e comuns: Matérias de escola, livros, etc. Ele tinha por mim o que parecia ser uma espécie de instinto paternal. Era bastante certinho e isso às vezes me irritava. Lembro de uma vez em que, pouco antes de uma prova de matemática, comentei que estava com dificuldades na matéria. Ele ofereceu ajuda, mas recusei educadamente. Mais tarde, ao receber uma nota baixa, comentei isso com ele, com um sorriso sem graça. Esperava que ele sorrisse, mas recebi, ao contrário, um olhar de censura e um: "Viu, se tivesse aceitado minha ajuda, isso não aconteceria."

Agora que paro para lembrar, não lembro de tê-lo visto sorrindo. Não que seja grande coisa - convivemos por pouco tempo, afinal. Mas o engraçado é que, apesar disso, ele nunca me pareceu triste.

É, acho que foi isso que me chamou a atenção nele. Ele nunca sorria e raramente fazia piadas. Mas não parecia melancólico ou tímido, apenas sério, quieto e compenetrado. Naquela vez, pensei que só oferecera ajuda na matéria por educação, mas agora penso que era seu jeito de fazer as coisas, e que a censura depois não teve o intuito de me irritar - acho que isso nem deve ter passado pela cabeça dele. Ele não tinha nenhuma segunda intenção ao me abordar na biblioteca, nem mesmo como amigo - só reparara em mim por causa do livro, mesmo. Era uma pessoa interessante, no fim das contas. A sua simplicidade o fazia difícil de entender.

Acho que ele era bonito.

X

Nunca cheguei a trocar nem duas palavras com ela. Para falar a verdade, ela foi expulsa meses depois de eu chegar na escola. Era mais velha, e nem devia saber da minha existência, mas eu a conhecia, definitivamente. Loura oxigenada, com o cabelo comprido ressecado; maquiagem fortíssima nos olhos e nos lábios às oito horas da manhã; decotes e vestidos chamativos e exagerados - além de um ar ligeiramente doentio. Ela me assustara logo à primeira vista, por ser um estereótipo tão descarado. Pensei que deviam proibi-la de ser tão... Tão clichê. Só lhe faltava um cigarro na boca para completar o personagem barato.

E sua história seguira o mesmo curso de todas as outras. Pálida em excesso, com olheiras visíveis debaixo de toda a sombra absurdamente escura, dava para perceber que ela se drogava só de olhar. Não era como um outro menino que também estava metido nisso - ele disfarçava bem, com o jeito de anjinho, loiro natural de cabelo lisíssimo e olhos azuis. Nunca o achei bonito, e fiquei surpresa ao descobrir que eles já haviam ficado - até transado, segundo as más línguas. Poderia perfeitamente ser verdade, mas, por algum motivo, achei que não era. Ela parecia mulher demais para ele, independentemente do seu ar doentio ou não. Era tão baixa que ficava até menor que ele, que já não era alto - mas, para mim, o contraste entre os dois era evidente.

Não que ela fosse bonita. Digo, racionalmente falando, ela não era: Olhos escuros e comuns, pele pálida, dentes grandes. Tinha um corpo relativamente bonito, nada excepcional. Mesmo os seus decotes pareciam mais apelativos do que sensuais. Mas, por algum motivo, eu a achava atraente. Não por sua personalidade, já que eu não a conhecia, mas por alguma outra coisa que não sabia explicar.

Jamais conversamos de fato, e tudo que eu sabia sobre ela era o que ouvia dos outros. Mas as informações não eram muito úteis, entretanto: Eles apenas diziam que ela era puta e que era drogada, coisa que eu podia perceber só de olhá-la (embora, por um tempo, tentasse não fazê-lo - pensava que ela se parecia tanto com esse estereótipo que seria absurdo se o fosse de fato). Ela foi a primeira pessoa que eu conheci que era, de fato, um desses clichês de histórias ruins, sem tirar nem pôr. Mesmo assim, fascinava-me de um jeito estranho.

E, como todo clichê, seu final foi previsível: Foi pega fumando maconha no banheiro e devidamente expulsa da escola. Ela era tão comum que não pude entender porque me atraía, até passar por ela na rua, um dia desses. Continuava maquiada e apelativa, e seu cabelo ainda era oxigenado e mal cortado. Trazia o ar doentio de sempre e um sorriso meio sádico nos lábios, desta vez segurando o devido cigarro. A beleza da decadência.

X

Esses dias, no msn, pedi para uma amiga um tema para postar aqui - e ela disse "pessoas bonitas". Isso despertou algo em mim. Não sei o que falar da beleza em si, só de pessoas que, por ventura, a possuem - mesmo que não pareça. Gosto de observá-las, e destacar os detalhes de seus seres, aqui e ali. De analisá-las, de ruminá-las e de jamais entendê-las. Gosto muito.

Agora, a beleza? Acho que só vendo-as você seria capaz de entender.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Analisando um microchip

Eu achei que a conhecia de algum lugar. Não conhecia seu rosto, não sabia sequer o nome dela. Mas eu a conhecia de algum lugar. Expremi os olhos e o cérebro em procura do nick na tela, por um bom tempo, e concluí: "acho que eu já li alguma coisa dela". Satisfeita por ter lembrado, cliquei. E realmente já lera alguma coisa dela. Uma fic do Near, outra do Mello. O nome dela nas páginas de comentários de algumas fanfics que eu gostara. Acho que nunca cheguei a mencionar, mas eu achava engraçada a maneira como ela comentava - um parágrafo separando cada frase. De um jeito direto, quase seco. Não era o tipo de elogio que eu faria, nunca foi. Mesmo assim, gostei dela. Não de maneira sobrenatural, nada além de uma leve simpatia. O suficiente para responder os comentários, pelo menos. E o suficiente para que, quando ela pedisse, eu a adicionasse no msn.

Não foi como se tivéssemos uma sintonia imediata. Ela não me despertava tanta curiosidade assim, e não acho que eu despertasse nela. Mas conversamos. Trocamos idéias, opiniões, risadas e, mais tarde, fics. A fic que fiz pra ela acabou sendo meu primeiro e maior sucesso. Se teve algo a ver, não sei. Mas ela ficou feliz, e ficou séculos me xingando e me elogiando por causa daquilo, e me fala até hoje que foi uma das melhores que eu já fiz. E eu não falei isso na época, mas aquilo valeu mais do que todos os outros comentários na página de reviews, juntos.

(Hoje em dia, não considero aquela fic tão boa como achamos na época. Eu mudaria alguns trechos dela, com certeza. Algumas palavras, algumas estruturas, o modo como alguns personagens foram colocados. Mudaria alguns diálogos. Mas eu a daria para a mesma pessoa.)

Se me pedissem para estabelecer um momento em que os meus sentimentos com relação à ela mudaram, eu não saberia responder. Foi um processo natural, através de todas as nossas bobagens - eu virei o Near e ela virou o Mello; ela virou o Luffy e eu virei o Zoro; e todas as nossas semelhanças foram explicadas por um microchip secreto que faz com que sejamos a mesma pessoa. Ela me batizou de Nana, e até hoje berra quando mais alguém tenta usar esse apelido comigo; eu a atormentei até ela me contar o seu verdadeiro nome, que, como prometi, nunca contei a ninguém. Dividimos uma quantidade inimaginável de piadas internas, tantas que não consigo lembrar de todas, como "um domingo verdadeiro", "idiotas de capa são heróis também", "essa fic está ONE PIECE", o emoticon noiado e o *bigod*. E, de repente, o meu primeiro pensamento ao ter uma idéia para uma fic não foi mais como ela ficaria quando eu a passasse pro word, e sim: "Porra, a Anne vai surtar com isso". E ela sempre surtava, e me elogiava-xingava de um jeito que só nós entendíamos.

E a gente ria.

Eu gosto de rir com ela. Sempre gostei. Eu gosto de surtar aleatoriamente com ela no meio de um assunto completamente diferente, pra depois ouvir um "nossa, que random 8D". Eu gosto quando uma de nós chega do nada, falando "NANA, OLHA SÓ", e deixa um emoticon retardado que sempre acaba virando mania entre nós. Eu gosto de xingar quando ela me manda um trecho de uma fic que ela escreveu, só pra me ouvir falar "está foda, desgraçada" - e então mandar um "mesmo?" só pra ouvir mais elogios. Eu gosto de ter a mesma opinião que ela. Eu gosto de discordar dela, e entrar num debate muitas vezes insignificante que às vezes dura um tempão. Eu gosto quando falo que vou viajar e ela me xinga por não ter avisado antes, e quando eu volto me manda um "NANA" no momento em que reapareço no msn.

Eu gosto dela.

Hoje, ela faz aniversário. E de repente me dei conta que, todo esse tempo, eu nunca disse de verdade o que - o quanto ela significa pra mim. Acho que ela já sabe, seja por causa das fics, das risadas, dos "te amo" na hora de sair do msn. Acho que ela sabe. Mas eu queria dizer de novo, num texto bobo, cheio de pagação de pau e rasgação de seda, que ela é uma das pessoas mais importantes na minha vida.

Porque acho que nunca disse isso. E acho que devia ter dito mais vezes.

E acho que é isso. Ela não combina com esses textos, ela vai me xingar. Mas eu queria falar aqui a verdade, falar que cada um dos corações e "te amo's" de despedida foram sinceros, falar que eu não visualizo os meus dias sem ela, e falar que, acima de tudo, mesmo que eu estivesse rindo, a cada vez que eu a chamei de "nakama", eu falei sério.

X


"Se me obrigassem a dizer porque o amava, sinto que a minha única resposta seria: 'Porque era ele, porque era eu'." - Michel Eyquem de Montaigne.

sábado, 8 de agosto de 2009

Pensamentos soltos,

porque tenho tido muitos ultimamente.

X

Acho que as pessoas falam demais da dor. Não que isso seja fora do comum - afinal, ela é ruim, ela machuca, ela dói. Acho que as pessoas fogem demais dela. Dá pra entender, claro - a idéia de se ferir dá medo. Mas, às vezes, acho que algumas pessoas deviam se machucar mais - porque eu acho que, às vezes, você precisa sentir dor só para saber que está vivo.

X

É engraçado que todo mundo ache que o amor é um sentimento nobre. Eu acho que o amor é egoísta. Ele quer tudo que envolve uma pessoa só para si. Não que isso o faça ruim, mas o faz humano - é, o amor é o sentimento mais humano que existe. Porque ele oscila entre o que é bom e o que é ruim, o que faz bem e o que te machuca. Ele é sábio e infantil, ele se contradiz no que ele próprio é. Ele é cego e ele vê tudo. Ele é hipócrita. Ele foge o tempo todo, e ele é mais corajoso que todas as pessoas do mundo juntas. E tudo depende da maneira como lidam com ele - ou ele te torna uma pessoa melhor, ou ele te destrói.

Ele é como qualquer um de nós.

X

A parte de andar sozinha que eu mais gosto, é a de poder olhar pro céu sem ninguém estranhar. E sempre que faço isso, a impressão que tenho é que nunca vi algo tão, tão bonito e tão imenso - e, se ficar muito tempo olhando, tenho uma sensação tão grande de paz que acho que vou ser esmagada por ela. Eu queria que mais pessoas sentissem isso.

X

Se afeiçoar a alguém é engraçado: Às vezes, você se afeiçoa por alguém egoísta, com problemas de relacionamento, venenoso, estúpido e exagerado - e você sabe de tudo isso. Mas, mesmo assim, você se afeiçoa à ele - não pelo que ele é, mas pelo que vocês vivem. Porque ele está lá, só isso. Porque ele está lá.

X

Queria que as pessoas falassem mais de risos. Já temos analogias demais para as lágrimas. Queria que alguém um dia descrevesse (fosse num post de blog, num livro, numa série, numa música ou num filme) a sensação de rir de verdade, com vontade, de uma piada às vezes nem tão engraçada - mas que acumula os risos na sua boca como se fossem água, e num momento eles transbordam, e escorrem por todo o lado enquanto você se inclina pra frente e leva as mãos ao rosto, e você ainda fica rindo por um bom momento sem nenhum motivo, quando o momento engraçado já passou.

Queria que as pessoas rissem mais.

X

Queria entender que eu não sou capaz de entender tudo.

Queria me conformar com isso.

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Um momento de beleza


A água era quente de um jeito incomum para um rio. Não me incomodava, e, aparentemente, nem a eles. Passavam ao meu redor como se não se importassem. Uns eram minúsculos, quase girinos; outros, maiores do que a minha cabeça. Era de se esperar que estivessem assustados, mas ignoraram-me solenemente. Apenas continuaram passando, dirigindo-me, no máximo, um ou outro olhar distraído. Um deles era tão pequeno que me chamou a atenção, mas logo sumiu da minha vista, infiltrando-se entre as algas - ah, as algas. Elas não pareciam plantas - pareciam fios de cabelo, crescendo da terra, sedosos, macios, vivos. Passei a mão entre uma delas e senti meus dedos atravessarem sem resistência. Elas eram lindas. Tudo ali era lindo, e só então, depois de tantas vezes ter me deparado com o termo em diversos livros, eu entendi o significado de outro mundo. Um mundo melhor que o nosso. E alguns imbecis ainda nos chamam de dominantes, ah - não repetiriam tal besteira se estivessem no meu lugar, abismada diante de tantas cores e sendo tratada como nada. Não me entendam errado, não era de propósito - lá, eles não tem hierarquias. Mas, se tivessem, com certeza o trono seria dele, aquele bicho de quase dois metros de comprimento, o único que me olhou nos olhos. Me olhou como se perguntasse: "Mais uma?" E lhe respondi em silêncio, "mais uma". E ele pareceu suspirar de frustração antes de me dar às costas, a barbatana roçando por um momento nos meus dedos. Outro mundo. Quero reencarnar lá, nesse lugar de cabelos de alga e coroas de escamas, com girinos e peixes de dois metros. Mas sem tritões ou sereias - sem humanos para estragá-lo, desta vez.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

101 coisas em 1001 dias

Me rendi e fiz a minha lista. Se se interessarem, acessem aqui para ver o regulamento. Participem, porque é muito legal 8D Tenho até 12 de abril de 2012 pra cumprir tudo. As tarefas cumpridas eu vou colocar em verde, e as "em andamento" estarão em azul. Os em verde-claro eu decidi abandonar. Os "x" entre chaves são os episódios que eu já vi/livros que eu já li/jogos ou mangás que já adquiri.

Em mais de um ano, foram 51 metas cumpridas e duas abandonadas.

Ler:


1- Ler “Dom Casmurro”.

2- Ler o ”Ciclo da Herança”. [X][X][X]

3- Ler “O Jogo do Anjo”.

4- Ler “A Sombra do Vento”.

5- Ler “A Hora da Estrela”.

6- Terminar de ler a série “As Fronteiras do Universo”. [x][x][x]

7- Ler “A Moreninha”.

8- Ler “Senhora”.

9- Ler “Iracema”.

10- Ler “Zorro”.

11- Ler algum livro do Álvares de Azevedo. (li "Noite na Taverna")

12- Ler “O Idiota”.

13- Ler “Demian”.

14- Tomar coragem e ler “Amanhecer”.

15- Ler “A Luneta Mágica”.

16- Ler “Oliver Twist”.


17- Ler a série “A Torre Negra”. [X][X][X][X][X][X][7]

18- Ler a trilogia “O Senhor dos Anéis”. [1][2][3]

19- Adquirir “Lolita”.


Assistir:


20- Assistir “Philadelphia".

21- Assistir “O Estranho Mundo de Jack”.

22- Terminar a segunda temporada de The Big Bang Theory. [x][x][x][x][x][x][x][x][x][x][x][x][x][x][x][x][x][x][x][x][x][x][x]

23- Assistir “Juno”.

24- Assistir “Em Busca da Terra do Nunca”.

25- Assistir duas temporadas inteiras de “Law & Order – Special Victims Unit”. [X][X]

26- Assistir “A Cor Púrpura”.

27- Assistir uma temporada de “Supernatural”. [X][X][X][X][X][X][X][X][X][X][X][X][X][X][X][X][X][X][X][X][X][X]

28- Assistir uma temporada de “House”. [X][X][X][X][X][X][X][X][X][X][X][X][X][X][X][X][X][X][X][X][X][X]

29- Assistir uma temporada de “Friends”. [X][X][X][X][X][X][X][X][X][X][X][X][X][X][X][X][X][X][X][X][X][X][X][X]

30- Terminar de ver Nobuta wo Produce. [x][x][x][x][x][x][x][x][x][x]

31- Assistir “Donnie Darko”.

32- Assistir “Um Sonho de Liberdade”.

33- Assitir "Quase Dois Irmãos".

34- Assistir algum episódio de “Pushing Daisies”. (vi o Pilot)



Otaku:


35- Ver “Suzumiya Haruhi no Yuuutsu”. [X][X][X][X][X][X][X][X][X][X][X][X][X][X]

36-Ver “Soul Eater”. [X][X][X][X][X][X][X][X][X][X][X][X][X][X][X][X][X][X][X][X][X][X][X][X][X][X][X][X][X][X][X][X][X][X][X][X][X][X][X][X][X][X][X][X][X][X][X][X][X][X][X]

37-Adquirir os mangás de One Piece que eu ainda não tenho. [X][X][X][X][X][X][X][X][X][X][X][X][X][X][X][X][X][X][X][X][X][X][X][X][X][X][X][X][X][X][X][X][X][X][X][X][X][X][X][X][X][X][X][X][X][X][X][X][X][X][51][X][X][X][X][X][X][X][X][X][X][X][X][X][X][X][X][X][X][X]

38- Comprar um garage kit individual do Zoro.

39- Comprar alguma coisa do Ryohei, de Katekyo Hitman Reborn. (comprei um chaveiro e o anel *-*)

40- Ir a algum evento fora do Rio.

41- Comprar os cartazes de “wanted” dos personagens de One Piece que eu ainda não tenho. [X - Sanji][Nami][X - Brooke]

42- Criar coragem e voltar a acompanhar o mangá de Naruto.

43- Criar coragem e voltar a acompanhar o mangá de Bleach.

44- Ver “Code Geass”. [X][X][X][X][X][X][X][X][X][X][X][X][X][X][X][X][X][18][19][20][21][22][23][24]

45- Adquirir mais dez volumes de Shaman King. [X][X][X][X][X][X][X][X][X][X]

46- Terminar de ver “Black Cat” [x][x][x][x][x][x][x][x][x][x][x][x][x][x][x][x][x][x][x][x][x][x][x]

47- Voltar a ler e acompanhar D. Gray-Man.

48- Comprar três garage kits de pessoas de KHR. [X - Lambo][2][3]

49- Participar de um daqueles duelos medievais de eventos, sem medo da fila.

50- Comprar um chapéu de Chopper.

51- Limpar todos os meus garage kits, uma vez a cada duas semanas por três meses. (29/12) (13/01) (28/01)(12/02) (27/02) (14/03) (29/03)

52- Ir ao Anime Friends.

53- Ver três filmes de One Piece que eu ainda não tenha visto. [X][X][X]


Escrever:


54- Completar os quatro sets do 30Cookies. [1][2][3][4]

55- Publicar três histórias originais no fictionpress. [X - "Nostalgia".][X - "Lama".][X - "Cherchez la femme".]

56- Completar o Desafio de OP com a Anne.

57- Completar o Desafio dos Fandons Inativos com a Abra.

58- Postar no blog semanalmente, durante dois meses. (13/10) (20/10) (29/10) (05/11) (12/11) (19/11) (26/11) (03/12)

59- Escrever uma fic Kanon/Takuya pra Claudia.

60- Chegar a ter duzentas fics na minha conta no fanfiction.

61- Fazer um post pro Golden Five aqui no blog.

62- Fazer um post pra Salinha aqui no blog.

63- Escrever uma fic Hao/Anna pra Anne.

64- Publicar uma fic a cada duas semanas, durante três meses.

65- Escrever uma fic de Nana. ("Iris", aqui.)

66- Fazer um post sobre a Clarice aqui no blog.

67- Fazer um post sobre escrever. (In the middle)


Vida:


68- Ficar uma semana sem brigar/discutir com ninguém.

69- Ficar três dias sem falar palavrão.

70- Conhecer no mínimo cinco das minhas amizades “virtuais”. [1][2][3][4][5]

71- Ir num show que não seja do McFly.

73- Conhecer a Abra.

72- Fazer um elogio sincero para alguém durante todos os dias, de duas semanas. (início: 09/03; final: 24/03)

74- Comprar um MP4 novo, com fones que eu não quebre em uma semana e um carregador decente.

75- Dizer “sim” pra tudo durante um dia inteiro.

76- Ficar um mês sem esquecer de fazer nenhum dever da escola. (início: 08/08) (final: 08/09)

77- Ir ao teatro quatro vezes. [X - Vi "Fragmentos do Desejo".][2][3][4]

78- Aprender a cozinhar algo além de ovo mexido/frito ou miojo. (aprendi a fazer bife 8D)

79- Ir a dois outros países, que eu ainda não conheça. [X - França] [X- Mônaco] (ambos em julho de 2010)

80- Adquirir no mínimo três camisas do thinkgeek. [X - Mushroom 1up.][X - I see dumb people.][X - You read my t-shirt.]

81- Comprar um CD do Lifehouse. (comprei "Lifehouse" 8D)

82- Mandar uma carta por semana, por dois meses.

83- Mandar um depoimento por dia durante uma semana. (23/11 - Ray; 24/11 - Peixe; 25/11 - Nanda; 26/11 - Bru; 27/11 - Isabella (mandei dois); 28/11 - Dot; 29/11 - Nathan; 30/11- Lela.)

84- Conseguir um computador pro meu quarto.

85- Raspar todas as figurinhas que eu colei no meu armário aos oito anos e não tive coragem de tirar até agora.

86- Comprar uma bota preta sem salto.

87- Aprender a regra da crase.

88- Guardar dez reais da minha mesada todo mês, durante seis meses.

89- Ficar sem usar o computador por três dias.

90- Ficar um mês sem comer chocolate.


Videogame:


91- Zerar algum Final Fantasy.

92- Zerar todos os Devil May Cry. [1][2][3]

93- Jogar Tekken 5.

94- Terminar a campanha de WoW.

95- Zerar o Guitar Hero no expert.

96- Adquirir mais três jogos de OP. [X][X][3]

97- Adquirir algum jogo de KHR.

98- Criar e jogar com uma espécie herbívora no Spore.

99- Zerar Pirates’ Carnival.

100- Fazer um Sim ser abduzido.

101- Comprar o Anime Hero. (comprei os três 8D)